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  - A gravata berrante
  - Avenida de Roma

  - Três lágrimas paralelas

 

Conto de TRÊS LÁGRIMAS PARALELAS , Editorial Caminho, Lisboa, 1987

Pág. 93

TWILIGHT XVIII

Monsieur de la Rocque foi nomeado por Sua Majestade El-Rei Luís XV fiscal de todos os espelhos do Palácio de Versailles. Foi-o com a pompa exigida pelo cargo, pelo número, a pureza e o brilho dos espelhos, pelo seu próprio passado e por um gosto muito especial de Sua Majestade.

Era preciso.

Era preciso, afirmou o Rei, que cada um dos milhares de espelhos de Versailles dissesse livremente o que via, não pelo valor da liberdade em si, mas porque, vendo, eles viam a grandeza da França, havendo, assim, que vê-la com a mais absoluta nitidez.

De tal forma que houve quem, na Corte, atribuísse a Sua Majestade esta frase:

- Os espelhos de Versailles são a transparência da França, vista de um só lado!

Após o que, tendo-o nomeado, Sua Majestade despediu, com um gesto curto, Monsieur de la Rocque.

Dizendo-lhe apenas:

- Ide e fiscalizai!

Foi.

Recuando, dobrado.

Pelo que, diariamente, Monsieur de la Rocque percorria Versailles, observando a olho nu ou apontando em frente do olhar uma lente rigorosa, e próxima, os milhares de espelhos do Palácio.

Via-se assim a si próprio Monsieur de la Rocque, por dia, milhares de vezes.

Tantas que chegava a acontecer não se entender Monsieur de la Rocque com a sua própria imagem, porque hesitava entre qual de tantos era ele, se ele se um de tantos.

Não se reconhecia mesmo, algumas vezes, e, com uma larga vénia, trocava consigo próprio banalidades amáveis, explicando aos espelhos, e os espelhos a ele, que era fiscal, por ordem do Rei, dos espelhos de Versaillhes.

Só assim podia Monsieur de la Rocque assegurar, como fazia todas as manhãs, a Sua Majestade o Rei, que os espelhos de Versailles mantinham, na sua opacidade cintilante, todo o esplendor da França, toda a liberdade da grandeza.

Mas um dia não chegou a Sua Majestade o relatório de Monsieur de la Rocque.

Pelo motivo eminentemente forte de que Monsieur de la Rocque desaparecera.

A um bater impaciente de palmas de Sua Majestade, a Corte correu o Palácio inteiro, procurando, num ressoar de tacões e num rolar de saias, brincados, jogados, Monsieur de la Rocque, o pobre.

Foram ver ao longo dos milhares de espelhos, esperando talvez encontrá-lo, derrubado pela idade e pela obediência a Sua Majestade, aos pés cintilantes e maciços de qualquer moldura.

Não estava, não o encontraram.

Avisado, o Rei apertou, no punho da bengala, duro, o seu punho.

Acabou porém por achá-lo a própria Madame de Pompadour.

Com um grito súbito e agudo, porque Monsieur de la Rocque estava onde era de todo impossível que Monsieur de la Rocque ou quem quer que fosse estivessem.

Dentro de um espelho.

Na própria imagem.

Fazendo mesuras e explicando, primeiro a Madame, depois a toda a Corte, que logo acorrera, coisas que ninguém, do lado de fora, ouvia.

Dignou-se vir Sua Majestade.

Abriu-se à passagem do Rei um corredor de vénias, e de silêncio.

De dentro do espelho, Monsieur de la Rocque fez a sua mais rigorosa mesura e tentou, floreando no ar gestos redondos pulsados de rendas, explicar qualquer coisa.

Mas Sua Majestade, que tinha acordado indisposto, foi implacável:

- Nós vos nomeámos fiscal de todos os espelhos do palácio. Ora sendo para Nós os espelhos de Versailles a transparência da França, vista de um só lado, a vossa situação é pior do que incorrecta, é ridícula!

Diminuía, a recuar dentro do espelho, Monsieur de la Rocque.

E mais disse o Rei:

- Do lado de dentro do espelho, não apenas não fiscalizais coisa nenhuma, a não ser esta sala que o espelho vê, para o que não vos demos autoridade, como perturbais com a vossa imagem penosa a imagem da grandeza!

Diminuiu mais dentro do espelho Monsieur de la Rocque, recuando.

Disse mais o Rei:

- Pior: Nós, Rei de França, não Nos vemos nesse espelho porque onde devia estar a Nossa imagem está, ridiculamente, a vossa!

Monsieur de la Rocque diminuiu ainda mais.

Após o que, voltando-se para o capitão da sua Guarda, disse o Rei:

- Destruí imediatamente este espelho!

Foram inúteis o susto de Madame e os protestos redondos e mesureiros que Monsieur de la Rocque fazia do fundo mesmo do espelho.

O espelho foi estilhaçado entre sustos breves e algumas palmas divertidas.

E com ele terminou, na Corte de Luís XV, o cargo de fiscal de todos os espelhos de Versailles.