O Teatro Aberto foi o local escolhido para a apresentação da obra, ontem ao final da tarde. Uma das razões de fundo que presidiram à escolha da emblemática sala de espectáculos prendeu-se com o facto de o evento ter sido colorido com um momento de teatro, interpretado pelo actor Henrique Viana.
Viana, secundado pelos actores António Simão, António Filipe e Américo Silva, interrompeu literalmente a apresentação de As Noivas de São Bento, onde estavam o responsável editorial da Dom Quixote, João Rodrigues, o próprio autor e Artur Ramos, que naquele momento falava sobre o livro.
O actor, interpretando o antigo e longevo governante português António Oliveira Salazar, fez uma espécie de conferência de imprensa alternativa, de cunho censório, num texto que era uma óbvia ironia a tudo o que a sua política representou.
Esta encenação, pouco usual na apresentação de obras literárias, baseia-se numa interpretação sobre As Noivas de São Bento, que identifica o protagonista com Salazar e o seu olhar sobre o mundo, as pessoas e o país.
Artur Portela reconhece que a figura de Salazar no livro é "porventura uma alusão, mas sempre com a vontade de que o livro ultrapasse essa circunstância") e privilegie "uma leitura de carácter mais simbólico, correspondendo menos a uma determinada situação e figura histórica".
Para Artur Portela "o objectivo essencial é falar do amor, da castração e da autocastração». De que forma? "o livro pretende ser uma espécie de metáfora sobre o poder e sobre o amor como campo de manobra e de controlo das outras pessoas, das mulheres, do mundo», diz o autor, visto "que é no amor que a masculinidade se afirma.
De acordo com Portela trata-se de uma história de frustração e vingança: "Existe um protagonista e depois há dezenas de figuras de segundo plano, que são sempre mulheres: começa por ser a mãe, são as irmãs, são algumas namoradas, que o marcam: profun- damente. Ele é marcado a partir da infância e da adolescência por essas mutilações e castrações e depois, em todo o seu percurso ao longo de dezenas e dezenas de anos acaba por se ir vin gando nas destinatárias das cartas», Apesar do autor não desejar uma identificação perfeita da personagem de As Noivas de São Bento com Salazar é praticamente inevitável que ela seja feita. O editor João Rodrigues disse ontem, perante uma assistência de ilustres, que este livro «descreve-o (Salazar) de forma notável» e (não nos deixa esquecer esse tempo».
Não obliterar esse passado é, para o ex-Presidente da República, Mário Soares, um trabalho que ainda não terminou: "É muito importante desfibrarmos um a um os fantasmas que Salazar deixou e que foram muitos. Acho que ainda existem muitos, em todos os planos. Muitas pessoas não mudaram a mentalidade em que foram educadas. Aparte as novas gerações, as gerações da minha idade e para baixo um bocado, até aí aos 50 anos, que viveram ainda outro regime, é evidente que têm muitas recordações e aquele peso de dominação, de opressão, que foi tremendo. Não se pode esquecer, mas claro que isso não volta, na Europa de hoje não é possível Foi por isso que eu, aliás, tanto me bati para que Portugal entrasse na Europa, pela defesa da democracia e da estabilidade democrática"
Já António Vitorino de Almeida salienta o facto de, conhecendo a "sagacidade de Artur Portela", o livro represente mais um "olhar sobre o futuro". Quanto a Urbano Tavares Rodrigues "é absolutamente necessário advertir as novas gerações do que foi o Portugal concentracionário do tempo das prisões, das organizações paramilitares. Não sabem o que se passava, até que ponto era ridículo e até que ponto era trágico", conclui.
"A Capital" de 3 de Março de 2005 |