Esta História Fantástica
de António Portugal não é assim
tão fantástica. É apenas fantástica
a metodologia adoptada, sendo mais uma história simbólica
do que fantástica, na medida em que o simbolismo de
uma figura que tem olhos verdes com reflexos rubros, anexado
que está ao próprio país, vai, de algum
modo, acompanhar todos os textos, desde o assassinato do Miguel
Bombarda até aos momentos posteriores à nossa
adesão ao espaço europeu.
Se me é consentido, a primeira reflexão que eu
queria fazer seria sobre o modo como certos autores, para ficarem
mais próximos do povo que somos, acabam por se socorrer
desta metodologia.
Isto nos remete para uma questão: o que é um símbolo
e de que modo funcionam os símbolos, sobretudo quando
pretendem traduzir a verdade profunda de um povo e de um país.
Eu penso que o simbolismo está acompanhado de uma certa
perspectiva onírica. Abordamos a verdade de um país
com os olhos do sonho e diz-nos Freud que a interpretação
dos sonhos é uma interpretação que se faz
através de processos típicos, como o processo de
condensação.
Isto é, ir buscar, em momentos precisos, exactamente
aquilo que nos foi definindo enquanto seres colectivos, enquanto
colectividades.
Pelo menos os processos de condensar em momentos particularmente
visíveis e em momentos dramáticos a verdade do
nosso sentir e da nossa espontaneidade dão forma à metodologia
seguida por Artur Portela nesta longa digressão que começa
com o assassínio de Bombarda e vai praticamente até aos
dias de ontem.
E não é por acaso que nesta peregrinação
nos vão surgir os momentos mais densificados da História
de Portugal, como por exemplo o regicídio ou a fuga da
família real.
Também aqui cabe aquele episódio, que é picaresco,
um pouco humorístico, mas que define tão bem um
espírito de um tempo todo ele percorrido por tensões
diversas, aquela circunstância de, pelo facto de se ter
soltado um disjuntor num eléctrico, Afonso Costa se atirar
pela janela e partir uma perna.
Como simbólico é o sofrimento português
nas trincheiras da Flandres.
Assim igualmente o caso da "Noite Sangrenta" e do assassínio
do António Granjo. Eu penso que esta é das suas
páginas mais conseguidas (os Capítulos 13 e 14).
Como é a reconstrução do Sidónio
Pais.
Como é o advento de António Oliveira Salazar.
Como é a Exposição do Mundo Português.
Como é o modo como aborda os torcionários da DITA,
que é a PIDE.
Como são os massacres africanos.
Como é o início da revolução de
Abril.
Como é o enfoque dado ao problema da nossa adesão
ao espaço europeu.
E esta coisa extraordinária - porque efectivamente está muito
na alma do português ser altamente contraditório - que
são as missões humanitárias portuguesas
no exterior as quais, não raro, muito pouco de humanitário
têm e, por vezes, servem muito mais a causa da guerra do
que a causa do humanitarismo e da paz.
Finalmente, eu não podia deixar de me referir ao modo
como esta abordagem se encerra, através de um julgamento
feito a António Portugal, que é um alter ego do
autor.
Não sei se estou a interpretar bem - mas penso que este
António Portugal não exerce em relação
ao autor o mesmo tipo de relação que podemos encontrar
entre a figura do Zé Povinho e Rafael Bordalo Pinheiro.
Bordalo Pinheiro constrói a figura do Zé Povinho
como um outro, algo que está para além dele, que é diferente,
como uma entidade que densifica tudo aquilo que Bordalo Pinheiro
não queria que Portugal fosse. Este António Portugal é uma
figura que, ao contrário da figura do Zé Povinho,
o aproxima do próprio criador. É como que um prolongamento,
em certos casos com reticências, do seu próprio
processo de criação.
Mas estava eu a falar do julgamento a que é sujeito António
Portugal que, como figura simbólica que é, e como
alma portuguesa que traz, responde sim a todas as perguntas.
O nosso portugalinho responde que sim a todas as perguntas, sobretudo
quando elas são feitas pela Autoridade.
António Portugal é julgado pelos historiadores
literários, homens de " história toda curta ".
É uma abordagem extremamente irónica, extremamente
humorística, sorridente, sem deixar, no entanto, de ser,
nuns casos lírica, noutros casos intensamente dramática.
Por exemplo, no momento em que Artur Portela pergunta " A
que sabem os beijos de Genciana?", que o mesmo é perguntar
a que sabem os beijos de uma certa portugalidade afectiva, a
que sabe Portugal, a que sabe o abraço que o povo português
pode dar à sua terra, à sua gente, a pergunta encerra
alguma amargura e dramatismo.
Não posso deixar de ler uma passagem que é uma
das leituras mais pertinentes, mais verdadeiras da nossa essência
de portugalidade que eu alguma vez li:
"Tanta súbita culpa, tão densa, tão
ferozes estes brandos costumes, tão sempre o mesmo e
tão de longe, tão antigo, tão familiar,
tão hereditário, tão simultaneamente fantástico
e real, tão matador, tão desinfiel, tão
escarnecedor, tão maldizente, tão alongado amigo,
tão amante, tão demandante, tão salgado,
tão negreiro, tão roceiro, tão mineiro,
tão mesticeiro, tão troca-voltas, tão
apiratado, tão exilado, tão queimador, tão
mirone de cadafalsos e de chãos salgados, tão
enforcador e forcado, tão iluminado, tão importador,
tão revolucionário, tão aventalado, tão
mata-frades, tão rubro, tão verde, tão
camionista de mortes, tão bombista de urinóis,
tão amochado, tão clandestino, tão estátua
de dor, tão polícia, tão cravista, tão
polícia de polícias, tão ateador de fogos,
tão defenestrador, tão entrado nos eixos, tão
sacador de perdidos fundos, tão deseuropeu, tão
linguista, tão papagaio, tão bom aluno, tão
instalado, tão untador de mãos, tão jonglador
de contabilidades, tão imprescritível, e assim
imprescrita toda esta culpa.
E depois quem, Portugal? Sim, mas e os beijos, que sabor?
E depois que Portugal?" (pág.as 249-250)
Acho que esta página deve ter sido escrita num momento
de raríssima inspiração. Aliás, todo
o livro está cheio desses momentos. Mas esta página é,
para mim, antológica, porque simultaneamente nos dá a
simbiose do que nós fomos e somos e continuamos a ser
enquanto povo: uma combinatória de grandeza e falta dela.
Portugal e os portugueses nunca deixaram de ser isto, um povo
que se lança para todos os desafios para depois, subitamente,
de um modo um tanto espantado, verificar que perdeu tudo ou quase
tudo. E que foi, por um instante, magnífico, brilhante,
realizado no momento em que se sente na crista das coisas; só que
depois, lentamente há como que o refluxo das coisas, o
refluxo dos entusiasmos, das esperanças, dos próprios
símbolos. E Portugal fica confrontado consigo mesmo, fica
com um nó na garganta.
Este excelente romance é um pouco feito neste registo.
Vê-se que Artur Portela é um português em
Portugal, um português lúcido num tempo que exige
cada vez mais lucidez, e que a relação que mantém
com os diversos momentos da História Contemporânea
de Portugal e a relação que mantém com o
seu António Portugal é uma relação
dupla, como se estivesse num permanente exercício de sonho
acordado. É como se Portugal lhe chegasse cheio de perfume,
de garra mas simultaneamente cheio de uma simbólica de
finitude ou de quase finitude em que, apesar de tudo, se acredita.
E é neste novelo de ser e não ser, neste magma
de contradição, que eu vejo que a História
Fantástica de António Portugal é a
história de António Portugal vista na fantasia
dos nossos sonhos e das nossas esperanças.
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