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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio





Crítica de Fernando Venâncio, saída no semanário "Expresso" de 24/04/04

Os olhos verdes de Portugal

Um burlesco século XX português na ficção de Portela

 

A nossa narrativa recente não criou de Portugal um retrato vantajoso, benévolo sequer. Pode dar-se o caso de simplesmente não termos virtudes e de ser a nossa ficção tanto desapiedada como clarividente. E pode acontecer, também, sermos de virtudes pouco plasmáveis, restando aos ficcionistas moldarem-nos os vícios, esses, sim, matéria dócil e assoprável. Facto é que os nossos romancistas, argutos, ou apenas merecedores de melhor povo, se repartem, sempre, em duas castas: a dos que nos tomam a sério e nos choram no ombro (o tipo António Lobo Antunes) e a dos que não se deixam impressionar e acabam divertindo-se a si e a nós (o tipo Mário de Carvalho). Esta segunda categoria, de destino minoritário, vem sendo brindada, desde há anos, com o novo fôlego romanesco, satírico este, com que Artur Portela apareceu. A sua recente História Fantástica de António Portugal de novo o mostra.
Não é já um sector da nossa vida pública que se revela risível, como sucedia com os «media» em A Manobra de Valsalva (comentado no «Cartaz» de 13/4/2002). Agora, é toda a vida pública de um século inteiro a aguentar a chalaça. Em dúzia e meia de episódios reconhecíveis, atravessamos cem anos numa cavalgada de desdouro em desdouro, desde os antecessores do regicídio à actualíssima fase de «feroz autoculpabilização» colectiva, e sem fim que se veja. Para alguma coisa o protagonista, António Portugal, andará hoje mais que centenário (era já um adolescente em 1908), mas ainda pronto para muitas.
E o herói esteve, deve dizer-se, em quase todas. Prendado com uns charmosos olhos verdes orlados de vermelho, foi ele quem limpou a Browning que abateria o rei, quem cobriu Afonso Costa num atentado de eléctrico («Lisboa chovia horizontalmente balas perdidas tentando achá-lo»), quem, por uma vez sem protagonismo, esteve nos acontecimentos da Cova da Iria (e a narrativa, feita na primeira pessoa pela Própria ali vinda, é um dos grandes momentos do livro), quem estava de suplente para balear Sidónio, quem tentou sabotar a ida de Cerejeira ao conclave de que se suponha sair papa, quem (saltamos décadas) acompanhou Galvão no assalto ao Zepelim, nem mais, quem se aprontava para sequestrar o dr. Oliveira, o tal, da cama hospitalar, quem se postará de carabina num telhado para eliminar um Soares («dr. Nobre») íntimo da representação americana, apenas estilhaçando um aperitivo.
«Ninguém pode ter a certeza de lhe escapar», escrevia sobre o autor, em fins de 1974, na contracapa de um volume de A Funda, certo Jorge Sampaio. Era um aviso. Pode hesitar-se em chamar «sátira» a esta História Fantástica de António Portugal. Há nela, para tanto, uma genérica bonomia, , que redime os próprios que teriam de ser maus, com Salazar e a sua PIDE à frente. É assim que nos vê Artur Portela. Resta-nos, sem entusiasmo nem lamento, constatar que não há, entre nós, muito melhor, e que a nossa ficção, quando não é bem comportada, já faz com o burlesco a festa toda.



Carta enviada por Artur Portela
ao Director do EXPRESSO
a propósito de uma passagem da crítica transcrita


Monte Estoril, 26 de Abril de 2004

Ex.mo Senhor
Director


Peço e agradeço a publicação das seguintes linhas.

No suplemento “ACTUAL” do “Expresso” de 24 de Abril de 2004, foi publicada uma crítica de Fernando Venâncio ao meu romance História Fantástica de António Portugal. Respeitando naturalmente o direito à opinião do crítico, constesto o que poderá ser tomado como factual em parte da seguinte passagem: “Pode hesitar-se em chamar “sátira” a esta História Fantástica de António Portugal. Há nela, para tanto, uma genérica bonomia, que redime os próprios que teriam de ser maus, com Salazar e a sua PIDE à frente. É assim que nos vê Artur Portela.” Esta afirmação não corresponde a factos. Tal redenção, pura e simplesmente, não existe no livro. Não é essa a forma como “nos vê” e sobretudo os vê, de forma abundante, o autor. Disseram, aliás, de sua justiça, outros comentadores. Dirão, creio que sem dificuldade, os leitores.

Com os melhores cumprimentos