Fosse este livro um compêndio - traçado
talvez por Matoso, pai, e único para uso do segundo ciclo
liceal, nos tempos em que tal havia - e diríamos que se
referia a um período histórico abrangendo coisa
como noventa e tal anos. Começa, na verdade, com a morte,
em Rilhafoles, do Dr. Miguel, a quem não é difícil
acrescentar o apelido Bombarda, junção da qual
resultou o crisma do hospital, mudado de nome mas não
de funções. E abrange praticamente todas as evoluções
e convulsões havidas num país chamado Portugal,
até à época em que as prisões se
abriram para nomes mediáticos, quando repetidamente se
descobriu que "ninguém estava acima da lei". Vamos, portanto,
de 1910 aos alvores do século 21.
Mas de tudo terá esta obra excepto de ar de manual para
adolescentes, pleno de descrições patrióticas
e elevadamente moralistas. Por todas as razões: primeira,
porque está nos antípodas o objectivo do autor.
Depois, porque a sua leitura e inerente compreensão pressupõem
da parte do leitor um conhecimento amplo e uma memória
treinada sobre a recente História pátria - o que
exclui, à partida, concorrentes a jogos televisivos que
confundam repetidamente Gomes da Costa com Costa Gomes ou Machado
dos Santos com Machado de Castro. E ainda porque de trabalho
sistematizado, metódico e rigoroso apoiado em sólidas
cronologias oferece o livro em apreço apenas um rotundo
zero. Mesmo o referido quase-século (1910-anos 2000) se
apresenta muitas vezes entremeado de flash back ilustrativos
e propositados.
Em contrapartida, é a imaginação, por vezes
com toques subtis de delírio, que por aqui anda em liberdade
absoluta, sem vislumbre de entraves que se lhe oponham. Indo
buscar a repetida mas sempre apetecida máxima queirosiana,
raras vezes a nudez forte da verdade foi coberta com tão
abundante e laborioso manto de fantasia.
Aventa-se a hipótese (não comprovada) de Artur
Portela ter ganho este gosto pela metáfora ao escrever
as suas ácidas crónicas em tempos de censura. Para
que o público destinatário apanhasse a mensagem,
era preciso mascarar as personagens, por forma a que os fiscais
do lápis azul não topassem com qualquer mínima
ponta por onde pegar. Nasceram assim o `mandarim`, que era Salazar,
o `grande bonzo`, que era Cerejeira, o `bonzo do Norte`, que
era D. António, bispo do Porto. Ter-lhe-ão ficado,
depois, o gosto e o estilo que hoje o identificam.
Assim, esta História Fantástica é um largo
fresco onde se alinham episódios desta nossa lusitana
vida, evidenciando-se como personagem António Portugal,
cujo apelido denuncia o verdadeiro protagonista. Num ambiente
de cumplicidade entre autor e leitor, é este convidado
a participar no desfile - a já referida morte de Miguel
Bombarda, o regicídio, o suposto atentado a Afonso Costa,
a marcial arrogância de Gomes da Costa (num irresistível
dito de "um general nunca s`agacha"), o intervalo sidonista,
a matança da "leva da morte", Júlio Dantas e Almada,
Alves dos Reis, o militarismo e o 28 de Maio, rumores da Itália
fascista, o Dr. Oliveira (que vem de outra Santa Comba, chamada
Azeméis), o papel de António Ferro, a PIDE (aqui
DITA), Angola, o 25 de Abril, o Dr. Mário Soares (Dr.
Nobre, no caso), a entrada na Europa apadrinhada pelo Manuel
Lino (dos Jerónimos), os dias de hoje...
Para além do estilo - a que já aqui se chamou,
uma vez, de gongórico de raiz queirosiana, e, para o demonstrar,
bastará o esmagador trecho dedicado a Lisboa, inserto
a páginas 34 e 35 - mais factores haverá, porém,
a reter neste romance de Portela. Assim acontecerá com
a sua demora num lirismo que, só por má vontade,
se poderá considerar deslocado numa obra com fundo satírico.
Genciana (e o nome terá sido bebido em Rodrigues Miguéis
) foi encarregada de transmitir à narrativa o tom poético
que é indispensável quando o protagonista se chama
Portugal. Outra faceta, mais facilmente perceptível e
certamente a mais apetecida, é a chama de humor que incendeia
algumas descrições. O capítulo 46, onde
se mostra a primeira entrada de um chefe do Governo num teatro
e se relatam as suas perguntas sobre o pano de ferro e o pano
de boca, é paradigmático e das mais irresistivelmente
cómicas páginas que se têm escrito de Gervásio
Lobato para cá.
Um senão? O leitor comum, desprevenido, encontrará alguma
gente que não identifica. Quase dá vontade de acrescentar
a esta História Fantástica um dicionário
de correspondências... |