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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio



UM TIN-TIN CENTENÁRIO E DESINFIEL NO PAÍS DOS BRANDOS COSTUMES

Manuel da Silva Ramos
Livro após livro Artur Portela constrói pacientemente não só o roteiro sentimental, afectivo, político, social, paródico, para abordar de viés este país fantástico que se chama Portugal mas também lança as suas redes galáxicas para capturar outros grandes temas da modernidade como os tubarões dos media ou as baleias da globalização passando pelas pescadinhas de rabo

na boca da interactividade ou pelos cardumes de sardinhas das guerras humanitárias.
É dizer quanto rica e profunda é a obra de Artur Portela que depois do tão excelente e tão pouco falado "A Manobra de Valsalva" se está a posicionar como um dos nossos melhores romancistas actuais. O futuro, essa certeza de amanhã, confirmará a poderosa escrita e o prodigioso poder de invenção do escritor. Em "História Fantástica de António Portugal", o seu novo livro, então o fogo de artifício é soberbo como se o nosso século XX fosse revisitado ao mesmo tempo por Fantomas, Spielberg ou os Pieds Nickelés. O humor faz descarrilar toda uma galeria de personagens históricas reconhecíveis pela quilha e pelos flancos, e outros serão só caricaturados porque saíram pela porta do cavalo da História ( da História, precise-se, escrita por Artur Portela), porque é precisamente dessa História reinventada que se trata aqui em doses não homeopáticas. Desde o rapaz de fato-macaco do Futurismo, passando pelo dr. Oliveira e os seus três Efes, até ao assalto ao Zeppelin perpetrado aereamente pelo Capitão Gavião, e acabando nas missões humanitárias dos novos guerreiros ao serviço da paz - francos avatares ao serviço da literatura.
O excepcional teórico do romance que é Milan Kundera bem nos avisou:" Quanto mais observarmos atentamente, obstinadamente, uma realidade mais nós compreendemos que ela não responde à ideia que as pessoas fazem dele; por exemplo, sob o demorado olhar de Kafka, ela revela-se cada vez mais insensata, logo irracional, logo inverosímil. Foi o olhar ávido colocado longamente sobre o mundo real que conduziu Kafka, e outros grandes romancistas depois dele, para além da fronteira do inverosímil".
Estas palavras colam perfeitamente a este romance cómico-grotesco, a esta saga desinibida de António Portugal, Tin-Tin maldizente do "enforcador e forcado", onde rimos e também nos emocionamos, onde aprendemos que a nossa vida está ameaçada por carros celulares e a nossa saúde está bem, portugamente, à beira de um qualquer insano hospital de alienados.
Escrita num português musical de virtuoso, entre Fernão Mendes Pinto e Guimarães Rosa, este livro de desiniciação de Artur portela é a colocar nas bibliotecas mais exigentes entre as facécias de Fréderick Rolfe, o Barão Corvo e as proezas de Gore Vidal. E, claro, não muito longe deve estar a lombada das "Aventuras do Barão de Munchausen".
Em resumo: Artur Portela não é um grande escritor histórico. É um grande escritor tout court, isto é, um grande escritor que pode transformar tudo o que toca com a tenaz da sua alquimia pessoal, e que, progressivamente, de obra para obra, e para bem de nós todos, seus fiéis leitores, se poetisa e nos poetisa a todos nós, portugueses capados, com uma acuidade invulgar. Um riso garantido pois com um estilo esplêndido e uma imaginação diabólica.

M.S.R.

JF/20/02/04





 
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