É uma honra para o Departamento de Letras termos, também, sido escolhidos para apresentação de História Fantástica de António Portugal .
Sabemos que é sempre difícil vir à Beira. Nem que seja do ponto de vista do imaginário. A macrocefalia do país, não é perpétua (era o que faltava), mas é duradoura. Nem Eça de Queirós avaliou, ou talvez sim, quão alargado era o prazo de validade para a frase: Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.
Com olhos do exterior, qualificaram de Beira, de margem, este território Criou-se um longe imenso...que nem a A 23, muito recente, conseguiu esbater.
Os longes, hoje, já não são espaciais, são outros..., talvez histórias de António Portugal daqui.
História que nos interessa, esta. Longe de ser um acto neutro, a leitura é uma experiência de construção, aberta... podendo mesmo modificar a intenção de quem escreveu. O desafio para o leitor entrar no processo implica sempre, creio, estabelecer cumplicidades de vária ordem.
Mas para o total prazer do texto, da História de António Portugal a cumplicidade é imprescindível.
História Fantástica, chama-lhe Artur Portela. É. Fantástica, na óptica de Todorov e fantástica pela fantasia. É uma obra moderna: andam por aqui, também, cânones do romance histórico, do memorialismo, uma leitura do país, em termos ficcionais pelos" olhos verdes com reflexos rubros" de António Portugal.
Obra híbrida que, de algum modo, assimila o destino de um povo ao de António. Que António? O nome não é arbitrário, claro. Há Antónios célebres na cultura portuguesa. Lembremos: Santo António de Lisboa, o mais venerado pelo povo; Padre António Vieira, que encarnou até à medula uma forma de ser português e sintetizou em frase lapidar o seu destino: tem um pequeno país para nascer e o mundo todo para morrer; António Salazar que, durante quase meio século, definiu, como quis/pode, o destino da nação.
E a História fantástica de António Portugal tem a ver com este Portugal de Antónios miraculosos, messianistas, ditadores e. ( Ao modelo da escrita de Portela).
Convive, no texto, com liberais, monárquicos, republicanos, socialistas e outros.
Personagem una, mas vária, transmigra de década para década, através da intrusão veridictiva da voz narrante.
Síntese humorística, mas simbolicamente coerente de séculos de vida colectiva,
" Estava-se mesmo a ver que António Portugal ia pelo seu destino. Que era ir, como os seus, na crista da vaga que leva esta desgraçada e gloriosa nação, vá ela de verde-pinho, vá ela de espuma- mar ".
Desgraça e glória, de " Os Portugal vinham sendo muitos deles centenários, pelo que oito gerações suas, vendo bem, nove, iam de uma ponta à outra da História desta recortada nação, indo ela longe da ponta de que seria extremo, porque, assim também pela calada, sem papéis, os Portugal cumpriam-se centenários. Assim seria este neto-sobrinho António. Seu pai, Manoel, imprimira, publicista, enquanto os vivia, os anos, desde o vintismo até hoje. Seu avô fizera a tranche do Antigo Regime. Seu bisavô, a da Restauração e das primeiras guerras da Independência. Os Filipes correspondiam, embora divididos entre madrilistas ou imperiais e reportugueses, alguns deles flutuantes, depois vila-viçosistas, a outra destas gerações. O açúcar e os escravos, a outra. A outra a passagem dos afonsinos à casa de Aviz. E assim sucessivamente, a passos larguíssimos. Tanto que nove a oito Portugais abarcam o país português, desde antes da própria contrariada mãe, de onde Porto Cale se cortou com sanha filial como nação, até ao castelo de D. Rilhafoles, onde justamente a oitava, ou sétima, geração, sendo assim o nosso António herói a décima, a décima primeira, se tanto ." Percurso secular,dito em frases-chave, em que transparece a convicção cultural de que o destino de Portugal, como escreveu Eduardo Lourenço, é " ... da ordem não só do milagre como da profecia " Nascimento, maturidade, declínios registados através de um olhar a que não escapam momentos, figuras relevantes, traços de identidade portuguesa. A Primeira República é o ponto de partida para uma análise que recorre à analepse e prolepse para envolver tempos e personagens marcantes que reconhecemos por indícios mais do que por descrição. Fado, Fátima - o nome nunca é registado -, Futebol e mais os positivistas, o Dr. Júlio que é o do Manifesto Anti -Dantas, Pessoa, a Maçonaria, Afonso Costa, Sidónio Pais, Salazar, a Guerra civil de Espanha, as Guerras mundiais e o Dr. Nobre que é Mário Soares...,ao pastel de bacalhau, entre outros, colocam ao leitor um desafio de decifração de que emerge, também o prazer de ler.
Por isso afirmamos que o livro exige cumplicidade, pede o conhecimento da História de Portugal. Lê-se, desde o início com um sorriso nos lábios. (Mesmo nos fragmentos líricos, ou trágicos como o de "O coro delas", quando nos comovemos com a sorte das mulheres portuguesas). O riso só se desencadeia com o fado, em caricatura, lisboeta e portuense.
Sorrimos, não rimos, talvez porque para passar do cómico ao humorístico seja preciso renunciar ao desprendimento, à superioridade. A piedade mais o humor criam o sorriso. E é incontornável não nos revermos na leitura lúcido-afectiva do país, de António Portugal
Obra inovadora, do ponto de vista da escrita, viola leis da morfologia e da sintaxe, surpreendendo, interpelando, divertindo. Há um lúdico que subjaz à construção da escrita, percorre o texto, motiva a leitura, assegura permanentemente a fruição. |