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"As Noivas de São Bento"

Comentários / Criticas:
   - Manuel da Silva Ramos - Salazar na sessão de lançamento censurou livro de Artur Portela
   - Paula Macedo - Retrato de um Portugal fechado
   - João Bonifácio - Nem noivado, nem dote, nem fortuna
   - Maria Alzira Seixo - O afogado de São Bento
   - Isabel Leal - Melhores leituras, Notícias Magazine de 13 Mar 2005
   - Fernando Paulouro Neves - Lâmina dentro da alma, Jornal do Fundão, 15 de Abril de 2005
   - Jorge Listopad - Jornal de Letras de 13-26 Abril 2005
   - Cristina Maria da Costa Vieira - nº 5 da revista …à beira, do Departamento de Letras da Universidade da Beira Interior




"AS NOIVAS DE SÃO BENTO"

Nem noivado, nem dote, nem fortuna

Um romance epistolar com Portugal como personagem. Um jogo de sombras que altera pouco e esconde muito.

Vamos aos dados: temos um título ("As noivas de São Bento") e ternos um romance epistolar repleto de cartas, bilhetes e cartões assinados por "O.", e, aqui e ali, por "A.". (parêntesis para se realçar que logo aí, nesse jogo de não se dizer, de se assinalar apenas, por inicial, o autor das cartas, se dá o tom do livro: jogar não o não-dito, mas sim com a impossibilidade do dizer. Jogar com a atmosfera de silêncio pesado, jogar com a impossibilidade de levantar as máscaras.) Junte-se ao "N' e ao "O" um "s" e temos A.O.S. e as suas (desconhecidas) "Noivas de São Bento" - ou seja, temos uma fantasia para um ditador e suas impossibilidades -porque a mulher, aqui, é uma impossibilidade. Ou um instrumento.

Quando dizemos que há um romance constituído por cartas a mulheres de um tal "O." (ou "A." Deveríamos especificar que se trata de um romance constituído unicamente por cartas que nunca lidam (directamente) com factos (ou seja: não há propriamente uma narrativa), antes com desejos: de encontros, de intimidades.

Mais que isto, há um incessante jogo de aproximações e distância. Refira-se, também, que "intimidade", aqui, é palavra errada, já que, entre este homem e estas imensas mulheres que ele inicialmente procura e que depois (quando ele se torna mito) o procuram a ele, não existe "partilha", apenas jogo de sedução e uso, poder, poder enquanto sufoco. (Ele manipula-as, sufocando-as.) Podemos, por isso, dizer que estas cartas lidam sobre- tudo com renúncias: a esses encontros, a essa intimidade. Mas acima de tudo é a renúncia de um país à sua liberdade (que aqui é metaforizada sobre a forma de liberdade sexual ou de costumes).

Esse "O." dirige-se a mulheres. Diz-lhes, com uma linguagem que mais que destinada a mostrar procura esconder, da sua beleza, das qualidades que nelas entrevê. Depois começa a usar essas mulheres invisíveis (invisíveis até porque só temos acesso ao que ele escreve, nunca ao que elas escrevem) a seu favor: pede-lhes que espiem, que observem, que protejam os costumes, que se calem, que escondam pequenos escândalos (não nomeados, apenas enunciados). Ou seja: metáfora óbvia do sufoco, do lento e gradual mirrar de um país.

"O." Justifica a sua não presença, a sua impossibilidade de estar com essas mulheres com o seu trabalho, com o avanço do mar. Claro que esse mar que avança pelo pais adentro levando tudo é um mar moral.

Não é só o mar que é uma representação: tendo em conta que as cartas nunca lidam com factos mas antes com jogos de sombra, também se pode dizer que não há personagens. (Excepto a asfixia de um país.) Logo, o que temos é um jogo (ou uma patologia) de poder e subserviência tratado como um freudianismo: o poder de Salazar como um Édipo não resolvido, que causa a incapacidade do Ditador em lidar com relações de igualdade.

Tudo isto se passa sempre no plano da representação. E se essa representação se percebe com facilidade e se há talento em ir lentamente construindo um labirinto de asfixia em que as relações abordadas nas cartas se tornam gradualmente em jogos de poder, também é verdade que fica um sabor a incompletude da leitura d' "As noivas...", Quer isto dizer que sendo um romance de género, "As Noivas..." arrisca várias vezes a máscara de romance de tese, deixando-se ficar por aí, porque, pela própria génese da obra, não pode aprofundar personagens, modos, costumes, já aqui não se mostra, enuncia-se. Quando "O." diz às mulheres como devem vestir percebe-se onde ele quer chegar, que tipo de país está a representar.

A questão é: jogar no mesmo terreno de "O," para melhor desmascarar a farsa não será, no fundo, manter uma mitologia acerca do que foi apenas pobre e mesquinho e sem mistério? Continuar a perpetuar o comboio de sombras, de que vale?

Outra eventual questão podia ser enunciada assim: será isto suficiente para haver literatura? Da parte que nos toca a resposta é simples: não.

JOÃO BONIFÁCIO, "O Público" 26 Março 2005