Insistem em que eu diga, nesta circunstância, uma palavra.
Direi duas, e rápidas, que, para menos, sobra o tempo e, para mais, ele escasseia.
Apresentar um livro não estará necessariamente mal desde que esse livro seja - para quem deve zelar por que os livros não ofendam o interesse nacional e a moral pública - apresentável.
Porque podem os livros, se desacautelados, ser lâminas, não de dois, mas de quatro gumes.
Cortando, e cerces, os dedos que os folheiam, e vazando os olhos que, incautos, os consomem.
Assim cegando as fés e as almas.
Justamente à indispensável pergunta de se este livro, estas "Noivas de São Bento", foi objecto da leitura prévia que institucionalmente o avalize, temo muito que não possa responder-se se não, tanto quanto me informam, pela negativa.
Se este título, "As Noivas de São Bento", pretende ser uma metáfora, o legítimo receio é que tal eventual carácter metafórico constitua justamente uma agravante.
Porque sendo este Santo uma topografia simbólica, designadamente uma Rua que desce, há motivos para temer o pior.
Sabendo-se no que essa Rua desemboca, e o que, cortando à direita, e desta vez subindo, se alcança.
Folheando, depois, mesmo só de forma esparsa, este livro, eu diria que também se não percebe o que ele quer, a que vem ele.
E em particular quem pretende ele personificar.
Há neste livro um protagonista, o que, vendo bem, não é um mau princípio.
Mas sendo todas as restantes personagens mulheres, dezenas, se não centenas, eventualmente milhares, de mulheres.
E sendo o livro constituído tão só por cartas, bilhetes, cartões-de-visita, instruções, e alocuções, que o protagonista porventura terá remetido a todas essas mulheres, ao longo de quatro ou cinco décadas.
A começar por cartas a sua Mãe e suas irmãs.
Passando por missivas, bilhetes e instruções a meninas de uma cidade universitária vagarosamente atravessada por um rio, a uma governanta feroz, a mães de família trazendo flores, a aristocratas usando chás e torradas, a uma cartomante que entra e sai por uma porta dos fundos, a uma cantora de ópera ameaçando insistentemente matar-se.
Passando por alocuções a praças inteiras cheias de viúvas e órfãs condecoradas nos peitos dos seus vestidos negros.
E, através de todas essas mulheres, tudo e todos, o protagonista dirige e distribui, maridos, pais, irmãos, altos funcionários do Estado, dignitários civis, oficiais das Forças Armadas, hierarquias religiosas; todos e tudo o protagonista tece e gere, interesses, ambições, fortunas, demandas, pleitos, negócios, ocultações, denúncias, arrestações, enfeites e casamentos.
Isto enquanto o mar implacavelmente sobe, alagando na primeira década, as planícies, e galgando, na última, as calçadas das cidades e as faldas das serras mais altas.
Sendo uma dessas figuras femininas de nacionalidade estrangeira, mais precisamente francesa, o que, para além da exuberância perturbadora da personagem, coloca porventura delicadas questões de natureza diplomática.
Ora havendo no livro, além de iniciais, alguns apelidos, ou reconhecíveis ou claramente alusivos a personagens reais, legitimamente se receia que tal possa ameaçar sensibilidades, recatos e memórias.
Mais colocando este livro perigosamente, se não mesmo ofensivamente, a questão do papel da Mulher.
Estas mulheres às dezenas, às centenas, porventura aos milhares, desacompanhadas de seus maridos e de seus pais, sequer da vigilância de seus irmãos, e assim inteiramente desprotegidas, porque descem elas, sobre os rostos, os véus dos seus chapéus, porque galgam elas, já a tarde anoitece, já as sombras esfriam, uma calçada, porque apertam elas, contra os peitos, as suas malas de mão, porque se esgueiram elas por um portão, em busca de quem, em busca de quê?
Por tudo isto, pela delicadeza destes elevados riscos e numerosos perigos, esta apresentação será o alcance máximo que esta pretendida publicação, estas "Noivas de São Bento", terá.
Tratarão os Serviços que têm estas coisas por incumbência de obstar a que não seja se não esse o seu destino, assegurando que o autor e a casa editorial sejam devidamente responsabilizados e imediatamente colocados na impossibilidade de persistirem.
Eu diria que este autor, se não fora por este livro, deveria, pelos livros anteriores, presumindo-se também que pelos livros ulteriores, ser impedido de o ser, o que os Serviços garantirão.
A casa editora, essa - que deveria acatar o Pacto que o seu nome, e ao que me dizem não só o seu nome, Ibericamente implícita, ou seja a defesa intransigente da Cruzada do Ocidente - insiste em dar, e não poucas vezes, voz a quantos hostilizam os valores aos quais nos devemos.
Ditas estas breves palavras, deixai que eu volte ao meu trabalho, que é na parte de baixo da memória e por dentro das ambições de quantos, nesta velha Nação de vai para Nove Séculos, servem os interesses que mais importam.
Nada está perdido, se nada de essencial for ganho pelos inimigos da Pátria. Isto é, do Estado.
Disse.
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