Com este livro aconteceu aqui uma coisa particularmente interessante. É que à sua extraordinária qualidade enquanto peça de Literatura correspondeu a maneira muito original como o apresentou o professor Alexandre Quintanilha! Foi o entendimento do processo histórico inapelavelmente português subjacente ao romance, à ficção, entendido por um cientista com vivência e formação estrangeira.
Mas isto é só uma primeira perplexidade.
Aqui há uns tempos perguntava eu ao Artur Portela se não escrevera mais ficção. É que algumas obras suas anteriores haviam passado quase despercebidas. Este espero que com este aconteça o contrário, tanto mais que sai numa editora com força ofensiva no campo promocional. Porém, não há força que resiste a situações como esta. É que desde os leitores apenas isso até aos leitores privilegiados, como os escritores e os artistas, pelo menos eu suponho que eles são privilegiados, pela experiência criadora que têm, esses todos primaram pela ausência. Esta cidade do Porto já não é o que era e caminhou para pior. Aflitivamente para pior. Hoje houve uma perda de oportunidade de diálogo e convívio com um dos grandes escritores do nosso tempo. Pela sua vigorosa escrita, pela corrosão do seu humor, pela densidade efectiva da sua ironia, pelo rigor da sua intervenção.
Mas esta é só uma segunda perplexidade.
Gostaria ainda de fazer uma sugestão. Uma sugestão de influência espanhola. É que os grandes escritores espanhóis e hispano-americanos estão a publicar volumes maciços com os seus contos completos. Ora se no panorama da nossa melhor literatura há um contista ele é o Artur Portela. E como seu leitor desde a sua ficção inicial, A Gravata berrante , passando pelo Thelonious Monk , pela Gravata Berrante até ao relativamente recente As três lágrimas paralelas , sempre o apreciei e cuido que aqueles que, por motivos cronológicos, já não o apanharam nos anos 60, ganhariam com esse encontro. E, além disso, os volumes das suas esplêndidas crónicas, essas desde A Feira das Vaidades , bem dariam uma antologia exemplar contra o cinzentismo militante no nosso jornalismo.
Assim como entendo que deveria recuperar-se para os leitores deste tempo esse belíssimo romance de amor que é Rama, verdadeiramente , bem como seria uma boa lição histórica a reedição de um outro romance de Artur Portela, O Código de Hamurabi .
Agora, esta História Fantástica de António Portugal é um romance histórico com o valor acrescentado de ser uma peça fundamental na renovação do género. Arnaldo Gama, que era cá do Porto, tinha costela de historiador mas entendia que as pessoas não leriam livros de História, pelo que efabulou com diversos períodos históricos. Porém, a obsessão do rigor histórico quase o perdeu, por aborrecedor e desvios da fábula! Aconteceu algo semelhante com um Teixeira de Vasconcelos e, de algum modo, com Carlos Malheiro Dias. Quem se atreveria a pegar num romance sobre as lutas liberais intitulado... O prato de arroz doce?! Mas o Portela apresenta uma linguagem nova para o romance histórico, compondo um fresco notável da História de Portugal. Demorei algum tempo a ler este livro por andei de surpresa em surpresa. É uma visão tremenda. Só que poderá esbater-se tudo isto contra o muro da indiferença dos lobbies institucionalizados, armados e equipados em capelas que existem efectivamente e muitos dizem que não.
Gostaria que este livro fosse comentado na praça pública como muito merece. Para já, torna-se urgente a sua leitura.
Por isso, possivelmente como o mais antigo leitor deste escritor aqui nesta sala, permitam-me que o felicite por esta História Fantástica de António Portugal . |