das nossas qualidades e alguns dos
nossos defeitos, do Português-Portugal.
Este António Portugal vai atravessar grande parte
do século XX português, passando por vários
momentos políticos cruciais, desde o assassinato de
Sidónio Pais, o 25 de Abril e até faz uma incursão
nos tempos actuais. E isto sob um modo narrativo que lembra
por vezes a "Peregrinação" do Mendes Pinto. Este
seu livro é uma Peregrinação Portuguesa, é essa
a sua intenção?
É uma Peregrinação Portuguesa por dentro
de nós próprios.
O seu herói António tem os olhos verde-rubros.
Porquê? É ligado ao mito da bandeira nacional?
É.
Este seu herói vai pois entrar em contacto com
várias outras pessoas durante o seu périplo nacional.
A dada altura entra numa conferência futurista onde há um
rapaz de fato-macaco. Em quem é que estava a pensar
quando escreveu esse capítulo?
Digamos que dentro
da área estrita em que você estava
a pensar há bocado: Santa Rita Pintor e Almada. Acertou...
Mais à frente é altura de entrar o A.
dos Reis, que burlou Portugal. Este A. dos Reis é o
Alves dos Reis, não é?
No livro é absolvido, precisamente... No sentido que,
sendo este livro um romance histórico, é, claro,
uma reinvenção, e um dos direitos e deveres óbvios
da reinvenção é dar a volta à realidade...
Houve de facto um Reis, financeiro e monetário, que foi
condenado...Este Reis porque representa determinada estratégia
económica e financeira não apenas foi absolvido
como está na genealogia de boa parte do mundo empresarial
que é capaz de estar aí.
Como não podia deixar de ser o seu António
vai encontrar o Salazar, aqui chamado Dr. Oliveira. É importante
tê-lo convocado?
O Dr. Oliveira é imprescindível. Impôs a
sua imprescindibilidade ao país.
Há uma parte impagável do seu livro onde
o António desengata a carruagem dum patriarcal Cardeal
que ia a Roma buscar o Papado para Portugal e fá-lo
entoando a Internacional. Esta parte é histórica
ou inventou-a?
É inventada e corresponde a uma realidade... As coisas
não são antitéticas. Na verdade, houve uma
grande figura da igreja portuguesa com a esperança de
ser Papa, e porventura com o apoio do Dr. Oliveira. Na verdade,
julgo eu, é pouco provável que um homem de olhos
verde-rubros tenha, a cantar A Internacional, tentado fazer descarrilar
o comboio cardinalício...É pena!
Como não podia deixar de ser aqui também
entra o António Ferro, aqui chamado António Cobre... É bem
verdade o que digo?
É uma ficção sua que corresponde a uma
ficção minha...
Mas uma grande figura deste romance é a do Dr.
Oliveira...É o Salazar? Explique-me lá um bocadinho...
É um ditador de calça parda e perfil frio que
ocupa quarenta anos de páginas deste livro. Os leitores
farão eles a sua própria ficção que é,
como se sabe, a realidade com asas...
A certa altura o seu herói urde o golpe comunista
das Taças de Futebol. O que é isto, esta manobra?
Bem,
quer dizer, os três F, não é assim?
Fado, Futebol e Fátima. Este é um. Se o livro pretende
narrar o século XX português grosso modo, não
podia faltar este F: Futebol. Que foi, por inocentes que estivessem
muitos desportistas, atletas, público amador, um aliado
objectivo do oliveirismo... Daí que este António,
que passa o livro a tentar batalhar contra a opressão
e a tentar atingir o regime no simbólico, faça
a sua tentativa de roubo das taças dum grande clube de
futebol!
O Fado e Fátima também são convocados.
Gosta do fado? O que é que vê em Fátima?
Neste seu livro bastante presente...
Pudera. São duas coisas essenciais, não é assim?
Gosto do fado mas sou crítico em relação
ao fado oliveirista, do pessimismo, da auto-complacência
e da passividade...Há outros fados... Quanto a Fátima, é um
elemento estruturante da dita alma portuguesa.
O assalto ao Santa Maria é abordado com outros
nomes. O capitão Gavião, etc....
Com
outros nomes e outras altitudes. Trata-se de um Zeppelin chamado "Padre Bartolomeu" que é assaltado
no meio do Atlântico por uma muito corajosa tropa fandanga
aérea
mas é um belíssimo golpe na imagem internacional
do Dr. Oliveira que, no livro, corta propriamente relações
com Deus...
Voltemos ao Salazar, aqui denominado
Dr. Oliveira. Há uma
cena muito cómica onde o célebre estadista, já caquéctico,
enganado, com a mania que governa ainda, nomeia um ministro
dos Transcortes, mas já havia outro Ministro das Corcorações.
Acha que esta sua cena é próxima da realidade?
O
Doutor Oliveira representa um ditador rural, anticosmopolita,
abotinado e manholas, que não
tem de ser necessariamente a figura A ou B...É uma invenção
que corresponde ao realismo do mito...
Portanto faz um retrato bastante negro do mito?
Dessa
figura, digamos que um retrato bastante cinzento-escuro, mas,
do Portugal em geral, acho que, a começar pelos olhos
verde-rubros do protagonista, é uma aventura a cores...
Avançamos no seu livro e a dada altura cruzamos
um tal Dr. Lector. Quem é este personagem, quem lhe
faz lembrar?
Qual poderia ser uma agremiação literário-política
sita na Baixa, a meia dúzia de metros do Largo onde o
25 de Abril prendeu o primeiro-ministro do regime caído?
Quem poderia ser um dos habitués dessa agremiação
que fez de elo de ligação entre um general revolucionário
e o chefe do governo deposto? O que não significa que
tudo isto não seja uma invenção!
Mais tarde António Portugal vai também
ser soldado numa missão humanitária, uma crítica
ao nosso papel intervencionista?
É uma crítica ao que há de tecnocrático
e de facto não humanista em muitas operações
de assistência internacional. Daí que António
tenha uma guinada muito portuguesa e, para salvar os desprotegidos,
de um tanque "estabilizador", dispare sobre o bicho com a sua
velha Browning dos tempos do regicídio...
Já no final do livro Lisboa enche-se de carros
celulares. Quer dizer que os portugueses estão todos
a ser presos preventivamente?
Absolutamente.
Quem é o Dr. Areia?
É um primeiro-ministro. Quem poderá ser o governante
que neo-liberaliza a própria inocência e a culpabilidade?
O amor, coisa tão importante no seu livro anterior,
neste livro é simplesmente invocado, não compartilhado...Porquê?
Não acho. Permito-me achar que o livro está eivado
de ternura, afecto e amor em consequências de amor físico,
e boa parte do trajecto se faz nesse outro nome do amor que é a
liberdade...
E o livro termina com o sobrinho-neto
do António
Portugal perguntando a este o que é que procurou na
vida. E o Artur Portela termina o livro com uma pirueta...
Esse
sobrinho-neto é também um Portugal mas já nem
sequer sabe, excessivamente informático que é,
globalizado, interactivado, dizer o seu nome. Daí que, à pergunta
do tio-avô: "Tu como é que te chamas?", ele responde
em inglês:"Pórtchugol". E, à pergunta deste
sobrinho informático ao tio: "O que é que procurou
durante a vida?", este responde muito portuguesmente: "A procura".
O que significa que, verdadeiramente, aquilo que achamos e somos é a
curiosidade e o lado de lá da esquina que o futuro é sempre...
Para terminar. Dedicou este seu
livro ao António
Lobo Antunes, outro António. É seu amigo? É uma
homenagem?
É uma homenagem.
Artur Portela, neste livro muda de escrita...
Os
ritmos da escrita são os ritmos das vivências
evocadas e invocadas. Os anos dez e vinte dos modernismos e da
guerra não têm nada a ver com os anos de chumbo
dos anos cinquenta e sessenta, do oliveirismo... O carro é o
mesmo, o condutor é o mesmo, só que engrena as
velocidades adequadas às paisagens desta viagem ao longo
do Século XX português.
A certa altura, o nome de Eça
(que eu sei ser um dos seus escritores portugueses preferidos)
surge...É mais
uma olhadela admirativa ou o que é?
É uma utilização de apelidos rimados. Peça,
Bessa, Eça. A figura, como se verifica, é a de
um Bessa que trabalhou na Berlim hitleriana e que é mandado
entregar uma mensagem do Chanceler ao Doutor Oliveira. O Doutor
Oliveira responde a Hitler remetendo-lhe pastéis de bacalhau.
Prova da nossa neutralidade!
(A restante entrevista não envolve especificamente
o livro)
"Jornal do Fundão", 20/02/04 |