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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio



José Pires

"Este é um livro de memórias abertas e de algumas feridas ainda por sarar..."

Texto de apresentação da "História Fantástica de António Portugal", de Artur Portela, na "Alma-Azul", em Castelo Branco, em 6 de Março de 2004.

(...) E foi assim que este leitor leu, com olhos de ler, esta quase tragicomédia, este quase livro de viagens, estas quase dez décadas do último tempo de Portugal.

E este quase tudo é um enorme prazer que nasce num romance, rico de muitas e divertidas ironias, algumas poéticas páginas, ricas de românticas ou até dramáticas imagens e de um fantástico fio condutor chamado António, de uma família a que todos pertencemos, mesmo quando nos distraímos - Portugal.

Finda a leitura ficou-me esta síntese, quase plágio das sinopses introdutórias dos capítulos:

" De como os recônditos cágados souberam guardar-se, resguardados dentro da casca, para assomar de novo a cabeça e poder voltar, voltando-nos o tempo, aos tempos em que fingiam não ter casa, porque todos nós estávamos, nesse tempo e hoje, de novo descascados e em risco de preventiva nacional. "

Andei, nesta aventura, por vezes ao ritmo de um rio poderoso, tal como naveguei nas Décadas da Ásia, ou, numa ironia que nos leva ao delta, vivendo sensações por vezes quase líricas, por outras incómodas memórias emotivas ou até comichosos sorrisos, como as vividas com aquele pirata romântico e aventureiro da Peregrinação.

Este António poderia ter, como nome próprio, Damião, Fernão, Luís, José ou Francisco, mas era imprescindível que tivesse, para este percurso, de apelido Portugal.

Não sei se é bem ou mal parecer, mas não gosto de ler às pinguinhas, como quem goza, em episódios, um copo de bagaço. Gosto mais de ler num sorvo. Foi o que fiz. Este António não viveu episódios de uma qualquer novela, antes desenrolou um novelo de peripécias e vivências.

Algumas os meus olhos, com cinquenta e um anos, não poderiam ter vivido e outras os olhos do meu avô já não puderam conhecer.

Foi o meu avô que me falou dos homens-cágados e o António Portugal que ajudou a trazê-los, nessa forma, à superfície.

(...) para mim, esta história é também, infelizmente, a história de alguns cágados que por aí andaram uns tempos remetidos, pacientemente, ao interior das suas cascas e que por obra desta bonomia, que nos caracteriza, puderam esticar de novo os seus arrogantes pescoços, em jornais, televisões, ministérios, empresas, organizações e tantas outras tribunas institucionais.

Num preocupante número, alguns são cágados figurões, poucos chegaram ou chegarão a figuras e imensos continuam a ser figurantes cágados sem casca mas frementes de desejo em poder tê-la.

Foi por isso que nesta história fantástica o pobre António, sem querer chegou a ministro, o ministro sem querer julgou chegar à cultura (ou seria secretário de estado?), os paquetes eram dirigíveis que se tomavam no ar, por avionetas, o triângulo divino pôde fazer, na maquinação de Fátima o seu manifesto contra a liberdade e Alves dos Reis não foi condenado, antes repetido de patamar em patamar cada vez mais especializado, como se tivéssemos sido nós os inventores da clonagem.

Este é um livro de memórias abertas e de algumas feridas ainda por sarar, que estão gravadas a fogo no fundo dos olhos verde-rubros deste António Portugal, acompanhando a amargura visível e o sebastianismo invisível do mais verdadeiro e triste anedotário português do século XX e desta stand-up comedy que ameaça ser este inicio do século XXI, tantas vezes assumido com pompas e circunstâncias, na circunstância engravatada de alguns cágados que, no íntimo da concha, souberam, esperar pelo momento oportuno do regresso, ricocheteando todos os desaires.

Lido o livro, a sensação que me fica é a de que Artur Portela nos propõe tão só uma viagem, pelos olhos de António, em memórias de abrir.

Memórias de abrir a história mais recente, que é a que melhor nos escapa, com olhos de ver o que fomos, o que quisemos ser e aquilo em que nos tornámos, ou corremos o risco de nos tornar. Entre o regicídio e a perigosa anunciação das últimas oportunidades da indispensável defesa da nossa identidade, para que os nossos sobrinhos não descubram que só descobrimos a procura e possamos continuar a saborear os beijos das nossas Gencianas.



 
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