A nossa narrativa recente não
criou de Portugal um retrato vantajoso, benévolo sequer.
Pode dar-se o caso de simplesmente não termos virtudes
e de ser a nossa ficção tanto desapiedada como
clarividente. E pode acontecer, também, sermos de virtudes
pouco plasmáveis, restando aos ficcionistas moldarem-nos
os vícios, esses, sim, matéria dócil e assoprável.
Facto é que os nossos romancistas, argutos, ou apenas
merecedores de melhor povo, se repartem, sempre, em duas castas:
a dos que nos tomam a sério e nos choram no ombro (o tipo
António Lobo Antunes) e a dos que não se deixam
impressionar e acabam divertindo-se a si e a nós (o tipo
Mário de Carvalho). Esta segunda categoria, de destino
minoritário, vem sendo brindada, desde há anos,
com o novo fôlego romanesco, satírico este, com
que Artur Portela apareceu. A sua recente História Fantástica
de António Portugal de novo o mostra.
Não é já um sector da nossa vida pública que se revela
risível, como sucedia com os «media» em A Manobra de Valsalva
(comentado no «Cartaz» de 13/4/2002). Agora, é toda a vida
pública de um século inteiro a aguentar a chalaça. Em dúzia
e meia de episódios reconhecíveis, atravessamos cem anos numa cavalgada
de desdouro em desdouro, desde os antecessores do regicídio à actualíssima
fase de «feroz autoculpabilização» colectiva, e sem
fim que se veja. Para alguma coisa o protagonista, António Portugal, andará hoje
mais que centenário (era já um adolescente em 1908), mas ainda
pronto para muitas.
E o herói esteve, deve dizer-se, em quase todas. Prendado com uns charmosos
olhos verdes orlados de vermelho, foi ele quem limpou a Browning que abateria
o rei, quem cobriu Afonso Costa num atentado de eléctrico («Lisboa
chovia horizontalmente balas perdidas tentando achá-lo»), quem,
por uma vez sem protagonismo, esteve nos acontecimentos da Cova da Iria (e a
narrativa, feita na primeira pessoa pela Própria ali vinda, é um
dos grandes momentos do livro), quem estava de suplente para balear Sidónio,
quem tentou sabotar a ida de Cerejeira ao conclave de que se suponha sair papa,
quem (saltamos décadas) acompanhou Galvão no assalto ao Zepelim,
nem mais, quem se aprontava para sequestrar o dr. Oliveira, o tal, da cama hospitalar,
quem se postará de carabina num telhado para eliminar um Soares («dr.
Nobre») íntimo da representação americana, apenas
estilhaçando um aperitivo.
«Ninguém pode ter a certeza de lhe escapar», escrevia sobre
o autor, em fins de 1974, na contracapa de um volume de A Funda, certo Jorge
Sampaio. Era um aviso. Pode hesitar-se em chamar «sátira» a
esta História Fantástica de António Portugal. Há nela,
para tanto, uma genérica bonomia, , que redime os próprios que
teriam de ser maus, com Salazar e a sua PIDE à frente. É assim
que nos vê Artur Portela. Resta-nos, sem entusiasmo nem lamento, constatar
que não há, entre nós, muito melhor, e que a nossa ficção,
quando não é bem comportada, já faz com o burlesco a festa
toda.
|