Conto de A GRAVATA
BERRANTE , Arcádia, Lisboa, 1960
A GRAVATA BERRANTE
A primeira pancada atingiu-o num ombro. A segunda, na cabeça.
A terceira, nos rins. A quarta não o atingiu. A quarta
deu-a ele e não atingiu ninguém. Reinaldo G. caiu
de roldão. Reinaldo G. abriu um olho e berrou:
- Mas que é isto?!...
Foi então que lhe deram o pontapé. Um pontapé tremendo.
Reinaldo G. contou-os. Eram três. Reinaldo G. era um. Reinaldo
G. ia gritar por socorro. Não gritou. Reinaldo G. cuspiu
sangue. Sangue e um dente. Aquilo resolvia-se. Era só levantar-se.
Explicar-lhes. Havia ali confusão. Reinaldo G. não
fizera mal. A ninguém. Nunca.
- Por favor...
Reinaldo G. não os conhecia. Um era baixo. Outro era
alto. O terceiro também era baixo. Um tinha bigode. Outro
ria entre dentes. Havia também uma gravata berrante. Reinaldo
G. não distinguia qual deles tinha uma gravata berrante.
Estava um pouco escuro. Batiam-lhe muito. Quando o fizeram rolar
por terra com pontapés, Reinaldo G. compreendeu uma coisa.
A gravata berrante era dele.
- É que eu...
Eram três homens. Três homens como Reinaldo G..
Pensavam. Tinham uma razão para baterem. Batiam porque
deviam bater. Logo, existia uma razão forte. Reinaldo
G. procurava raciocinar depressa. Para concluir qualquer coisa.
Se não davam cabo dele. Sentiu que o nariz se espapaçava.
- Porque é que...?
Havia qualquer coisa de duro nas mãos dos três
homens. Talvez ferro. Reinaldo G. procurou ver. Sentiu uma pancada
na boca. Era madeira. Depois pedaços de dentes. Mas tivera
ainda tempo para perceber a madeira. Reinaldo G. pensava furiosamente.
Onde estava ele? Não sabia. Como fora até ali?
Não sabia. Que dia era aquele? Não sabia.
- Não sei...
Não sabia nada. Batiam-lhe. Doía-lhe. Reinaldo
G. sabia que ser batido dói. Reinaldo G. sabia alguma
coisa. E não apenas isto. Não tinham razão.
Eles. Os três. Reinaldo G. sabia que eles não tinham
razão e eles não sabiam. Era preciso dizer-lhes.
Homens, vocês não têm razão. Eu sou
Reinaldo G.. Eu não valho sequer as vossas pancadas, homens.
- Homens...
Reinaldo G. viu que eles não paravam. Batiam com mais
força. Reinaldo G. pensou que eles talvez não fossem
homens. Um usava bigode. Outro ria entre dentes. Um era alto.
E, no entanto, talvez não fossem homens. Talvez animais.
- Escutem...
Reinaldo G. compreendeu que nada lhe restava a não ser
a esperança de que os três fossem homens. Quis convencer-se.
As pancadas espaçavam-se. Um homem tem cabeça,
tronco e membros. Aqueles três tinham cabeça, tronco
e membros. Eram homens. Se o deixassem falar. Dizer dez palavras.
Nem tanto. Cinco ou seis.
- Deixem-me...
Não o deixavam. Reinaldo G. não via nada. Era
um bocado de dor. Todo ele doía. Por fora e por dentro.
Reinaldo G. devia encarar aquilo com serenidade. Reinaldo G.
acreditava numa quantidade imensa de coisas. Na verdade, nas
soluções, nos homens. Reinaldo G. acreditava. Reinaldo
G. tinha de acreditar em qualquer coisa. Os homens nunca se tinham
preocupado muito com Reinaldo G.. Reinaldo G. concordava. Só não
concordava com aquele soco horrível no ouvido.
- Não...
A não ser que tivessem embirrado com a cara dele. Reinaldo
G. começou a reflectir sobre a sua cara. Era uma cara
como todas as caras. Um pouco gorducha. Reinaldo G. não
passava fome. Tinha um prato especial. Brócolos. A não
ser que. Reinaldo G. comprara uma gravata. A gravata berrante.
Eles batiam-lhe por causa da gravata. Eles vigiaram-no. Eles
tinham-no deixado em paz enquanto usara gravatas cinzentas. Eles
alarmaram-se com a gravata berrante. Eles pensaram que a gravata
berrante significava um berro. Enganavam-se. Reinaldo G. não
berrara. A gravata berrante custar dez escudos. Custara dez escudos
no dia em que fizera anos. Talvez não quisessem que ele
fizesse anos.
- Gravata...
Reinaldo G. devia tirar a gravata. Reinaldo G. devia deixar
de fazer anos. Reinaldo G. devia viver no seu canto, calado como
um rato. Como um candeeiro de rua. Um candeeiro apagado. Então,
sim, aqueles três passariam por ele sem o notar. Procurariam
outros loucos com gravatas berrantes. Para lhes bater com lhe
faziam a ele. Reinaldo G. sabia que ia ser sempre assim. Teve
pena dos homens loucos que o são suficientemente para
comprarem gravatas berrantes. Reinaldo G. sentiu vontade de sair
dali a gritar para que ninguém comprasse gravatas berrantes.
Então, seria pior para ele. Aqueles três bater-lhe-iam
mais e mais.
- Basta...
Aqueles três tinham um critério diferente. Ainda
não bastava. Era necessário que Reinaldo G. nunca
mais usasse gravatas berrantes. Reinaldo G. deu-lhes razão.
As gravatas berrantes destoam das gravatas cinzentas. Os três
homens estavam cansados. Mas batiam ainda. O homem de bigode
batia com grandes pancadas. O homem que ria entre dentes batia
em sítios certos, com método, cientificamente.
O homem que não tinha bigode nem ria entre dentes preferia
a cara. A cara de Reinaldo G. era gorducha. O homem que não
tinha bigode nem ria entre dentes devia ser magro.
- Eu juro...
Ninguém parecia interessado no juramento de Reinaldo
G.. Reinaldo G. não tinha que jurar coisa nenhuma. Aqueles
três procediam sistematicamente. A mania das gravatas berrantes
desapareceria. Não porque Reinaldo G. quisesse ou não
quisesse. Reinaldo G. não tinha querer. Reinaldo G. sorriu
e apesar disso estava coberto de sangue. É que Reinaldo
G. chegara a uma conclusão fundamental. Reinaldo G. não
precisava de fazer qualquer esforço. Aqueles três
trabalhavam para ele. Adaptavam-no. Eram amigos dele, aqueles
três. Trabalhavam de graça. Era isso. Ele só tinha
de estar quieto. Nem pensar nem protestar nem nada. Reinaldo
G. sabia agora tudo.
E, no entanto, fechou nas mãos a gravata berrante. |