Vamos aos dados: temos um título ("As noivas de São Bento") e ternos um romance epistolar repleto de cartas, bilhetes e cartões assinados por "O.", e, aqui e ali, por "A.". (parêntesis para se realçar que logo aí, nesse jogo de não se dizer, de se assinalar apenas, por inicial, o autor das cartas, se dá o tom do livro: jogar não o não-dito, mas sim com a impossibilidade do dizer. Jogar com a atmosfera de silêncio pesado, jogar com a impossibilidade de levantar as máscaras.) Junte-se ao "N' e ao "O" um "s" e temos A.O.S. e as suas (desconhecidas) "Noivas de São Bento" - ou seja, temos uma fantasia para um ditador e suas impossibilidades -porque a mulher, aqui, é uma impossibilidade. Ou um instrumento.
Quando dizemos que há um romance constituído por cartas a mulheres de um tal "O." (ou "A." Deveríamos especificar que se trata de um romance constituído unicamente por cartas que nunca lidam (directamente) com factos (ou seja: não há propriamente uma narrativa), antes com desejos: de encontros, de intimidades.
Mais que isto, há um incessante jogo de aproximações e distância. Refira-se, também, que "intimidade", aqui, é palavra errada, já que, entre este homem e estas imensas mulheres que ele inicialmente procura e que depois (quando ele se torna mito) o procuram a ele, não existe "partilha", apenas jogo de sedução e uso, poder, poder enquanto sufoco. (Ele manipula-as, sufocando-as.) Podemos, por isso, dizer que estas cartas lidam sobre- tudo com renúncias: a esses encontros, a essa intimidade. Mas acima de tudo é a renúncia de um país à sua liberdade (que aqui é metaforizada sobre a forma de liberdade sexual ou de costumes).
Esse "O." dirige-se a mulheres. Diz-lhes, com uma linguagem que mais que destinada a mostrar procura esconder, da sua beleza, das qualidades que nelas entrevê. Depois começa a usar essas mulheres invisíveis (invisíveis até porque só temos acesso ao que ele escreve, nunca ao que elas escrevem) a seu favor: pede-lhes que espiem, que observem, que protejam os costumes, que se calem, que escondam pequenos escândalos (não nomeados, apenas enunciados). Ou seja: metáfora óbvia do sufoco, do lento e gradual mirrar de um país.
"O." Justifica a sua não presença, a sua impossibilidade de estar com essas mulheres com o seu trabalho, com o avanço do mar. Claro que esse mar que avança pelo pais adentro levando tudo é um mar moral.
Não é só o mar que é uma representação: tendo em conta que as cartas nunca lidam com factos mas antes com jogos de sombra, também se pode dizer que não há personagens. (Excepto a asfixia de um país.) Logo, o que temos é um jogo (ou uma patologia) de poder e subserviência tratado como um freudianismo: o poder de Salazar como um Édipo não resolvido, que causa a incapacidade do Ditador em lidar com relações de igualdade.
Tudo isto se passa sempre no plano da representação. E se essa representação se percebe com facilidade e se há talento em ir lentamente construindo um labirinto de asfixia em que as relações abordadas nas cartas se tornam gradualmente em jogos de poder, também é verdade que fica um sabor a incompletude da leitura d' "As noivas...", Quer isto dizer que sendo um romance de género, "As Noivas..." arrisca várias vezes a máscara de romance de tese, deixando-se ficar por aí, porque, pela própria génese da obra, não pode aprofundar personagens, modos, costumes, já aqui não se mostra, enuncia-se. Quando "O." diz às mulheres como devem vestir percebe-se onde ele quer chegar, que tipo de país está a representar.
A questão é: jogar no mesmo terreno de "O," para melhor desmascarar a farsa não será, no fundo, manter uma mitologia acerca do que foi apenas pobre e mesquinho e sem mistério? Continuar a perpetuar o comboio de sombras, de que vale?
Outra eventual questão podia ser enunciada assim: será isto suficiente para haver literatura? Da parte que nos toca a resposta é simples: não.
JOÃO BONIFÁCIO, "O Público" 26 Março 2005
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