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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio



Mário Soares apresenta o romance de Artur Portela, junto do editor Nelson De Matos e do director do hospital Miguel Bombarda Dr.José Matos.

Mário Soares

Anotações de algumas passagens do improviso de Mário Soares na sua apresentação da "História Fantástica de António Portugal", de Artur Portela, no Salão Nobre do Hospital Miguel Bombarda, a 17 de Fevereiro de 2004:


"...o livro (...) começa no dia 3 de Outubro de 1910, no momento em que foi assassinado, por um alienado, e não por jesuítas, não por uma conspiração de extrema-direita, como se chegou a dizer na altura, o Miguel Bombarda. Bombarda era uma grande sumidade do ponto de vista médico e psiquiátrico. Mas ao mesmo tempo era o chefe civil da Revolução do 5 de Outubro. Digamos que essa Revolução começa justamente aqui, no dia 3, com o assassinato

do seu chefe civil, o que a desarmou em parte o movimento, pela grande influência de Bombarda na Carbonária e na Maçonaria, mas sobretudo na Carbonária. Tinha a Revolução um chefe militar, a figura impoluta do Almirante Cândido dos Reis, que ficou muito confuso com a notícia do assassinato do Miguel Bombarda. De tal forma que começou a vaguear pela cidade durante a noite de 3 para 4 e se suicida, por perceber que a Revolução estava falhada. É então que aparece - e no livro de Artur Portela muito, com umas lunetas tristes - uma figura, o Machado dos Santos, que se mantém na Rotunda, apesar de praticamente vencido no plano militar. Mas, depois, o Ministro Plenipotenciário Alemão, que tinha a chancelaria ali perto do Parque Mayer, como o fogo era entre a Rotunda e os Restauradores, pediu uma trégua de uma hora, para os súbditos de Sua Majestade Imperial serem evacuados da Avenida. Foi durante essa hora que os republicanos, civis e militares, desceram tranquilamente, com vivas à República, a Avenida da Liberdade, e desarmaram completamente a defesa monárquica. O Paiva Couceiro resistiu, mas por pouco tempo. E assim se proclamou a República! Com duas perdas enormes: Miguel Bombarda e Cândido dos Reis.
Ora o livro de Artur Portela começa justamente com o assassinato de Miguel Bombarda. É um momento de grande dramatismo.
O protagonista do romance, António Portugal, ainda rapazote, está ali por acaso porque vinha à procura de uma tia-avó, Carlota Joaquina, internada aqui neste hospital.
O livro acaba num Portugal conturbado. Aliás, com uma parte muito bonita e muito romântica. Porque Artur Portela, contrariamente ao que poderá parecer, é um romântico. Tem páginas de verdadeiro romantismo e de extremo encanto. Por exemplo, a parte da Genciana, que é, eu sei, uma homenagem ao Miguéis. Genciana que é uma figura extraordinária, modelo de Columbano, quando ela está a ser pintada pelo mestre. São sobre ela as páginas de um momento muito bonito, que se chama "Dos beijos, o sabor" e que é um verdadeiro poema.
O António Portugal é Portugal. Há aqui esta junção entre uma figura de ficção e a História de Portugal durante todo o Século XX.
Um capítulo, enormemente divertido, é o do dr. Júlio, que é, nem mais nem menos, o Júlio Dantas! Aparece numa conferência futurista que está a fazer, quem?, o Almada, o Almada do Anti-Dantas, e tudo o que decorre desse capítulo é extremamente interessante.
Outro capítulo, com o título de "Do Universal para o Particular", é de grande actualidade. Fala de um tal A. Reis. Eu poderia dizer que é o Alves dos Reis. Verdadeiramente, é um capítulo sobre a engenharia financeira, que vai até aos tempos de hoje. Simplesmente, hoje, essa engenharia financeira é considerada uma grande arte, enquanto que, no tempo do Alves dos Reis, não. Tanto que morreu na cadeia.
Há uma outra parte muito engraçada que é o dos atiradores em Belém. O general Gomes da Costa instala-se no Palácio Belém, mas que é que ele faz? Põe os soldados a atirarem ao alvo, dentro do Palácio. E os oficiais a praticarem o sabre.
Mas há, no livro, um salvador da República, o "Pai Lopes", ou seja, o Lopes de Oliveira, que eu ainda conheci pessoalmente, que era um homem de grande bigodaça. Conheci-o no princípio do MUD. Era professor do Liceu Passos Manuel.(...) Ora o Lopes de Oliveira ia a Belém pregar a República e o radical-socialismo ao pobre do general. Mas o general não está minimamente voltado para perceber os conselhos do Lopes de Oliveira.
A verdade é que, entretanto, chega, pé ante pé, o Dr. Oliveira. Talvez com uma certa injustiça, no livro é ele que faz a intriga para que o pobre do general seja deportado para os Açores, como foi o Gomes da Costa. Com aquela corpulência, queriam metê-lo no carro e ele não havia maneira de caber no carro.
E o Dr. Oliveira diz, no livro:
- Façam-no caber!
Há também as cenas do Palazzo de Venezia que são encantadoras, também muito divertidas, que se passam com o Mussolini, que aparece como "O Sogro", e o Conde de Ciano, que aparece como "O Genro".
Depois, entra a Guerra de Espanha e o António Portugal, como era inevitável, vai parar a Badajoz, a praça de touros de Badajoz e está quase a ser fuzilado quando diz:
-Alto, eu sou de Portugal, sou Português!
Lá o conseguem tirar da praça de touros. Dando-se imediatamente a seguir a matança que todos nós conhecemos.
Depois vem a Segunda Guerra Mundial e a fase toda da última parte, que se conhece melhor.
O lance intitulado "As estátuas jacentes" tem a ver com a DITA que é, no livro, sempre a "dita" PIDE.
Há um capítulo também extraordinariamente interessante que é o do Capitão Gavião, que rapta, no Atlântico, sobre o Atlântico, uma nave. É obviamente o Galvão.
Depois, há, mais próximo de nós, o capítulo sobre o "Óscar" e sobre o que é descrito como "O Rapto da Columbina", ou seja, a adesão à Europa, em que aparecem o Dr. Nobre, que sou evidentemente eu!, e um tal suposto Manuel Lino, disfarce do António Portugal, a tentar entrar nos Jerónimos para boicotar a cerimónia!
Dos capítulos de acção mais próxima de nós, o mais importante é o que se chama "Portugal Imprescritível". É já o futuro. Já entrámos no Século XXI. Aí o António Portugal, combalido, velho, encontra-se com o sobrinho-neto. E o que é que ele verifica? Verifica que nós estamos todos à beira de ser metidos numa prisão preventiva. Todos os Portugueses em prisão preventiva perpétua! O que é um prognóstico nada animador.
Mas o livro acaba romanticamente bem porque acaba com os beijos da Genciana e com o desejo avassalador de saber a que sabiam os beijos da Genciana.
Estamos pois perante a vida de um António Portugal que é, afinal, o próprio Portugal.
Diz o livro, na sua contra-capa: "Empolgante, emocionante e divertidíssimo. O regresso ao puro prazer da leitura."
E é realmente o que este livro fornece. Gostei muito de o ler, de tão simultaneamente divertido, dramático e revelador.

( Texto não revisto pelo Autor)





 
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