Conto de AVENIDA DE ROMA ,
Guimarães Editores, Lisboa, 1961
Da contracapa: "A acção da maior parte das
histórias de AVENIDA DE ROMA decorre na cidade nova
e envolve a humanidade de jovens pelas quais a ficção
portuguesa só acidentalmente se tem interessado."
Pág.as 27 - 39
JOHNNY GUITAR
Levava dois livros debaixo do braço e pisava mal, sobre
as solas finas e moles, quase imediatamente no empedrado. Calcava
dolorosamente a rua e apressou o passo para atingir uma zona
de alcatrão, mais regular. Com a mão esquerda,
juntou os livros sob o braço e puxou a gola da camisola
de lã até ao pescoço. Atravessou a linha
do eléctrico, desceu pelo passeio, passou o rumor da cervejaria
e parou no meio da rua, orgulhosamente imóvel, obrigando
um carro a raspar o passeio. Depois, viu-se sob dois cartazes
de turismo: Espanha - Andaluzia - Espanha. Mais ou menos aí,
ou muito pouco depois, ouviu o berro do outro, que estava do
lado de lá, em frente da porta giratória do café,
e acenava com os cadernos na mão.
- João! João!...
Ergueu os dois livros numa saudação tolhida e
esperou que o outro atravessasse (é lógico, o cinema é do
lado do meu passeio, não é do lado do passeio dele)
mas a porta giratória bateu o vento atrás do outro,
regular e repetidamente, e João contou, na porta, o tempo
de espera que achou, a partir de certa altura, excessivo. Mas
Jorge, em duas passadas-saltos entre dois automóveis,
já estava ao lado dele.
- Vens cedo, demasiado cedo, ainda não são seis
horas...
Jorge segurava-o pelo braço como se o fosse prender,
arrepanhava-lhe o casaco e puxava-o para cima, numa oblíqua
que recomeçava a cada momento. João avistou-se
com Jorge no reflexo de uma montra, ao fundo, ao lado da bilheteira,
para onde se curvava um homem. Jorge ocupava a mancha do reflexo,
cinzenta e quase sem "nuances", mas tinha, no reflexo, o braço
esquerdo implantado no tronco. E João achou que o perfil
de cada um é uma fronteira e que a defesa deve fazer-se
desde aí, cerrada. Libertou-se da amizade do outro que,
achou, estava estranho. O fato. O fato que Jorge vestia era diferente,
nunca lho vira. O cabelo estava certo, serrado, com dois dedos
de altura; quando se despedira dele, dois dias antes, não
o tinha assim; a pele, mesmo essa, era de um rubor intermitente, às
manchas, doentio; e havia mais diferenças, os sapatos,
o olhar, a gravata, a voz . Jorge levou João para a esplanada
ao lado do cinema.
- Temos para mais de meia hora.
O relógio ocupava o pulso do outro. A mão que
ele estendia, dentro do círculo de metal pintado do tampo
da mesa, tinha o tom fulvo do reflexo da tarde, parecia em chamas.
- A tua mão.
- Que é que tomas?
Espetava o indicador sobre o peito de João.
- O que quiseres.
- Duas bicas. Meia hora, precisamente meia hora. Pois não
sabia que eras sócio do CCM. O filme de hoje é bom.
Conheces, é claro, o Visconti.
- Meia hora.
- "O grito".
- Sim.
- "O grito". "O grito" é bom mas eu prefiro Fellini.
Viste "As noites de Cabiria"?
As frases do outro tinham uma unidade desmembrada ou então
os intervalos eram demasiado fundos e longos. Bastava que os
intervalos fossem reduzidos para as frases adquirirem o ritmo
e a coerência e assim respeitarem o tempo.
- Trago até aqui, entre os cadernos, deixa-me ver, o
programa das sessões.
(Os cadernos são grossos, as lombadas rectangulares,
as arestas duras e consistentes, as páginas quadradas
estão cobertas de uma letra curta, regular, laboriosa
e redonda. É Fevereiro e a letra tem de ser demasiado
estreita para não ocupar mais que meio caderno nesta altura
do ano - e há números ou fórmulas. Sim, é de
Ciências, vi-o a descer na escadaria, sob a sombra do frontão
e por entre as colunas, atravessar as linhas de eléctrico,
quatro carris que riscam de metal a Rua da Escola Politécnica,
do Rato à Patriarcal, ou Rio de Janeiro, e seguem, fendem
de reflexo, contínuo e chamejante, a Rua da Misericórdia,
para a esquerda, até ao Carmo ou até ao Cais do
Sodré. Vi-o entrar na Cister, eu estava na paragem do
eléctrico e ele acenou-me de dentro, porque só me
viu quando hesitou junto do balcão, e olhou para trás.
Atravessou as linhas do eléctrico exagerando a atenção;
a passada era enérgica, precisa, quase militar).
- Ah, é isto. Eles já fizeram o ciclo de western.
Não vim à segunda, ao "Forte Apache", do Ford.
De resto, já o vi três vezes. E "Johnny Guitar".
O Ray é irregular. O Ford não, é sólido.
Não sei se me entendes, o Ford é grande, o Ray
pode ser maior, já o foi, mas uma, duas vezes, depois
cai. Cai de uma altura tremenda. Dir-me-ás: e o diálogo
Johnny-Vienna? Sim, aceito. O diálogo é tremendo. "Diz-me
uma mentira, diz-me que todos estes anos esperaste por mim, di-lo".
E Vienna: "Todos estes anos esperei por ti". Estupendo, simplesmente
estupendo.
(Foi também na Cister que o vi depois. Ou talvez na Alsaciana.
Quando a vi a ela. Ou num sítio ou noutro. Ela estava
de costas, os cabelos escorriam sobre o casaco de malha verde
e tinha a mão sobre uma pilha de cadernos com a lista
em diagonal, ele debruçava-se para a frente, com a testa
sem rugas, lisa, como uma placa; não tinha pescoço,
ela tinha-o, longo, paralelo à madeixa compacta de cabelo.
Ela não me olhou, ou se olhou não me viu. Vienna,
poderia ela chamar-se Vienna? Ele, não, não é Johnny, é Jorge,
Jorge - quê? De qualquer modo, ele não pode chamar-se
Johnny, mas ela - ela, sim, nada impede que ela se chame Vienna).
- "Go West, young man, and grow up with the country", citam
eles, no caderno. É de Horace Greeley, 1850.
Já estava frio, o café; João bebeu-o depressa,
tão depressa quanto pôde e raspou no tampo, com
a colher torta, a pintura estalada. O alcatrão estava
ocupado e ele enfrentou a multidão - era regular e sem
rasgões de fundo, organizava-se involuntariamente em filas,
ombros com ombros, e as cabeças não excediam uma
linha imaginária que ele traçou, imediatamente,
entre os dois cartazes simétricos, colocados na fachada
do teatro fronteiro.
- "Diz-me uma mentira, diz-me que todos estes anos esperaste
por mim, di-lo". É estupendo. - Jorge sublinhava, a tinta,
sob o aparo amarelo, novo, limpo, muito aguçado. - Simplesmente
estupendo.
- E Vienna, que diz Vienna?
- "Todos estes anos esperei por ti". - diz ela. Ela é a
Joan Crawford. Olhos e lábios.
(Mas ela, quem era ela?).
- O argumento não é Ray. É de Philip Yordan.
Está aqui, na ficha técnica.
João viu-a, estava de costas, à direita, quase
junto dos degraus. Trazia o mesmo casaco de malha verde. Passou
alguém em frente dela e tapou-a, mas por pouco tempo.
Ou talvez não fosse ela, talvez outra qualquer rapariga,
ele ainda não lhe vira a cara. Tomou um súbito
interesse por Vienna e debruçou-se para Jorge. (Ela está em
cima do ombro de Jorge, não tem mais do que a altura da
orelha dele e ele não a vê. Ela está de costas
e distante e talvez por isso mesmo admirável, ele está de
frente e próximo, mas muito mais estranho e irritante.
Se ele quiser chama-a e ela não é, afinal, Vienna
nem nunca podia ter sido).
- Então, que responde Vienna?
Jorge lê:
- Ele fala: "Se não tivesse regressado morrerias?". Ela: "Se
não regressasses morreria". Ele: "Nunca deixaste de amar-ma?" Ela: "Nem
um segundo deixei de te amar." Ele: "Obrigado..." - Ele é Sterling
Hayden.
(Ela está entre um indiano que sorri nos lábios
grossos, abertos até às gengivas, mas é com
outro que fala ou outro que ouve). Vê agora o outro, é Frederico,
o Frederico, ainda mais próximo do que Jorge, ossudo e
comprido, com a barba pouco densa, o queixo à vista, o
pescoço delgado como uma haste, percorrido pela maçã-de-adão,
saliente, a romper a pele; o Frederico de frente, como o Jorge
na Cister, ela de costas, outra vez). Tamborila, impaciente,
no tampo da mesa. Arrisca:
- Esperavas alguém?
- Não, porquê? Ninguém precisamente. Devem
estar aí todos.
Jorge fez um gesto para trás, arremessado e impreciso,
que toca o grupo ao fundo. E a mão esquerda tapa o indiano,
que se movera pouco antes, e estava de perfil, adunco, a sorrir
nas gengivas vermelhas, e ela. João receia que Jorge saiba
e fica tenso, pisa uma perna da mesa e sente-a na planta do pé.
(Todos. Deviam estar aí todos. Os outros quem são?
Não faltarão afinal quase todos? Está o
Eugénio, de cadernos debaixo do braço, é inevitável,
com o Tomás, o Ramos e a Elsa - a Elsa, os seus óculos
e a gola dura, engomada, de internato - o Francisco, ao fundo,
e o Bernardo, que entra, enorme, com o casaco felpudo).
- Olha, estão a abrir as portas. Vamos embora depressa,
que eu não posso ficar à frente.
- Quem é aquela rapariga? - pergunta João de súbito,
soerguido, a apontar sobre o ombro do outro.- Não a conheces?
- Quem? Qual?
Voltou-se, impaciente, com três moedas na mão.
- Não vejo ninguém.
(Não, não pode ver. Estão todos em movimento.
O indiano vejo-o eu bem, com as gengivas à mostra, e o
Bernardo. Esses vejo-os, tão próximos como tu estás.
Mas ela, ela não. Que disse Vienna afinal? "Nem um segundo
deixei de te amar". E depois?)
- Agora já não podes ver. Não faz mal.
Jorge pagou, colocou o programa dentro dos cadernos e pôs-se
a empurrar as cadeiras metálicas. João seguiu-o
na linha ziguezagueada através da esplanada de ferro e
considerou a trajectória pouco inteligente, pouco prática,
mas já feita, traçada, e repetiu-a, atrás
dele, a uns quatro ou cinco metros. Depois, João parou,
na base da escada do cinema, de encontro aos que subiam, uma
vaga de costas.
- Olha lá - perguntou - que filme passa hoje? O "Johnny
Guitar"?
Jorge voltou a cara para ele, enorme e perplexa.
- O "Johnny Guitar"? Mas tu estás doido. É "O
grito", do Antonioni. Tu vens ver um filme sem saberes o título?
O "Johnny Guitar" é do Ray. A distância mede-se
em séculos, em milhares de anos-luz. São dois continentes,
dois universos distintos.
O indiano apareceu, de súbito, ao lado de João.
João subiu dois degraus ao lado do hindu e depois o outro
adiantou-se, com uma tenacidade de fraco, nervosa e irritada.
A voz de Jorge rasgou o rumor da multidão em movimento.
- És tu, Helena?!
(É o começo, apenas o começo. Daqui para
diante não há nada a fazer. Ou talvez seja um desafio. É possível
forçar as palavras. "Diz-me uma mentira, etc.").
Jorge não estava à vista, passava a porta envidraçada,
mas João viu-a; ela resvalou da esquerda, por entre a
multidão, e o casaco de malha verde prendeu-se, por um
momento, num dos seus livros. Ele soltou-o, sem ela perceber,
nem ele por que o fizera. Porque podia não o ter feito.
Mas tinha-o feito. Depois, atirou-se para a frente, com uma violência
extrema.
- Não empurre! Não é preciso empurrar!
Jorge falava já com ela, à direita, no átrio,
junto da escada. Abria os braços numa explicação
qualquer, que não era veemente e que não se devia
ligar a nada de importante.
- Antonioni - disse apenas o indiano, a bater no ombro de João,
míope e irónico.
- "O grito".
- É preciso ver bem. Estou no meio da sala. Guardo-te
um lugar.
Eles subiam. Jorge atrás, ela um pouco de lado. O perfil
surgia do cabelo diluído. Onde também, achou João,
havia tarde.
- Jorge! - chamou.
Voltavam no patamar. Quando se sentou ao lado do indiano, na
sala já escura, perguntou-lhe:
- Vienna afinal quem é?
E explicou:
- A Vienna do "Johnny Guitar", de Nicholas Ray.
O indiano disse três linhas:
- Joan Crawford. Boca e lábios. Agora cala-te.
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