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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio



Carlos Pinto Coelho:

"Um romance (...) sobre o grande mistério que é esta coisa de ser português e de estar português"

Apresentação no Centro Cultural de Cascais/Fundação D. Luís I, em 11 de Março de 2004

 

Comecemos então, como nos relatórios de polícia, por uma mera enumeração dos factos.

Que são estes:

Estamos a 11 de Março. Há 29 anos, num 11 de Março como este, a revolução portuguesa agitava-se e o País com ela. Foi tudo como foi, nesse 11 de Março de 1975, de que a História reza. E que tanta turbulência levantou, que ainda hoje causa arrepios de memórias e de espinhas em muita gente.

Vinte meses depois disso, e por causa disso, um director de jornal fazia publicar um editorial, verberando:

" Mas quando é que seremos finalmente capazes, homens e partidos, de, quando se trata do interesse nacional, da honra nacional, da consciência, da dignidade, da Justiça, não ver camisolas, não ver cores, não ver siglas, não salivar slogans, não escolher, não repartir, não fazer Benficas-Sportings, mas lutar, todos juntos, a favor do que é justo, do que é limpo, do que é recto ? "

Hoje, 11 de Março de 2004, anda por aqui um livro do mesmíssimo director de então, voltando ao mesmíssimo assunto - que é o do que somos nós, os portugueses; do que somos, como somos e como fomos, e como fazemos por ir, sem saber bem para onde. Ora leia-se o que lá vem nesse livro:

" Tanta culpa, tão densa, tão ferozes estes brandos costumes, tão sempre o mesmo e de tão longe, tão antigo, tão familiar, tão hereditário, tão simultaneamente fantástico e real. "

Chama-se a isto, o quê? Uma data que se repete 29 anos depois, um mesmo tema em que um mesmo autor persiste, esgrimindo com o real em 75, usando agora o fantástico que liberdade da ficção lhe permite. Chama-se a isto o quê : coincidências, acasos, casualidades... ou antes fados, destinos, premonições?

A que viemos, aqui, esta noite? Encontrar um autor e tocar o seu livro? Ou, mais verdadeira e psicoticamente, vasculhar o livro para nos espiar, a nós próprios, que já sabemos que habitamos as suas páginas ? Estamos aqui numa plateia disposta a criticar o encenador ou numa ânsia de perceber de que maneira fez ele de nós actores, e que destino nos vai dar no final da peça?

Estes os factos, como num relatório de polícia.

Agora acrescento-lhes os nomes : O director de jornal e agora autor de romance chama-se Artur Portela. Antes Artur Portela Filho, agora só assim. O jornal em causa, em 1975, era o " Jornal Novo "; o livro desta noite tem por título " História Fantástica de António Portugal ".

Já todos sabem, porque este não é o primeiro nem seguramente o mais notável dos serões de lançamento do romance, que " António Portugal " começa e acaba num manicómio, entre o Regicídio e a União Europeia, tendo no início da história um jovem republicano de olhos verdes rubros e no fim ele mesmo, mas já tio-avô de um menino que também tem olhos verdes rubros. Pelo caminho ficam Sidónio Pais e Salazar, Gomes da Costa e Costa Gomes, África e o 25 de Abril, Humberto Delgado e o próprio Deus, Spínola e Mário Soares, saudosismos e bravuras, ironias e sarcasmos, num registo trepidante que salta da sátira e do escárneo, para o mais desarmante lirismo, para a mais descarada doçura. É um romance esquizofrénico, tal como António Portugal, o português, ( os portugueses? ) é ele próprio um esquizofrénico, um saltitão de humores e caracteres .

Os capítulos são curtos, estanques, aritméticos, esculpidos a cinzel, fazendo a reportagem, cada um, daquilo que querem significar. E o leitor segue a acção, segue os personagens segue os diálogos, segue as pulsões de Portela reagindo à História, mas nunca tem dúvidas sobre o sentido último das coisas que lê. Digamos que é um romance sem mistérios, sobre o grande mistério que é esta coisa de ser português e de estar português.

Mesmo no fim do romance, António Portugal conversa com o sobrinho-neto, que lhe diz: chamo-me "Pórtchugol ". Estamos nos dias de hoje. As jovens bandas portuguesas gravam discos em inglês, tudo é anglo-global e informatizado. OK. E dizem-me que Artur Portela terá dito qualquer coisa como isto: " Não, não tenho pessimismo nenhum quanto ao futuro. Apesar de tudo a luta continua, há esperança, há procura... "

Terrível contradição, aparentemente. A menos que o próprio Portela queira fazer o favor de vir esclarecer o que de facto vai ser o destino do sobrinho-neto de António Portugal.

Seguiu-se um diálogo-quase-entrevista com o autor do romance.



 
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