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"História Fantástica de António Portugal"

Comentários / Criticas:

   - Mário Soares
   - Alexandre Quintanilha
   - José Viale Moutinho
   - Manuel da Silva Ramos
   - Prof.ª Maria Antonieta Garcia
   - Fernando Paulouro
   - Carlos Pinto Coelho
   - José Pires
   - Appio Sottomayor
   - Prof. Amadeu Carvalho Homem
   - Fernando Venâncio



Appio Sottomayor:

Quando a Portugal se diz "Bem te conheço, ó máscara"

Na secção "Letras vivas", jornal "A Capital", de 24 de Março de 2004.

Fosse este livro um compêndio - traçado talvez por Matoso, pai, e único para uso do segundo ciclo liceal, nos tempos em que tal havia - e diríamos que se referia a um período histórico abrangendo coisa como noventa e tal anos. Começa, na verdade, com a morte, em Rilhafoles, do Dr. Miguel, a quem não é difícil acrescentar o apelido Bombarda, junção da qual resultou o crisma do hospital, mudado de nome mas não de funções. E abrange praticamente todas as evoluções e convulsões havidas num país chamado Portugal, até à época em que as prisões se abriram para nomes mediáticos, quando repetidamente se descobriu que "ninguém estava acima da lei". Vamos, portanto, de 1910 aos alvores do século 21.

Mas de tudo terá esta obra excepto de ar de manual para adolescentes, pleno de descrições patrióticas e elevadamente moralistas. Por todas as razões: primeira, porque está nos antípodas o objectivo do autor. Depois, porque a sua leitura e inerente compreensão pressupõem da parte do leitor um conhecimento amplo e uma memória treinada sobre a recente História pátria - o que exclui, à partida, concorrentes a jogos televisivos que confundam repetidamente Gomes da Costa com Costa Gomes ou Machado dos Santos com Machado de Castro. E ainda porque de trabalho sistematizado, metódico e rigoroso apoiado em sólidas cronologias oferece o livro em apreço apenas um rotundo zero. Mesmo o referido quase-século (1910-anos 2000) se apresenta muitas vezes entremeado de flash back ilustrativos e propositados.

Em contrapartida, é a imaginação, por vezes com toques subtis de delírio, que por aqui anda em liberdade absoluta, sem vislumbre de entraves que se lhe oponham. Indo buscar a repetida mas sempre apetecida máxima queirosiana, raras vezes a nudez forte da verdade foi coberta com tão abundante e laborioso manto de fantasia.

Aventa-se a hipótese (não comprovada) de Artur Portela ter ganho este gosto pela metáfora ao escrever as suas ácidas crónicas em tempos de censura. Para que o público destinatário apanhasse a mensagem, era preciso mascarar as personagens, por forma a que os fiscais do lápis azul não topassem com qualquer mínima ponta por onde pegar. Nasceram assim o `mandarim`, que era Salazar, o `grande bonzo`, que era Cerejeira, o `bonzo do Norte`, que era D. António, bispo do Porto. Ter-lhe-ão ficado, depois, o gosto e o estilo que hoje o identificam.

Assim, esta História Fantástica é um largo fresco onde se alinham episódios desta nossa lusitana vida, evidenciando-se como personagem António Portugal, cujo apelido denuncia o verdadeiro protagonista. Num ambiente de cumplicidade entre autor e leitor, é este convidado a participar no desfile - a já referida morte de Miguel Bombarda, o regicídio, o suposto atentado a Afonso Costa, a marcial arrogância de Gomes da Costa (num irresistível dito de "um general nunca s`agacha"), o intervalo sidonista, a matança da "leva da morte", Júlio Dantas e Almada, Alves dos Reis, o militarismo e o 28 de Maio, rumores da Itália fascista, o Dr. Oliveira (que vem de outra Santa Comba, chamada Azeméis), o papel de António Ferro, a PIDE (aqui DITA), Angola, o 25 de Abril, o Dr. Mário Soares (Dr. Nobre, no caso), a entrada na Europa apadrinhada pelo Manuel Lino (dos Jerónimos), os dias de hoje...

Para além do estilo - a que já aqui se chamou, uma vez, de gongórico de raiz queirosiana, e, para o demonstrar, bastará o esmagador trecho dedicado a Lisboa, inserto a páginas 34 e 35 - mais factores haverá, porém, a reter neste romance de Portela. Assim acontecerá com a sua demora num lirismo que, só por má vontade, se poderá considerar deslocado numa obra com fundo satírico. Genciana (e o nome terá sido bebido em Rodrigues Miguéis ) foi encarregada de transmitir à narrativa o tom poético que é indispensável quando o protagonista se chama Portugal. Outra faceta, mais facilmente perceptível e certamente a mais apetecida, é a chama de humor que incendeia algumas descrições. O capítulo 46, onde se mostra a primeira entrada de um chefe do Governo num teatro e se relatam as suas perguntas sobre o pano de ferro e o pano de boca, é paradigmático e das mais irresistivelmente cómicas páginas que se têm escrito de Gervásio Lobato para cá.

Um senão? O leitor comum, desprevenido, encontrará alguma gente que não identifica. Quase dá vontade de acrescentar a esta História Fantástica um dicionário de correspondências...



 
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