do seu chefe civil, o que a desarmou em parte o movimento, pela grande influência de Bombarda na Carbonária e na Maçonaria, mas sobretudo na Carbonária. Tinha a Revolução um chefe militar, a figura impoluta do Almirante Cândido dos Reis, que ficou muito confuso com a notícia do assassinato do Miguel Bombarda. De tal forma que começou a vaguear pela cidade durante a noite de 3 para 4 e se suicida, por perceber que a Revolução estava falhada. É então que aparece - e no livro de Artur Portela muito, com umas lunetas tristes - uma figura, o Machado dos Santos, que se mantém na Rotunda, apesar de praticamente vencido no plano militar. Mas, depois, o Ministro Plenipotenciário Alemão, que tinha a chancelaria ali perto do Parque Mayer, como o fogo era entre a Rotunda e os Restauradores, pediu uma trégua de uma hora, para os súbditos de Sua Majestade Imperial serem evacuados da Avenida. Foi durante essa hora que os republicanos, civis e militares, desceram tranquilamente, com vivas à República, a Avenida da Liberdade, e desarmaram completamente a defesa monárquica. O Paiva Couceiro resistiu, mas por pouco tempo. E assim se proclamou a República! Com duas perdas enormes: Miguel Bombarda e Cândido dos Reis.
Ora o livro de Artur Portela começa justamente com o assassinato de Miguel Bombarda. É um momento de grande dramatismo.
O protagonista do romance, António Portugal, ainda rapazote, está ali por acaso porque vinha à procura de uma tia-avó, Carlota Joaquina, internada aqui neste hospital.
O livro acaba num Portugal conturbado. Aliás, com uma parte muito bonita e muito romântica. Porque Artur Portela, contrariamente ao que poderá parecer, é um romântico. Tem páginas de verdadeiro romantismo e de extremo encanto. Por exemplo, a parte da Genciana, que é, eu sei, uma homenagem ao Miguéis. Genciana que é uma figura extraordinária, modelo de Columbano, quando ela está a ser pintada pelo mestre. São sobre ela as páginas de um momento muito bonito, que se chama "Dos beijos, o sabor" e que é um verdadeiro poema.
O António Portugal é Portugal. Há aqui esta junção entre uma figura de ficção e a História de Portugal durante todo o Século XX.
Um capítulo, enormemente divertido, é o do dr. Júlio, que é, nem mais nem menos, o Júlio Dantas! Aparece numa conferência futurista que está a fazer, quem?, o Almada, o Almada do Anti-Dantas, e tudo o que decorre desse capítulo é extremamente interessante.
Outro capítulo, com o título de "Do Universal para o Particular", é de grande actualidade. Fala de um tal A. Reis. Eu poderia dizer que é o Alves dos Reis. Verdadeiramente, é um capítulo sobre a engenharia financeira, que vai até aos tempos de hoje. Simplesmente, hoje, essa engenharia financeira é considerada uma grande arte, enquanto que, no tempo do Alves dos Reis, não. Tanto que morreu na cadeia.
Há uma outra parte muito engraçada que é o dos atiradores em Belém. O general Gomes da Costa instala-se no Palácio Belém, mas que é que ele faz? Põe os soldados a atirarem ao alvo, dentro do Palácio. E os oficiais a praticarem o sabre.
Mas há, no livro, um salvador da República, o "Pai Lopes", ou seja, o Lopes de Oliveira, que eu ainda conheci pessoalmente, que era um homem de grande bigodaça. Conheci-o no princípio do MUD. Era professor do Liceu Passos Manuel.(...) Ora o Lopes de Oliveira ia a Belém pregar a República e o radical-socialismo ao pobre do general. Mas o general não está minimamente voltado para perceber os conselhos do Lopes de Oliveira.
A verdade é que, entretanto, chega, pé ante pé, o Dr. Oliveira. Talvez com uma certa injustiça, no livro é ele que faz a intriga para que o pobre do general seja deportado para os Açores, como foi o Gomes da Costa. Com aquela corpulência, queriam metê-lo no carro e ele não havia maneira de caber no carro.
E o Dr. Oliveira diz, no livro:
- Façam-no caber!
Há também as cenas do Palazzo de Venezia que são encantadoras, também muito divertidas, que se passam com o Mussolini, que aparece como "O Sogro", e o Conde de Ciano, que aparece como "O Genro".
Depois, entra a Guerra de Espanha e o António Portugal, como era inevitável, vai parar a Badajoz, a praça de touros de Badajoz e está quase a ser fuzilado quando diz:
-Alto, eu sou de Portugal, sou Português!
Lá o conseguem tirar da praça de touros. Dando-se imediatamente a seguir a matança que todos nós conhecemos.
Depois vem a Segunda Guerra Mundial e a fase toda da última parte, que se conhece melhor.
O lance intitulado "As estátuas jacentes" tem a ver com a DITA que é, no livro, sempre a "dita" PIDE.
Há um capítulo também extraordinariamente interessante que é o do Capitão Gavião, que rapta, no Atlântico, sobre o Atlântico, uma nave. É obviamente o Galvão.
Depois, há, mais próximo de nós, o capítulo sobre o "Óscar" e sobre o que é descrito como "O Rapto da Columbina", ou seja, a adesão à Europa, em que aparecem o Dr. Nobre, que sou evidentemente eu!, e um tal suposto Manuel Lino, disfarce do António Portugal, a tentar entrar nos Jerónimos para boicotar a cerimónia!
Dos capítulos de acção mais próxima de nós, o mais importante é o que se chama "Portugal Imprescritível". É já o futuro. Já entrámos no Século XXI. Aí o António Portugal, combalido, velho, encontra-se com o sobrinho-neto. E o que é que ele verifica? Verifica que nós estamos todos à beira de ser metidos numa prisão preventiva. Todos os Portugueses em prisão preventiva perpétua! O que é um prognóstico nada animador.
Mas o livro acaba romanticamente bem porque acaba com os beijos da Genciana e com o desejo avassalador de saber a que sabiam os beijos da Genciana.
Estamos pois perante a vida de um António Portugal que é, afinal, o próprio Portugal.
Diz o livro, na sua contra-capa: "Empolgante, emocionante e divertidíssimo. O regresso ao puro prazer da leitura."
E é realmente o que este livro fornece. Gostei muito de o ler, de tão simultaneamente divertido, dramático e revelador.
( Texto não revisto pelo Autor) |