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Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão, 15 de Abril de 2005
Lâmina dentro da alma
ARTUR Portela não pára de sur preender-nos. Aí está o seu último romance: “As Noivas de São Bento". No fio condutor da sua ficção este é, porventura, um romance diferente, cuja singularidade assenta menos na arquitectura romanesca - romance epistolar - e mais na densidade temática, na força metafórica do universo pessoal e de poder que está em jogo, no alcance introspectivo da narrativa face à realidade de um país, o Portugal feito nevoeiro de Pessoa ou "o incrível país da minha tia", como diziam os versos de Alexandre O'Neill, "trémulo de bondade e de aletria".
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Nada do que se passa em "As Noivas de São Bento" é ocasional. A premeditação da palavra, que modela a forma do longo monólogo interior, está na génese de um romance epistolar, que recorre a um registo de escrita apostado em transmitir o arcaísmo social e de vida numa persistência supratemporal que parece querer fixar e imobilizar a espessura do tempo, com todas as contingências ideológicas, para desinquietar o leitor. Passando-se tudo isto na cabeça de um homem que, ao cimo de uma calçada, espia um país e se imola na solidão de um exílio interior de pax ruris, numa auto-castração que é a amputação física e anímica de um país, virado para dentro, fugindo de um mar incontrolável e avassalador. As mulheres, ainda que não tenham voz autónoma, na medida em que o direito à palavra é poder apenas do escrevente, que assina O ou A, são as destinatárias dessas cartas ou desses bilhetes que levam dentro uma fatia da história deste país, no cinzentismo doméstico que elas traduzem, no calculismo cínico de que dão nota, na alcoviteirice que demonstram, no recurso à delação que elas implicam, na secura humana que impossibilita o amor. Essa incapacidade de voz feminina decorre, afinal, da própria natureza social da sociedade, onde o diálogo (a imprecação, até), era a própria ameaça ca- vada pelo mar, às portas da cidade, "metáfora diluviana", como lhe chama Portela, ideia que corporiza todos os medos e angústias do protagonista e marca o gesto e a palavra.
Todos adivinhamos quem é o autor das cartas e quem mora em S. Bento. Apesar disso, o romance voa mais alto. Portela, que adequa com mestria o estilo ao homem, num implacável retrato psicológico, procurando também aí virtualizar a persistência do passado, e, sobretudo, através de um registo metafórico muito rico, despregar a realidade que emerge do universo epistolar, conferindo- lhe a expressão colectiva e ampla que é o retrato de um país. Há, todavia, um outro aspecto surpreendente que ressalta da linguagem cifrada do discurso, como se às vezes, de uma forma muito subtil, o autor quisesse sorrir da própria desgraça em que o acervo epistolar se desdobra, convidando a inteligência do leitor a procurar as coincidências com a história. Enquanto lia o romance de Artur Portela e mergulhava nestas Noivas de São Bento, imoladas no altar da solidão, vítimas da construção abusiva de um destino, desapossadas pela frieza do poder absoluto da elementar dignidade, como se elas fossem a história comum a dez milhões, pensava sempre naquela figura de sombra, que o João Abel Manta magnificamente caricaturou, uma silhueta de sobretudo pelos ombros, olhos de gelo, confundindo-se com o negrume, um fantasma da tristeza que se consumia na menoridade de uma solidão vegetal. Portela construiu um universo como quem traça a autopsicografia mítica de um país, como diria a lucidez de Eduardo Lourenço.
Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão, 15 de Abril de 2005
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