PAULA MOURA PINHEIRO – ...O “Três à Quarta” de
hoje recebe Artur Portela e o seu último livro, História
Fantástica de António Portugal. Com edição
da D. Quixote, História Fantástica de António
Portugal é um romance para iniciados, cuja ironia opera
no pressuposto de que o leitor tem um conhecimento seguro da
História de Portugal dos últimos 100 anos, literalmente
do regicídio e instauração da República à actualidade.
Ora a travessia do século XX português é feita,
neste romance, pela mão de uma figura singular, António
Portugal, um matulão de olhos verdes sanguíneos,
um republicano maçon, filho, neto e bisneto, até há dez,
onze gerações de insurrectos e corajosos Portugais
como ele. Como é que apresentaria, sem ser nestas palavras
que eu acabei de usar, evidentemente tiradas do seu romance ,
o seu António Portugal a quem ainda não leu o livro?
ARTUR PORTELA – (...) Deixe-me colocar uma dúvida
antes. Acho que, embora os iniciados tenham, porventura, determinada
leitura facilitada, os não iniciados não estão
bloqueados. Na medida em que o livro é fantástico,
reinventa a História, conta contos. Pelo que pode haver
uma abordagem deste livro pela banda da fantasia, do fantástico,
da ficção...
...Mas tem de concordar que, quem tiver um conhecimento
da História
de Portugal dos últimos cem anos tem um nível de
leitura deste livro com outro tipo de prazer, porque é evidente
que o romance está permanentemente a operar sobre private
jokes, segundas leituras. Dá outros nomes a figuras que
todos conhecemos, ou, se não conhecemos, são, pelo
menos, figuras do nosso imaginário colectivo, da nossa
História e percurso colectivo. Um ligeiríssimo
exemplo, já para o fim do livro (porque o livro segue
uma ordem cronológica): o general Spaniel é evidentemente
o general Spínola. É absolutamente evidente, mas
eu pergunto-me se um jovem de vinte e tal anos (não tem
de ser a sua preocupação, obviamente), que hoje
em dia já dificilmente sabe com rigor o que foi o 25 de
Abril, poderá fazer esta leitura...
Eu diria que se esse jovem tem essa dificuldade, o livro pode
ser que ajude a elucidá-lo, brincando, ironizando, pedagogizando.
Sendo sempre possível a tal leitura pela banda da fantasia.
Porque há aí História, mas é uma
História inventada, reinventada, fantasiada. Tudo é parabólico,
tudo é metafórico, tudo é fabuloso. E, nesse
sentido, uma leitura estrangeira – mesmo portuguesa –,
estrangeira à História, estrangeira à política,
pode entrar nesse livro sem preocupação. Dou-lhe
um exemplo: além da apresentação em Lisboa,
feita pelo Dr. Mário Soares, houve uma apresentação
no Porto feita pelo Professor Alexandre Quintanilha. O Professor
Alexandre Quintanilha é português, mas viveu praticamente
sempre no estrangeiro... No início em Moçambique,
depois passou para a África do Sul e depois foi para os
Estados Unidos. Ora ele teve uma leitura deste livro digamos
que completamente inocente. Inocente no sentido profundo da palavra,
no sentido essencial da palavra. Ele fez uma leitura quase mágica
da História Fantástica de António Portugal.
Porque ele não reconhecia grande parte das figuras. E,
no entanto, leu-o, dizia ele, com encanto, com sabor.
Mas, ó Artur Portela, longe de mim sugerir (senão
não estaríamos aqui a conversar) que não é susceptível
de ser feito. Admito perfeitamente. O meu caso é diferente,
porque eu, ao contrário do professor Quintanilha, sempre
cá vivi. Portanto, parte destas figuras que me chegam
pela mão deste António Portugal e das suas desventuras,
no nosso Portugal, vou-as reconhecendo. (...) Mas é, de
facto, um romance que, se encontrar do lado de lá um iniciado,
propicia níveis, se calhar, de divertissement, mais sofisticados,
pelos vários níveis de leitura que propõe
e pela ironia subjacente a muitos dos nomes até. É,
sem dúvida, um livro com um enorme sentido de humor e
que alterna o registo da ironia aguda com alguma.... não
vou dizer dimensão trágica, porque eu acho que
não chega aqui nunca a assumir a dimensão da tragédia,
mas com episódios um bocadinho mais dramáticos.
E eu gostava que nos contasse aqui, para início de mergulho
neste História Fantástica de António Portugal,
qual era o seu projecto de início. Era, de facto, fazer
um livro de balanço, um romance de balanço do século
XX português, ou - eu sei que a sua formação
de base é História - isso acabou por emergir naturalmente
quando começou a desenhar a figura do António Portugal?
Qual foi o processo de concepção deste romance?
O objectivo primeiro não foi fazer um balanço.
Foi contar, de uma forma divertida, digamos auto-divertida -
que suscitasse o divertimento tão inteligente quanto possível,
tão lúcido, tão crítico, tão
auto-crítico quanto possível - a História
deste século. História que em parte é a
minha, embora eu tenha nascido já perto do meio do século.
Mas, até por razões de ordem cultural, familiar,
de certa forma convivi – através da memória
e da tradição dos meus pais, dos livros, dos estudos,
etc.— com boa parte do que o livro reinventa. Tal como
vivi boa parte do que o livro acaba por entre paródica
e dramaticamente narrar quase a partir do início da sua
segunda metade. Pedia-me há pouco que falasse do António
Portugal. Ora o António Portugal, de olhos verde-rubros
(alusão óbvia às cores-pátrias), é um
homem que, curiosamente, namora com uma mulher que talvez tenha
sido modelo do busto da República...
A Genciana...
A Genciana. Nome que me é muito caro, porque, com ele,
procuro também homenagear um escritor de quem fui amigo
e cuja morte me marcou profundamente, o José Rodrigues
Miguéis, o autor de Saudades para Dona Genciana, das novelas
mais belas, mais saborosas, evocadora da Lisboa mais poética.
Pois este António Portugal – e o livro inicia-se
assim – assiste à morte do dr. Miguel, o dr. Miguel
Bombarda, alienista e chefe civil da Revolução
republicana, abatido por um tiro de um tenente louco. O louco
ainda dispara mais um tiro que atinge a tela do marechal Saldanha,
o fundador do Hospital Miguel Bombarda. Eles ainda lá têm
a tela com o buraco do tiro «religiosamente» guardada,
evocando essa situação. Depois, há um flashback
ao regicídio...
Em que o António Portugal intervém... Desculpe
interrompê-lo, mas se me permite aqui uma ponte com uma
outra arte dilecta, seguramente também de quem me está a
ouvir, que é o cinema. Eu estava a ler o seu livro, divertidíssima,
e, a certa altura, começou a ocorrer-me o mecanismo narrativo
que me remeteu para filmes como o Zelig do Woody Allen ou mesmo
o Forest Gump, onde o protagonista, uma figura ficcionada, aparece
metido nos grandes momentos históricos, ao lado das figuras
históricas, numa espécie de insert por artifício
narrativo. De facto, é isso que o Artur Portela consegue
fazer de uma forma muito divertida: colocar este António
Portugal cirurgicamente nos momentos mais decisivos, ou mais
exemplares, ou mais paradigmáticos do percurso de Portugal
dos últimos 100 anos. É muito divertido ver o seu
António Portugal, que passa a ser nosso quando somos leitores
do seu romance, aparece no regicídio... Aparece sistematicamente.
Até no 25 de Abril. Sempre estrategicamente colocado ao
lado dos principais actores do nosso percurso colectivo.
Eu acho que essa sua observação é muito
justa. Conheço os filmes, gosto muito dos filmes, e honra-me
o paralelo. O método é relativamente semelhante,
essa intromissão de uma figura ficcionada em situações
reais. Quer o Zelig quer o Forest Gump me parecem bons exemplos.
Aliás, não é apenas do cinema que este História
Fantástica é beneficiária, tem também
relações com a própria banda desenhada.
Tanto, de tal maneira, que às vezes interrogo-me sobre
se este livro não será , sem ter disso nenhuma
vergonha, não uma banda desenhada, mas uma banda escrita.
Pela a estrutura, a dinâmica, os quadros, a cinematografia...
Na minha perspectiva, um romance não tem de ser uma coisa
estanque, é uma coisa multidisciplinar, interdisciplinar.
E, no romance, no romance em geral, podem convergir, em alguns
casos de uma forma brilhante (não estou a falar do meu
livro, estou a falar de outros autores portugueses e estrangeiros)
o cinema, a banda desenhada, a música, a pintura, o ballet...
A própria televisão, a própria rádio.
E porque não?, tudo isso aflui e enriquece e abre o romance...
Sacode poeira do romance tradicional. Mesmo em relação
ao romance histórico: a História Fantástica
de António Portugal não é um romance histórico à Herculano,
um romance grave, onde se ouve chiar a pena de pato, a reconstituição
do sabor da época. Pretende ser um livro que brinca, inventa,
relaciona, interroga, auto-interroga-se. Procurando comunicar
o prazer que deu a quem o escreveu, ao ser escrito, procura comunicar
esse prazer a quem o possa ler. No seu caso, de uma forma, além
de inteligente, muito generosa...
O seu António Portugal foi, com certeza construído
para este romance com base (aliás, já aludiu a
isso aqui) na sua experiência pessoal, em pessoas que conheceu,
até de casa... Cruzou-se com pessoas com traços
que depois vieram contribuir para a construção
deste António Portugal. E eu gostava de o ouvir (...)
mais sobre isso. E volto a recordar a apresentação
que fiz, que é uma apresentação muito concreta,
baseada em descrições objectivas que nos dá no
livro, como seja o facto de este António Portugal ter
uns olhos verdes sanguíneos – obviamente uma alusão à bandeira – (...)
um republicano maçon, filho, neto e bisneto, até há dez,
onze gerações de insurrectos. Corajosos... e amigos
da liberdade, que é basicamente a ideia que passa transversalmente
em todo o livro. O que é que acrescentaria mais para quem
não leu o livro, e a quem estamos a convidar a lê-lo?
(...) É, de facto, simultaneamente um livro fantástico
e um livro vivido por quem o escreveu. Olhe, por exemplo, o meu
pai surge nesse livro. Embora, evidentemente reinventado e ficcionado.
Surge duas ou três vezes. Outro homem que aparece é o
Pai Lopes, o professor que tenta republicanizar o general (que é o
Gomes da Costa). O Pai Lopes que foi um professor do liceu que
eu frequentei, o Passos Manuel, e foi uma das minhas primeiras
entrevistas jornalísticas. Eu ainda era adolescente e
o meu pai, para eu me ensaiar, para me explicar designadamente
o mecanismo na entrevista, pôs-me a entrevistar o Pai Lopes.
Lembro-me perfeitamente: era um homem entroncado, com uns bigodes
explosivos, veemente, republicano, amigo da Revolução
Francesa, etc.. Entrevistei-o durante horas e horas, encantado
a ouvi-lo e lembro-me ainda hoje de ele sair para o quintal da
sua casa modesta, creio que na linha do Estoril, e ir abraçar-se
a uma árvore, símbolo da Natureza, símbolo
da própria liberdade da Natureza! Porque a alegoria da
Liberdade é permanente nele. Lembro-me também do
general Spínola, a quem o meu pai e eu, uma noite, fomos
visitar. A escada estava cheia de agentes da PIDE, havia agentes
da PIDE a vigiarem a casa no prédio do outro lado da rua
e lembro-me da conversa conspirativa, densa, dramática
que tivemos, o general. o meu pai e eu. Sim, grande parte deste
livro está, digamos, vivida, ou na memória familiar,
ou na memória mais directa. Designadamente, aparece aí o
Sidónio, o Sidónio Pais...
...O Presidente-Rei...
...O Presidente-Rei. Conservador, autoritário, ditatorial,
mas varonil e corajoso. E lembro-me da minha mãe contar
que algumas senhoras de Lisboa, mais conservadoras, quando passava
o Sidónio Pais, iam para a varanda lançar papelinhos
e gritar ‘ ‘SI-SI’ ‘DÓ-DÓ’ ‘NI-NI’ ‘Ó-Ó’,
que era uma forma de galanteria, de elogiar o homem varonil que
ali passava. A propósito da coragem, eu direi que um ou
outro amigo meu se interrogaram sobre a forma, digamos, complacente
como o livro trata, por vezes, figuras mais negativas numa perspectiva
de esquerda, o Gomes da Costa e o Sidónio. Ora eu admito
que sim. Do ponto de vista ideológico, cultural, são
personagens que pertencem a uma banda ideológica que não é a
minha opção essencial. Mas tenho de reconhecer
que
designadamente essas duas figuras tinham a coragem, coragem física,
uma a coragem muito portuguesa. E isso suscita alguma admiração
ao livro e por parte do livro. Não é admiração
incondicional, a ponto de não os situar histórica,
cultural e ideologicamente. Por exemplo, quando o Gomes da Costa,
na guerra de 14-18, no front, atravessa as trincheiras... Ele
era um homem gigantesco, as trincheiras, em alguns momentos,
não eram tão altas como ele. Do lado de lá,
os alemães disparavam, o general, corajosamente, não
se vergava. Então, o António Portugal, nesta circunstância,
(tal como o Zellig ou como o Forest Gump) era um gaúcho
no exército português, gritava-lhe ‘General,
agache-se, meu general!’. E aí, permita-me a expressão,
o general respondia ‘Um general nunca se agacha, seu cabrão!’.
Esta frase, com a sua violência, uma violência natural,
militarona, esta coragem, são coisas que acho profundamente
portuguesas.(...) Há pouco falava da tal família...
os Portugal. Ora esses Portugal são também esta
coragem, este amor à liberdade, mesmo que a liberdade
fosse por vezes conservadora . Esse amor à liberdade portuguesa.
Porventura será também profundamente espanhola,
profundamente italiana, mas na medida em que é profundamente
portuguesa agrada-me. Pertence ao livro, quero que esteja no
livro. E este retrato que eu aqui invento, esta História
que aqui vou contando, estes episódios, estes lances que
eu aqui vou fazendo desfilar não são, claro, apenas
do século XX. Vêm do fundo da História de
Portugal. Estou a falar dos Portugueses e não apenas dos
maçons ou dos republicanos...
É um ponto de vista generoso...
É justo. Temos de admitir. Nós somos tudo.
Exacto. Somos tudo e em qualquer caso encontram-se
sempre bases históricas para sustentar. Estava a ouvi-lo com interesse
e atenção e, apesar das divergências ideológicas
que teria de ter com o presidente-rei, o Sidónio Pais,
para não falar aqui de outros, acaba por ter um reconhecimento
e apreço pela sua coragem pessoal e pela sua estatura
viril, varonil. E isso é interessante, porque me remete
para uma pergunta ... Gostava de o ouvir falar sobre isto:
há aqui também, de alguma forma – eu não
diria inesperadamente –, alguma complacência com
a Igreja... Por exemplo, a Genciana tem (aliás uma das
partes que eu mais aprecio neste romance) um sonho, em simultâneo
com um sonho do namorado, o António Portugal. Enquanto
ele sonha com a República e a revolução,
a Genciana sonha o sonho da Nossa Senhora de Fátima,
que aliás é uma velha blague entre republicanos,
laicos, socialistas. Lembro-me bem do Gustavo Soromenho, um
velho republicano que nos deixou há pouco tempo, falar
com imenso humor do Milagre da Nossa Senhora de Fátima,
com a maior ironia, como é evidente. Aqui a nossa Genciana
sonha o Milagre da Nossa Senhora de Fátima como se fosse
ela a Nossa Senhora de Fátima! Há aqui uma assumpção
na primeira pessoa do singular como se fosse a própria
Nossa Senhora de Fátima a falar. E o que é curioso é que
quer a Genciana quer a mãe de António... -Em
relação à mãe do António
Portugal não aparece nenhuma alusão directa a
alguma ligação que ela tivesse à Igreja,
mas é uma figura intuitiva, evidentemente menos letrada
do que o pai... Isto é uma descrição verosímil
da realidade daquele tempo, em que as mulheres podiam estar
ligadas a revolucionários, insurrectos, laicos, mas
não deixavam de ser devotas. E houve, de alguma forma,
sempre um casamento, literal e metafórico, em Portugal,
entre revolucionários e Igreja, ao contrário
do que se passou noutros contextos. Recordo uma coisa que penso
que toda a gente terá presente: o próprio PCP,
mesmo nos períodos mais agudos, não se atreveu
nunca a atacar de frente o Milagre da Nossa Senhora de Fátima...
Talvez, só na Primeira República, a figura do
mata frades tenha surgido com um carácter mais acintoso.
Porque rapidamente se chegou aqui a um ponto de equilíbrio
bizarro entre ideias aparentemente contraditórias, e
isso é bem dado aqui no livro, de facto, entre este
casal, a Genciana e o António...
Este livro procura compreender, sem necessariamente simpatizar.
Como que empatiza com essa atitude e essa opção.
Era, aliás, uma coisa muito séria e multitudinária.
Quer dizer, por irónica que seja a atitude deste livro
em relação ao fenómeno, esse é um
fenómeno denso de pessoas, cheio de humanidade, cheio
de crença, e isso suscita compreensão e respeito.
Eu procuro evitar as dicotomias, procuro articular e dialogar.
O sonho da Nossa Senhora de Fátima não é um
sonho contra a Nossa Senhora de Fátima. Não quer
dizer que seja uma opção a favor, mas é um
sonho de compreensão e de reconhecimentos da realidade
e da importância desse fenómeno. Ajudando a caracterizar
um tempo e uma personagem. Em simultâneo, como disse, há o
sonho republicano em que Deus dialoga com um símbolo da
Maçonaria, o triângulo com o olho no centro. Esses
dois sonhos depois fundem-se, depois articulam-se e vão
de mãos dadas por ali adiante como a própria relação
afectiva, a própria relação amorosa. Além
disso, se me permite, em relação à mulher
em geral, no livro. O dr. Mário Soares, na sua apresentação,
teve ocasião de observar que neste livro há uma
atitude romântica. A virilidade é ou acaba por ser
sempre voltada para a relação com a mulher. É-se
viril, varonil, tão mais quanto maior for a abertura ao
amor...O protagonista deste livro é um António,
que muito ama...
(...) Temos depois a Abília, que é, evidentemente,
a Amália Rodrigues, que é outro caso ... Foi assim
que eu li, não sei se abusivamente, mas parece-me um bocadinho
impossível não ver na Abília um caso . Posterior,
claro, ao caso da Genciana, que acaba por ser morta por uma bala
perdida, a inocente Genciana...
Simbolicamente, porventura, a Abília será o que
os leitores quiserem. Não é propriamente um retrato – e
eu não estou a recuar com receio de ser processado. Aliás
este é um dos pontos do final do livro, um País
processado, um País em prisão preventiva. Um livro
que começa no manicómio e acaba no manicómio,
que começa com o António Portugal jovem e acaba
com o António Portugal a dialogar com o sobrinho-neto.
Mas a Abília...?
A Abília é o Fado! Um dos três efes. E aparecem
no livro os três efes. Pois bem, a Abília, com que
o António Portugal tem uma relação e com
quem ele, à desgarrada – e esta é uma cena
do romance - canta fados. Ela canta um, ele canta outro , os
fados fundem-se à medida que eles se vão despindo,
eles despem-se mutuamente e acabam na cama envolvidos , ainda
a cantar o fado. E depois faz-se o silêncio sobre o acto
do amor...
Portanto, temos os três efes: Fado, Fátima
e Futebol?
É essa a intenção. Há um episódio
em que o António Portugal, mais uma vez zelligianamente
(para citar o seu Zellig), para atacar no simbólico o
oliveirismo, que é, neste jogo do fantástico, o
salazarismo, vai assaltar a sede de um grande clube de futebol
(não se sabe bem qual dos clubes será, embora se
possa eventualmente, reconhecer qual ) e vai assaltar o clube
para roubar as taças.
... Aliás, o nosso António Portugal passa praticamente
todo o livro numa fúria sabotadora, a tentar sabotar imensas
coisas...
A tentar, incansavelmente... Pretende lançar fogo à Exposição
do Mundo Português, pretende roubar as taças a esse
grande clube de futebol para, de repente, criar um grande escândalo
e atingir assim, no cerne simbólico, o oliveirismo, pretende...
...Está no assalto ao “Santa Maria”, que
aqui não aparece com esse nome...
Não aparece como barco, aparece como um zeppelin! Há um
capitão Gavião que, com o António Portugal,
assalta o zeppelin, de avioneta (quase do tipo que está na
capa do livro). Apoderam-se do zeppelin e o dr. Oliveira fica
perfeitamente amargurado e desprestigiado internacionalmente.
Como é que ele reage? Vai ao terraço do seu forte
e interpela Deus: ‘Eu que te dei um País, é assim
que me respondes?! Não proteges a minha fama, deixas que
estes assaltantes me façam isto? E zanga-se com Deus.
Ora há uma criada que assiste, oculta, a isto, e percebe
que o dr. Oliveira está zangado com Deus. E, entre Deus
e o dr. Oliveira, a criada opta pelo dr. Oliveira...Outra tentativa
de sabotagem é quando o cardeal...
Desculpe interrompê-lo, mas... - o que aliás sustenta
aquela minha afirmação de há pouco - há,
no seu livro, uma espécie de tolerância, simpatia,
quase uma relação de bonomia com a Igreja. Porque
o próprio cardeal, que é de facto sabotado – e
que não chega a Papa para que o Salazar não tenha
um Papa no bolso –, estende a mão, literalmente,
ao nosso António Portugal quando ele está em apuros
de fora do comboio. Aliás é uma das cenas mais
divertidas do livro...
E salva-o.
E salva-o fisicamente. Portanto há aqui uma espécie
de simpatia, que eu acho simpática, porque é humano.
Não há radicalismos de leituras e de exclusões,
de ‘Estes sim ou outros não’. Há uma
espécie de generosidade que perpassa por isto tudo, por
todas estas personagens, de uma maneira ou de outra, e as resgata
de uma coisa mais dura e mais definitiva em termos de leitura.
Bem, o Dr. Oliveira não é totalmente resgatado,
mas ainda assim... Em relação à Igreja,
aí porventura a minha formação de História,
o meu algum conhecimento da História da Igreja levam-me
a admitir o papel importante, designadamente no plano cultural,
que a Igreja desempenhou ao longo dos séculos. Apesar
de, em muitos momentos, e ela própria o reconhece hoje,
ter tido um papel negativo, pelo qual inclusivamente teve de
pedir desculpa. Em relação aos judeus, em relação
a diversas posições. Esse cardeal de que talvez
falemos era, por exemplo, particularmente crítico em relação
ao nazismo, que considerava um paganismo feroz.
Aliás, é também por aí que o Dr.
Oliveira também não simpatizava muito...
Com o nazismo e com o Hitler, não, o que aliás,
aparece também neste livro...
Aparece. (...) Aliás nunca é demais recordar que
o Salazar era contemporâneo de outros ditadores, como o
Franco, o Mussolini, o Hitler e o Estaline. Houve um período
em que estiveram todos no exercício do poder ao mesmo
tempo. Mas o Estado Novo em Portugal revestia-se de características
singulares, exclusivas. E, de alguma forma (...) Salazar resistiu
sempre a colar-se fosse a que regime destes fosse, o que é inesperado.
Há no seu livro uma passagem interessante em que o António
Cobre, que é, evidentemente, o António Ferro (desculpe
lá a assumpção total de... mas de facto
eu acho que é preciso ter estado muito tempo no estrangeiro
e estar muito desatento para não fazer essa leitura!),
aparece aqui em relação com o dr. Oliveira Salazar,
na série das suas célebres entrevistas a ditadores
(aqui entrevista também Mussolini). Ora torna-se muito
evidente esta resistência de Salazar a uma colagem, concretamente
aos Camisas Negras de Mussolini. Como depois também guardou
uma certa reserva de distância com o próprio Franco
(aqui também por razões de outra natureza, para
resistir às tentações ibéricas de
Franco). (...) Há depois aqui uma passagem muito clara
sobre isso, em que se descreve, de uma forma quase sintética,
esta resistência geral do Salazar. A páginas cento
e onze diz o seguinte: (...) “Sendo que o dr. Oliveira,
Republicanos não, por via de Afonso Henriques e do Infante,
dos quais, bicentenariamente, se iria, em estafe, reivindicar.
Democratas, nada, socialistas, menos, comunistas, coisíssima
nenhuma, anarquistas, só safanões. Indiferentemente,
a tempo e a destempo. Isto enquanto o reviralho revirava e espanholizava
como queria e podia, embora sem consequências.” Isto
dá bem conta do que o homem escovava: à esquerda, à direita,
para cima e para baixo, ‘isto não, aquilo não...
E eu gostava de o ouvir sobre isso.
Ele foi escovando, mais ou menos, à medida das suas necessidades
e das circunstâncias. No início o Dr. Oliveira teve
uma aproximação relativamente ao fascismo. O fascismo
italiano, no início, teve um certo élan cultural,
uma dinâmica cultural que o nazismo nunca viria a ter.
Salazar e o cardeal Cerejeira eram particularmente críticos
em relação ao nazismo. Em relação
ao Mussolini, inicialmente houve uma aproximação
por parte do Salazar. Até à Segunda Guerra Mundial,
Salazar teve de potenciar, naturalmente, da aliança da
Luso-Britânica para se distanciar e para se proteger também,
de uma Espanha que sabia-se lá que apoio poderia vir a
ter do nazismo e do fascismo! Pois não teve tanto quanto
isso, mas, ainda assim, Portugal em parte beneficiou desse distanciamento,
dessa frieza...
Uma astúcia, não é?
Uma astúcia. Mas inimigo do socialismo, o Dr. Oliveira,
sem dúvida, inimigo do comunismo, inimigo da democracia,
inimigo da democracia representativa e do parlamentarismo. Era
inimigo de muitas coisas e defensor de um Portugal, digamos,
fechado, rural, pequenino, Portugal dos Pequeninos, não é...
Digamos que, paradoxalmente, o apogeu está na Exposição
do Mundo Português! Mas em estafe, material tão
frágil, tão provisório. Foi uma espécie
de auto-monumento a Portugal e a si próprio, ao próprio
salazarismo. Ora este livro pretende caracterizar, sem algumas
dicotomias às vezes ...
Simplistas...
Simplistas... fascismo, democracia, socialismo, comunismo, etc.. É tudo
mais complexo, mais dialéctico, mais dinâmico. Quarenta
anos! É muito tempo...
Aliás a própria Primeira República... Já aqui
aludimos à figura do Sidónio Pais, que aparece
aludido como o presidente-rei... De alguma forma, este livro
começa com o regicídio. É a segunda cena,
a primeira é a morte de Miguel Bombarda...
É um flashback.
É um flashback, exactamente. De alguma forma começa
com um desencanto (...) na Primeira República, na descrição
da Primeira República. Como há uma espécie
de tentação, perigosíssima – a cada
rei tende a substituir-se outro rei. Portanto, há uma
espécie de reconhecimento que deriva de uma lucidez, penso
eu, da condição humana e das dificuldades que há em
suster um regime, de facto, de liberdade e de democracia. Porque
nós assistimos a isso na Primeira República...
Esse jogo entre a alegria a melancolia, entre o riso e a lágrima,
muito português, é uma ideia que esse livro procura
transmitir. Designadamente, no regicídio. A dor da rainha...
É inesperado esse ponto de vista...
...A dor da rainha, a bater com ramos de flores em quem lhe
estava a matar o filho. É uma dor profundamente respeitável.
Mas, ao mesmo tempo, também compreendo e simpatizo com
os republicanos, com os anarquistas, com os próprios regicidas,
que têm, também, a sua motivação,
a sua generosidade e a sua coragem. Valorizo a capacidade de
compreender uma e outra coisa, o que há de bom, de humano,
corajoso, num e noutro lado... Eu acho que já passou o
tempo suficiente e acho que importa compreender. É possível
gostar de vários lados. Não sei se isso não
será pelo menos uma obrigação da lucidez.
É redentor. É uma forma, de facto, de conseguirmos
apropriar-nos, sem trauma, de uma história colectiva que é a
nossa e conseguir, de facto, integrá-la de uma forma não
traumática. (...) Conseguir integrá-la de uma forma
produtiva. Somos isto tudo...
Somos isto tudo...
(...) Já aludiu en passant à Primeira Guerra Mundial,
o nosso António Portugal, inevitavelmente, por lá passou
com o general. Mas não só: o António Portugal
acaba, a certa altura, a seguir ao romance com a Abília,
por sair para Angola .
E assiste a um massacre.
Exactamente. E eu gostava de o ouvir sobre essa sucessão
de massacres a que ele vai assistir, porque não é só em
Angola.
Pois, é que os nossos ‘brandos costumes’,
como se sabe (já foi dito e redito), são por vezes
muito violentos. No século XIX, foram violentíssimos
nas guerras entre miguelistas e liberais. No nosso próprio
século XX, veja-se a Leva da Morte, que o livro aí evoca,
com a morte de Machado dos Santos, herói do 5 de Outubro,
mortos os chefes civis e militares da revolução.
Disse há pouco que o livro não é trágico,
mas tem momentos dramáticos. A cena que se assemelha à Leva
da Morte é um desses momentos. Outra matança, à qual
o livro, digamos, não assiste, mas que se percebe que
vai acontecer, é em Badajoz, depois de a polícia
política e a guarda portuguesas entregarem aos chamados “nacionais” os
refugiados republicanos, entendidos pelos franquistas como rojos,
vermelhos, comunistas. Para eles, todos eram comunistas, e não
eram, era falso. O António Portugal está na praça
de touros, ainda consegue sair a tempo de não ser fuzilado.
Para trás ficam todos aqueles homens que serão
chacinados na praça de touros como animais. Depois, em
Angola há um massacre que, de alguma forma, evoca outros
massacres. Para isso, não há necessariamente perdão,
há o respeito pelo drama, pela tragédia...
E sobretudo para não branquear o que aconteceu.
Aconteceu e é de assumir.
E é interessante, porque, de facto, no seu livro, há um
périplo de horror. De resto, um horror não dado
com grande aproximação, mas insinuado, no sentido
em que não se descreve exaustivamente as coisas a que
António assiste. Como acaba de dizer o Artur Portela,
o seu personagem vai sendo obrigado a assistir, ou saindo, na
iminência de ser também uma vítima – primeiro
em Badajoz, depois também... em Angola. (...) Depois,
escapa-se para o Brasil, mas engana-se e vai parar às
Caraíbas onde acaba por...
... Onde acaba por conhecer um capitão, que no livro
aparece com o nome de Gavião, e que parece assim um Gary
Cooper de sombrero, com ar melancólico, com olhar longo,
um olhar africano, de grandes espaços, e combinam, o golpe
do zeppelin, chamado “Padre Bartolomeu”, símbolo
do oliveirismo.(...). Então há esse assalto, eles
vêm em avionetas assim semi-loucas, tipo “Gloriosos
Malucos das Máquinas Voadoras”, aproximam-se do
zeppelin, lançam-se sobre ele com cordas, como se fosse
uma abordagem no mar, apoderam-se da barquinha. E, perante o
Mundo, o oliveirismo, o salazarismo, é desfeiteado! O
que leva à indignação do Dr. Oliveira. É esse
o episódio de mais uma semi-vitória, semi-derrota.
Porque aqui não há nem grandes vitórias
nem grandes derrotas, o que é também muito português.
Há porventura neste livro – com todo o devido respeito,
e sem me querer equiparar com quem vou citar– uma trajectória
que talvez faça lembrar uma figura grande da literatura
portuguesa e da aventura portuguesa: Fernão Mendes Pinto.
Semi-bandoleiro, semi-herói, bom, mau, cheio de coragem,
cheio de amargura, deprimido, exaltado, ciclotímico e
por aí fora...
(...) Bem, os episódios, como quem, nos está a
ouvir já foi compreendendo por esta altura, sucedem-se,
as aventuras também, o nosso António Portugal emergindo
sempre no meio das figuras mais importantes da nossa História
colectiva moderna. E, portanto, é garantido o divertimento
sob esse ponto de vista: o inesperado da quantidade de situações
que esta História Fantástica de António
Portugal nos propõe. Mas levantou-se-me uma dúvida,
uma eventual dúvida que se lhe tenha colocado a si, Artur
Portela. Como tratar a contemporaneidade? Porque uma coisa é olhar
para trás, apesar de não ser para o século
XVI, apesar de ser tudo passado no século XX: o início
do século, o regicídio, a Primeira República,
o Estado Novo ... Há tantos episódios dos quais
já vamos tendo um recuo, suficiente para podermos fazer
balanços (ainda que com o grau de subjectividade inevitável)
com alguma distância, o que nos permite nomeadamente ironizar,
etc. Mas quando faz esta evolução no seu livro
até aos dias de hoje, não teve dificuldade em avançar
para... ? Por exemplo, há um capítulo onde fala
claramente da situação da Justiça em Portugal
e de como, na sua leitura, ela aparece hoje em dia a exercer-se
de uma forma abusiva, ilegítima no limite. Não
receia que tenha aqui misturado... não é dois registos, é dois
pontos de vista, de alguma forma incompatíveis, um com
distância e outro em cima dos acontecimentos?
Bom, digamos que, se o livro fosse um ensaio de História,
isso criava esses problemas digamos técnicos. Mas, como é um
livro de invenção, chega-se no romance, e os leitores
chegarão, à actualidade, com a facilidade do fantástico.
E o desfile continua! Desde um chefe de Governo que confessa
que vai pela primeira vez ao teatro e não percebe nada
da peça, e a única coisa que lhe interessa é saber
se o pano de ferro é uma coisa e o pano de boca é outra
coisa, até um chefe de Governo, outro, que vai praticamente
ao mesmo teatro e que está muito preocupado se os actores
dialogam, se não dialogam, se dialogaram o suficiente.
E dali não saem, nem um nem outro: um porque é de
ferro, outro porque é a personificação do
diálogo...
Eu assumo o ónus. São, evidentemente, Cavaco Silva
e António Guterres. Eu assumo o ónus que o Artur
Portela visivelmente não quis assumir.
Assumo a ficção. O livro acaba com um País
praticamente todo em prisão preventiva: as cidades todas
percorridas por carros celulares, toda a gente a ser presa preventivamente,
praticamente não há ninguém fora da prisão.
E, na ponta finalíssima do livro, o António Portugal,
que começou a ir a um hospital para dialogar com uma tia-avó louca,
dialoga ele, já muito idoso, deitado na sua cama de hospital,
com um sobrinho-neto informático, que, à pergunta
do tio ‘Então como é que te chamas?’ responde ‘Pórtchugól’.
Já não sabem, os Portugueses , dizer o seu próprio
nome, e o nome do seu País, a não ser num inglês
informatizado, globalizado, mundializado.
Artur Portela, eu agradeço-lhe imenso esta conversa
e espero que quem nos ouviu, estou segura que sim, tenha ficado
com desejos de ler História Fantástica de António
Portugal o último romance de Artur Portela, uma edição
da D. Quixote.
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