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"AS NOIVAS DE SÃO BENTO"
O afogado de São Bento
Afinal, Salazar parece que morreu afogado. Afogado pelo avanço do mar de contrariedades ao regime, esse mar que assim se desforra de ter sido usado e abusado, com as descobertas, pela propaganda do Estado Novo. Afogado também num manancial de cartas escritas a mulheres, marés de palavras e segundos sentidos, contidas em diques de discrição e prepotência mas invadindo terrenos de luxúria e interesses, que terminam com o apelo aflito à mãe, da "cadeira-cais», na hora derradeira. É o que se depreende do divertido romance
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de Artur Portela, As Noivas de São Bento, que reune dezenas de missivas com a assinatura O. ou A. dirigidas a conturbados amores como Virgínia e Lúcia, floridos como Amélia e Tojalinha, interesseiros e preciosistas como Leonor ou Danielle, e ainda instruções à governanta Vitalina, reparos à adolescente Z. e notícias à mãe e às irmãs, incluindo discursos às mulheres deste país. Cartas pontuadas pela preocupação do avanço do mar, que vai inundando tudo e ameaçando a governação.
O que Artur Portela faz é convocar uma figura que diversamente nos move, a de Salazar, para lhe atribuir sentimentos pressentidos e ignorados, em resultado comum, parece-me, de três vectores de trabalho: a investigação sobre o salazarismo; a maliciosa engenharia conjunta do facto, do "fake» e do apócrifo; e o talento de ficcionista. Não esqueçamos que Artur Portela foi o introdutor em Portugal, com Alfredo Margarido, no longínquo ano de 1962, do Novo Romance, com um decisivo ensaio e vários textos romanescos, de que convém agora recordar dois, O Código de Hamurábi e Rama, Verdadeiramente. A magnífica invenção aqui consiste em utilizar a carta como texto ambivalente que é: documento, atribuível a um sujeito e portanto aparentemente revelador desse sujeito, e assim plausível suporte de factos; e ao mesmo tempo a carta-simulação, proveniente da subjectividade única que parcializa, quiçá mentindo, já que na destrinça dos factos só a documentação conjunta e a variedade de materiais aproxima da verdade. Portela diverte-se e diverte-nos com o estilo severo e untuoso do epistológrafo, lúbrico mas acautelado, que, por mim, não me admirava nada que Salazar tivesse escrito. Divertimento? Investigação? Tudo é possível. Diz-se no texto que a distracção é "a aparência da atenção. Digamos que o trabalho sorri e que o sorriso trabalha». É o que acontece neste romance, desconcertante e revelador.
Maria Alzira Seixo, A escrita em dia de "Letras" de 2005.
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