Desde que Octávio Paz explicou o fenómeno da apropriação de uma obra pelo leitor, como se nesse processo de olhar (isto é: ler) a literatura, como se estivéssemos face a uma outra recriação do objecto literário, que tenho sempre, para lá da inevitável distanciação, um certo pudor. E eu próprio, face a idêntica contingência de convocar outros para me lerem a mim, senti bem quanto a palavra voa e se torna terra livre onde lavram as mais diversas introspecções, alargando às vezes o imaginário inicial, fazendo do acto criador uma fonte essencial, mas talvez apenas o pequeno fio de água que depois os leitores transformarão, pela sua capacidade de sonhar, pelo prazer da leitura que é fértil em sugestões, pela mobilização da memória, num rio imenso que corre para o mar.
Ainda há dias pensava no acerto das ideias do grande escritor mexicano, quando a palavra luminosa do meu querido amigo Eduardo Lourenço veio ao meu encontro, como se também ele quisesse partilhar este momento, abrindo a enorme avenida de ideias que é o seu pensamento à problemática dicotómica do autor/leitor. Escreve Eduardo Lourenço: " Felizmente, homem como literatura está todo do lado do leitor que pode ser - e começou por ser, fatalmente, todo o autor digno desse nome. É como leitores que nós somos "literatura", paisagem invadida, submersa, iluminada por todas as emoções, sentimentos, angústias, alegrias, que parafraseando Pessoa não demos a nós mesmos nem à vida, mas estão lá, inscritas, escritas, nesse lugar sem lugar, nesse espaço mais vitual que todos os espaços virtuais que chamamos livro e em virtude do qual nós somos literatura". Tomo então posse desta espécie de certidão de legitimidade, firmada por Octávio Paz e por Eduardo Lourenço, para assumir a condição de leitor, apossando-me das páginas de "História Fantástica de António Portugal", o romance de Artur Portela, e com elas, navegando ou lavrando palavras, ir à descoberta de um país chamado Portugal, num confronto ora sorridente ora trágico, com memória histórica de fresca data.
Eça, que verberava, na última metade do século XIX, o tédio do romance português, dizia: "Mas é necessário por vezes que haja obras originais!" Ora, aqui está uma obra que tem quanto baste de inovação, quer no estilo, quer na arquitectura ficcional. É verdade que hoje, o tédio e o provincianismo convergem alegremente na sociedade portuguesa - a persistência temporal, actualizada e actualizante, da crítica queirosiana é, de certo modo, um remorso colectivo - embora os tiques do passado surjam agora com a sua cosmética europeísta e ultraliberal, com a sua letargia cívica, com o seu caceteirismo político, com a sua cultura de super-mercado.
Essas perplexidades supra-temporais não se ajustam, todavia, do meu ponto de vista, à criação literária verdadeiramente digna desse nome, onde poesia e prosa se afirmam como realidades de alta qualidade que, apesar da debilidade cultural do país (Portugal ocupa o último lugar da União Europeia na leitura de livros e jornais) e da incapacidade do poder para promover a Língua Portuguesa no país, no universo lusófono e no estrangeiro, podem ombrear, pela originalidade narrativa e temática, com literaturas de outras galáxias culturais bem mais poderosas.
O Artur Portela fez um romance histórico sobre o século XX português? - perguntarão alguns, julgando ver o autor convertido, subitamente, a um género de grande sucesso. Penso que ele construiu apenas um romance que só é histórico na exacta medida em que, penso eu, todos os romances são históricos por documentarem um tempo e recriarem uma realidade com balizas temporais bem definidas. Aliás, esse mergulho na realidade que é a própria substância da ficção, sendo um gesto desafiador dos privilégios dos deuses, como quer Vargas Llosa, pois é um acto demiurgo de um mundo outro, é o que pode fazer da literatura uma reconstrução da memória, superando a crítica que Lukacs fazia do romance, em meados do século passado, quando ele dizia que o romance caminhava no sentido do vazio porque já não tinha realidade, mas apenas uma caricatura dela. Ora, a literatura, tendo como alimento central a matéria de sonhos de que se faz o Homem e sem deixar de ser território livre a todas as ousadias criadoras, recuperou uma certa consciência da humanidade, num tempo em que a amnésia é pacientemente programada por impérios do efémero e do vazio. Quão importante é esta percepção da realidade no acto ficcional nunca saberemos, exactamente, sobretudo quando a substância dos dias, diz Elias Canetti, instalou a imagem que, "para além de um determinado ponto do tempo, a história deixou de ser real" e "sem de tal se aperceber, todo o género humano teria repentinamente abandonado a realidade".
Este combate em louvor da memória faz parte da "História Fantástica de António Portugal", embora os pressupostos da sua arquitectura romanesca transcendam, desde logo, o carácter meramente documental, para dar origem a uma viagem fantástica sobre a factualidade política do século passado, instantes cuja dimensão onírica surpreende a cada passo, com actores-personagens cujas experiências vivenciais escapam, pela riqueza imagética, à estrita biografia da história. Nesta saga, apenas a figura do dr. Oliveira como um fantasma sempre presente, tem os traços de outro António, o de Santa Combadão.
Mas quem maneja os cordelinhos da narrativa - sucessão de quadros, ou de histórias, ou de contos, ou de instantes - é António Portugal. Quem é este António? Poderíamos dizer: É um homem e uma circunstância chamada Portugal. E, por isso, a sua biografia romanesca, é o seu encontro e desencontro com Portugal. António é Portugal. Portugal é António. |