entrevistas
multimédia
entrevistas
multimédia
entrevistas
multimédia



"História Fantástica de António Portugal"

Entrevistas:

  - "Retratar e analisar a história de Portugal"- (Lusa)
  - “Uma peregrinação portuguesa” - Entrevista de Manuel da Silva Ramos - (Jornal do Fundão)

  - “ Será este livro, não uma banda desenhada, mas uma banda escrita?” - Entrevista de Paula Moura Pinheiro - (Programa “Três à Quarta”/Rádio Paris-Lisboa- RPL/25.02.04)
  - No final o país surge (...) em prisão preventiva - Entrevista de Rui Azeredo”/ “O Comércio do Porto”/ 3 de Março de 2004.
  - "A ironia é uma forma de amor"- Entrevista de Teresa Horta / ”Diário de Notícias”/ 7 de Março de 2004
  - "Uma das formas (...) de enfrentar a História(...)"- Entrevista de Nuno F. Santos / ”O Primeiro de Janeiro”/ Suplemento “Das Artes, das Letras”/ 8 de Março de 2004.
  -“Transformar portuguesmente Portugal” /Entrevista de Carlos Pinto Coelho/ Edição nº 267 do “Agora Acontece”, emissão radiofónica entre 22 a 28 de Março de 2004
  -“É uma alegoria de Portugal” /Entrevista de Francisco José Viegas / Antena 1 / Programa “Escrita em dia” / 23 de Março de 2004.
  -“A cultura portuguesa pode hipotecar-se na globalização” / Entrevista de Noémia Malva Novais/ “Diário de Coimbra” / secção “Temas de Domingo” / 28 de Março de 2004
  -“Aproximações de uma maneira de ser português” Entrevista de Carlos Câmara Leme /PÚBLICO / MIL FOLHAS/ 8 de Maio de 2004

 

ARTUR PORTELA:

“Será este livro, não uma banda desenhada,
mas uma banda escrita?”



Entrevista de Paula Moura Pinheiro.
Apontamentos, a partir de alguns fragmentos da gravação.

PAULA MOURA PINHEIRO – ...O “Três à Quarta” de hoje recebe Artur Portela e o seu último livro, História Fantástica de António Portugal. Com edição da D. Quixote, História Fantástica de António Portugal é um romance para iniciados, cuja ironia opera no pressuposto de que o leitor tem um conhecimento seguro da História de Portugal dos últimos 100 anos, literalmente do regicídio e instauração da República à actualidade. Ora a travessia do século XX português é feita, neste romance, pela mão de uma figura singular, António Portugal, um matulão de olhos verdes sanguíneos, um republicano maçon, filho, neto e bisneto, até há dez, onze gerações de insurrectos e corajosos Portugais como ele. Como é que apresentaria, sem ser nestas palavras que eu acabei de usar, evidentemente tiradas do seu romance , o seu António Portugal a quem ainda não leu o livro?

ARTUR PORTELA – (...) Deixe-me colocar uma dúvida antes. Acho que, embora os iniciados tenham, porventura, determinada leitura facilitada, os não iniciados não estão bloqueados. Na medida em que o livro é fantástico, reinventa a História, conta contos. Pelo que pode haver uma abordagem deste livro pela banda da fantasia, do fantástico, da ficção...

...Mas tem de concordar que, quem tiver um conhecimento da História de Portugal dos últimos cem anos tem um nível de leitura deste livro com outro tipo de prazer, porque é evidente que o romance está permanentemente a operar sobre private jokes, segundas leituras. Dá outros nomes a figuras que todos conhecemos, ou, se não conhecemos, são, pelo menos, figuras do nosso imaginário colectivo, da nossa História e percurso colectivo. Um ligeiríssimo exemplo, já para o fim do livro (porque o livro segue uma ordem cronológica): o general Spaniel é evidentemente o general Spínola. É absolutamente evidente, mas eu pergunto-me se um jovem de vinte e tal anos (não tem de ser a sua preocupação, obviamente), que hoje em dia já dificilmente sabe com rigor o que foi o 25 de Abril, poderá fazer esta leitura...

Eu diria que se esse jovem tem essa dificuldade, o livro pode ser que ajude a elucidá-lo, brincando, ironizando, pedagogizando. Sendo sempre possível a tal leitura pela banda da fantasia. Porque há aí História, mas é uma História inventada, reinventada, fantasiada. Tudo é parabólico, tudo é metafórico, tudo é fabuloso. E, nesse sentido, uma leitura estrangeira – mesmo portuguesa –, estrangeira à História, estrangeira à política, pode entrar nesse livro sem preocupação. Dou-lhe um exemplo: além da apresentação em Lisboa, feita pelo Dr. Mário Soares, houve uma apresentação no Porto feita pelo Professor Alexandre Quintanilha. O Professor Alexandre Quintanilha é português, mas viveu praticamente sempre no estrangeiro... No início em Moçambique, depois passou para a África do Sul e depois foi para os Estados Unidos. Ora ele teve uma leitura deste livro digamos que completamente inocente. Inocente no sentido profundo da palavra, no sentido essencial da palavra. Ele fez uma leitura quase mágica da História Fantástica de António Portugal. Porque ele não reconhecia grande parte das figuras. E, no entanto, leu-o, dizia ele, com encanto, com sabor.

Mas, ó Artur Portela, longe de mim sugerir (senão não estaríamos aqui a conversar) que não é susceptível de ser feito. Admito perfeitamente. O meu caso é diferente, porque eu, ao contrário do professor Quintanilha, sempre cá vivi. Portanto, parte destas figuras que me chegam pela mão deste António Portugal e das suas desventuras, no nosso Portugal, vou-as reconhecendo. (...) Mas é, de facto, um romance que, se encontrar do lado de lá um iniciado, propicia níveis, se calhar, de divertissement, mais sofisticados, pelos vários níveis de leitura que propõe e pela ironia subjacente a muitos dos nomes até. É, sem dúvida, um livro com um enorme sentido de humor e que alterna o registo da ironia aguda com alguma.... não vou dizer dimensão trágica, porque eu acho que não chega aqui nunca a assumir a dimensão da tragédia, mas com episódios um bocadinho mais dramáticos. E eu gostava que nos contasse aqui, para início de mergulho neste História Fantástica de António Portugal, qual era o seu projecto de início. Era, de facto, fazer um livro de balanço, um romance de balanço do século XX português, ou - eu sei que a sua formação de base é História - isso acabou por emergir naturalmente quando começou a desenhar a figura do António Portugal? Qual foi o processo de concepção deste romance?

O objectivo primeiro não foi fazer um balanço. Foi contar, de uma forma divertida, digamos auto-divertida - que suscitasse o divertimento tão inteligente quanto possível, tão lúcido, tão crítico, tão auto-crítico quanto possível - a História deste século. História que em parte é a minha, embora eu tenha nascido já perto do meio do século. Mas, até por razões de ordem cultural, familiar, de certa forma convivi – através da memória e da tradição dos meus pais, dos livros, dos estudos, etc.— com boa parte do que o livro reinventa. Tal como vivi boa parte do que o livro acaba por entre paródica e dramaticamente narrar quase a partir do início da sua segunda metade. Pedia-me há pouco que falasse do António Portugal. Ora o António Portugal, de olhos verde-rubros (alusão óbvia às cores-pátrias), é um homem que, curiosamente, namora com uma mulher que talvez tenha sido modelo do busto da República...

A Genciana...

A Genciana. Nome que me é muito caro, porque, com ele, procuro também homenagear um escritor de quem fui amigo e cuja morte me marcou profundamente, o José Rodrigues Miguéis, o autor de Saudades para Dona Genciana, das novelas mais belas, mais saborosas, evocadora da Lisboa mais poética. Pois este António Portugal – e o livro inicia-se assim – assiste à morte do dr. Miguel, o dr. Miguel Bombarda, alienista e chefe civil da Revolução republicana, abatido por um tiro de um tenente louco. O louco ainda dispara mais um tiro que atinge a tela do marechal Saldanha, o fundador do Hospital Miguel Bombarda. Eles ainda lá têm a tela com o buraco do tiro «religiosamente» guardada, evocando essa situação. Depois, há um flashback ao regicídio...

Em que o António Portugal intervém... Desculpe interrompê-lo, mas se me permite aqui uma ponte com uma outra arte dilecta, seguramente também de quem me está a ouvir, que é o cinema. Eu estava a ler o seu livro, divertidíssima, e, a certa altura, começou a ocorrer-me o mecanismo narrativo que me remeteu para filmes como o Zelig do Woody Allen ou mesmo o Forest Gump, onde o protagonista, uma figura ficcionada, aparece metido nos grandes momentos históricos, ao lado das figuras históricas, numa espécie de insert por artifício narrativo. De facto, é isso que o Artur Portela consegue fazer de uma forma muito divertida: colocar este António Portugal cirurgicamente nos momentos mais decisivos, ou mais exemplares, ou mais paradigmáticos do percurso de Portugal dos últimos 100 anos. É muito divertido ver o seu António Portugal, que passa a ser nosso quando somos leitores do seu romance, aparece no regicídio... Aparece sistematicamente. Até no 25 de Abril. Sempre estrategicamente colocado ao lado dos principais actores do nosso percurso colectivo.

Eu acho que essa sua observação é muito justa. Conheço os filmes, gosto muito dos filmes, e honra-me o paralelo. O método é relativamente semelhante, essa intromissão de uma figura ficcionada em situações reais. Quer o Zelig quer o Forest Gump me parecem bons exemplos. Aliás, não é apenas do cinema que este História Fantástica é beneficiária, tem também relações com a própria banda desenhada. Tanto, de tal maneira, que às vezes interrogo-me sobre se este livro não será , sem ter disso nenhuma vergonha, não uma banda desenhada, mas uma banda escrita. Pela a estrutura, a dinâmica, os quadros, a cinematografia... Na minha perspectiva, um romance não tem de ser uma coisa estanque, é uma coisa multidisciplinar, interdisciplinar. E, no romance, no romance em geral, podem convergir, em alguns casos de uma forma brilhante (não estou a falar do meu livro, estou a falar de outros autores portugueses e estrangeiros) o cinema, a banda desenhada, a música, a pintura, o ballet... A própria televisão, a própria rádio. E porque não?, tudo isso aflui e enriquece e abre o romance... Sacode poeira do romance tradicional. Mesmo em relação ao romance histórico: a História Fantástica de António Portugal não é um romance histórico à Herculano, um romance grave, onde se ouve chiar a pena de pato, a reconstituição do sabor da época. Pretende ser um livro que brinca, inventa, relaciona, interroga, auto-interroga-se. Procurando comunicar o prazer que deu a quem o escreveu, ao ser escrito, procura comunicar esse prazer a quem o possa ler. No seu caso, de uma forma, além de inteligente, muito generosa...

O seu António Portugal foi, com certeza construído para este romance com base (aliás, já aludiu a isso aqui) na sua experiência pessoal, em pessoas que conheceu, até de casa... Cruzou-se com pessoas com traços que depois vieram contribuir para a construção deste António Portugal. E eu gostava de o ouvir (...) mais sobre isso. E volto a recordar a apresentação que fiz, que é uma apresentação muito concreta, baseada em descrições objectivas que nos dá no livro, como seja o facto de este António Portugal ter uns olhos verdes sanguíneos – obviamente uma alusão à bandeira – (...) um republicano maçon, filho, neto e bisneto, até há dez, onze gerações de insurrectos. Corajosos... e amigos da liberdade, que é basicamente a ideia que passa transversalmente em todo o livro. O que é que acrescentaria mais para quem não leu o livro, e a quem estamos a convidar a lê-lo?

(...) É, de facto, simultaneamente um livro fantástico e um livro vivido por quem o escreveu. Olhe, por exemplo, o meu pai surge nesse livro. Embora, evidentemente reinventado e ficcionado. Surge duas ou três vezes. Outro homem que aparece é o Pai Lopes, o professor que tenta republicanizar o general (que é o Gomes da Costa). O Pai Lopes que foi um professor do liceu que eu frequentei, o Passos Manuel, e foi uma das minhas primeiras entrevistas jornalísticas. Eu ainda era adolescente e o meu pai, para eu me ensaiar, para me explicar designadamente o mecanismo na entrevista, pôs-me a entrevistar o Pai Lopes. Lembro-me perfeitamente: era um homem entroncado, com uns bigodes explosivos, veemente, republicano, amigo da Revolução Francesa, etc.. Entrevistei-o durante horas e horas, encantado a ouvi-lo e lembro-me ainda hoje de ele sair para o quintal da sua casa modesta, creio que na linha do Estoril, e ir abraçar-se a uma árvore, símbolo da Natureza, símbolo da própria liberdade da Natureza! Porque a alegoria da Liberdade é permanente nele. Lembro-me também do general Spínola, a quem o meu pai e eu, uma noite, fomos visitar. A escada estava cheia de agentes da PIDE, havia agentes da PIDE a vigiarem a casa no prédio do outro lado da rua e lembro-me da conversa conspirativa, densa, dramática que tivemos, o general. o meu pai e eu. Sim, grande parte deste livro está, digamos, vivida, ou na memória familiar, ou na memória mais directa. Designadamente, aparece aí o Sidónio, o Sidónio Pais...

...O Presidente-Rei...

...O Presidente-Rei. Conservador, autoritário, ditatorial, mas varonil e corajoso. E lembro-me da minha mãe contar que algumas senhoras de Lisboa, mais conservadoras, quando passava o Sidónio Pais, iam para a varanda lançar papelinhos e gritar ‘ ‘SI-SI’ ‘DÓ-DÓ’ ‘NI-NI’ ‘Ó-Ó’, que era uma forma de galanteria, de elogiar o homem varonil que ali passava. A propósito da coragem, eu direi que um ou outro amigo meu se interrogaram sobre a forma, digamos, complacente como o livro trata, por vezes, figuras mais negativas numa perspectiva de esquerda, o Gomes da Costa e o Sidónio. Ora eu admito que sim. Do ponto de vista ideológico, cultural, são personagens que pertencem a uma banda ideológica que não é a minha opção essencial. Mas tenho de reconhecer que
designadamente essas duas figuras tinham a coragem, coragem física, uma a coragem muito portuguesa. E isso suscita alguma admiração ao livro e por parte do livro. Não é admiração incondicional, a ponto de não os situar histórica, cultural e ideologicamente. Por exemplo, quando o Gomes da Costa, na guerra de 14-18, no front, atravessa as trincheiras... Ele era um homem gigantesco, as trincheiras, em alguns momentos, não eram tão altas como ele. Do lado de lá, os alemães disparavam, o general, corajosamente, não se vergava. Então, o António Portugal, nesta circunstância, (tal como o Zellig ou como o Forest Gump) era um gaúcho no exército português, gritava-lhe ‘General, agache-se, meu general!’. E aí, permita-me a expressão, o general respondia ‘Um general nunca se agacha, seu cabrão!’. Esta frase, com a sua violência, uma violência natural, militarona, esta coragem, são coisas que acho profundamente portuguesas.(...) Há pouco falava da tal família... os Portugal. Ora esses Portugal são também esta coragem, este amor à liberdade, mesmo que a liberdade fosse por vezes conservadora . Esse amor à liberdade portuguesa. Porventura será também profundamente espanhola, profundamente italiana, mas na medida em que é profundamente portuguesa agrada-me. Pertence ao livro, quero que esteja no livro. E este retrato que eu aqui invento, esta História que aqui vou contando, estes episódios, estes lances que eu aqui vou fazendo desfilar não são, claro, apenas do século XX. Vêm do fundo da História de Portugal. Estou a falar dos Portugueses e não apenas dos maçons ou dos republicanos...

É um ponto de vista generoso...

É justo. Temos de admitir. Nós somos tudo.

Exacto. Somos tudo e em qualquer caso encontram-se sempre bases históricas para sustentar. Estava a ouvi-lo com interesse e atenção e, apesar das divergências ideológicas que teria de ter com o presidente-rei, o Sidónio Pais, para não falar aqui de outros, acaba por ter um reconhecimento e apreço pela sua coragem pessoal e pela sua estatura viril, varonil. E isso é interessante, porque me remete para uma pergunta ... Gostava de o ouvir falar sobre isto: há aqui também, de alguma forma – eu não diria inesperadamente –, alguma complacência com a Igreja... Por exemplo, a Genciana tem (aliás uma das partes que eu mais aprecio neste romance) um sonho, em simultâneo com um sonho do namorado, o António Portugal. Enquanto ele sonha com a República e a revolução, a Genciana sonha o sonho da Nossa Senhora de Fátima, que aliás é uma velha blague entre republicanos, laicos, socialistas. Lembro-me bem do Gustavo Soromenho, um velho republicano que nos deixou há pouco tempo, falar com imenso humor do Milagre da Nossa Senhora de Fátima, com a maior ironia, como é evidente. Aqui a nossa Genciana sonha o Milagre da Nossa Senhora de Fátima como se fosse ela a Nossa Senhora de Fátima! Há aqui uma assumpção na primeira pessoa do singular como se fosse a própria Nossa Senhora de Fátima a falar. E o que é curioso é que quer a Genciana quer a mãe de António... -Em relação à mãe do António Portugal não aparece nenhuma alusão directa a alguma ligação que ela tivesse à Igreja, mas é uma figura intuitiva, evidentemente menos letrada do que o pai... Isto é uma descrição verosímil da realidade daquele tempo, em que as mulheres podiam estar ligadas a revolucionários, insurrectos, laicos, mas não deixavam de ser devotas. E houve, de alguma forma, sempre um casamento, literal e metafórico, em Portugal, entre revolucionários e Igreja, ao contrário do que se passou noutros contextos. Recordo uma coisa que penso que toda a gente terá presente: o próprio PCP, mesmo nos períodos mais agudos, não se atreveu nunca a atacar de frente o Milagre da Nossa Senhora de Fátima... Talvez, só na Primeira República, a figura do mata frades tenha surgido com um carácter mais acintoso. Porque rapidamente se chegou aqui a um ponto de equilíbrio bizarro entre ideias aparentemente contraditórias, e isso é bem dado aqui no livro, de facto, entre este casal, a Genciana e o António...

Este livro procura compreender, sem necessariamente simpatizar. Como que empatiza com essa atitude e essa opção. Era, aliás, uma coisa muito séria e multitudinária. Quer dizer, por irónica que seja a atitude deste livro em relação ao fenómeno, esse é um fenómeno denso de pessoas, cheio de humanidade, cheio de crença, e isso suscita compreensão e respeito. Eu procuro evitar as dicotomias, procuro articular e dialogar. O sonho da Nossa Senhora de Fátima não é um sonho contra a Nossa Senhora de Fátima. Não quer dizer que seja uma opção a favor, mas é um sonho de compreensão e de reconhecimentos da realidade e da importância desse fenómeno. Ajudando a caracterizar um tempo e uma personagem. Em simultâneo, como disse, há o sonho republicano em que Deus dialoga com um símbolo da Maçonaria, o triângulo com o olho no centro. Esses dois sonhos depois fundem-se, depois articulam-se e vão de mãos dadas por ali adiante como a própria relação afectiva, a própria relação amorosa. Além disso, se me permite, em relação à mulher em geral, no livro. O dr. Mário Soares, na sua apresentação, teve ocasião de observar que neste livro há uma atitude romântica. A virilidade é ou acaba por ser sempre voltada para a relação com a mulher. É-se viril, varonil, tão mais quanto maior for a abertura ao amor...O protagonista deste livro é um António, que muito ama...

(...) Temos depois a Abília, que é, evidentemente, a Amália Rodrigues, que é outro caso ... Foi assim que eu li, não sei se abusivamente, mas parece-me um bocadinho impossível não ver na Abília um caso . Posterior, claro, ao caso da Genciana, que acaba por ser morta por uma bala perdida, a inocente Genciana...

Simbolicamente, porventura, a Abília será o que os leitores quiserem. Não é propriamente um retrato – e eu não estou a recuar com receio de ser processado. Aliás este é um dos pontos do final do livro, um País processado, um País em prisão preventiva. Um livro que começa no manicómio e acaba no manicómio, que começa com o António Portugal jovem e acaba com o António Portugal a dialogar com o sobrinho-neto.

Mas a Abília...?

A Abília é o Fado! Um dos três efes. E aparecem no livro os três efes. Pois bem, a Abília, com que o António Portugal tem uma relação e com quem ele, à desgarrada – e esta é uma cena do romance - canta fados. Ela canta um, ele canta outro , os fados fundem-se à medida que eles se vão despindo, eles despem-se mutuamente e acabam na cama envolvidos , ainda a cantar o fado. E depois faz-se o silêncio sobre o acto do amor...

Portanto, temos os três efes: Fado, Fátima e Futebol?

É essa a intenção. Há um episódio em que o António Portugal, mais uma vez zelligianamente (para citar o seu Zellig), para atacar no simbólico o oliveirismo, que é, neste jogo do fantástico, o salazarismo, vai assaltar a sede de um grande clube de futebol (não se sabe bem qual dos clubes será, embora se possa eventualmente, reconhecer qual ) e vai assaltar o clube para roubar as taças.

... Aliás, o nosso António Portugal passa praticamente todo o livro numa fúria sabotadora, a tentar sabotar imensas coisas...

A tentar, incansavelmente... Pretende lançar fogo à Exposição do Mundo Português, pretende roubar as taças a esse grande clube de futebol para, de repente, criar um grande escândalo e atingir assim, no cerne simbólico, o oliveirismo, pretende...

...Está no assalto ao “Santa Maria”, que aqui não aparece com esse nome...

Não aparece como barco, aparece como um zeppelin! Há um capitão Gavião que, com o António Portugal, assalta o zeppelin, de avioneta (quase do tipo que está na capa do livro). Apoderam-se do zeppelin e o dr. Oliveira fica perfeitamente amargurado e desprestigiado internacionalmente. Como é que ele reage? Vai ao terraço do seu forte e interpela Deus: ‘Eu que te dei um País, é assim que me respondes?! Não proteges a minha fama, deixas que estes assaltantes me façam isto? E zanga-se com Deus. Ora há uma criada que assiste, oculta, a isto, e percebe que o dr. Oliveira está zangado com Deus. E, entre Deus e o dr. Oliveira, a criada opta pelo dr. Oliveira...Outra tentativa de sabotagem é quando o cardeal...

Desculpe interrompê-lo, mas... - o que aliás sustenta aquela minha afirmação de há pouco - há, no seu livro, uma espécie de tolerância, simpatia, quase uma relação de bonomia com a Igreja. Porque o próprio cardeal, que é de facto sabotado – e que não chega a Papa para que o Salazar não tenha um Papa no bolso –, estende a mão, literalmente, ao nosso António Portugal quando ele está em apuros de fora do comboio. Aliás é uma das cenas mais divertidas do livro...

E salva-o.

E salva-o fisicamente. Portanto há aqui uma espécie de simpatia, que eu acho simpática, porque é humano. Não há radicalismos de leituras e de exclusões, de ‘Estes sim ou outros não’. Há uma espécie de generosidade que perpassa por isto tudo, por todas estas personagens, de uma maneira ou de outra, e as resgata de uma coisa mais dura e mais definitiva em termos de leitura.

Bem, o Dr. Oliveira não é totalmente resgatado, mas ainda assim... Em relação à Igreja, aí porventura a minha formação de História, o meu algum conhecimento da História da Igreja levam-me a admitir o papel importante, designadamente no plano cultural, que a Igreja desempenhou ao longo dos séculos. Apesar de, em muitos momentos, e ela própria o reconhece hoje, ter tido um papel negativo, pelo qual inclusivamente teve de pedir desculpa. Em relação aos judeus, em relação a diversas posições. Esse cardeal de que talvez falemos era, por exemplo, particularmente crítico em relação ao nazismo, que considerava um paganismo feroz.

Aliás, é também por aí que o Dr. Oliveira também não simpatizava muito...

Com o nazismo e com o Hitler, não, o que aliás, aparece também neste livro...

Aparece. (...) Aliás nunca é demais recordar que o Salazar era contemporâneo de outros ditadores, como o Franco, o Mussolini, o Hitler e o Estaline. Houve um período em que estiveram todos no exercício do poder ao mesmo tempo. Mas o Estado Novo em Portugal revestia-se de características singulares, exclusivas. E, de alguma forma (...) Salazar resistiu sempre a colar-se fosse a que regime destes fosse, o que é inesperado. Há no seu livro uma passagem interessante em que o António Cobre, que é, evidentemente, o António Ferro (desculpe lá a assumpção total de... mas de facto eu acho que é preciso ter estado muito tempo no estrangeiro e estar muito desatento para não fazer essa leitura!), aparece aqui em relação com o dr. Oliveira Salazar, na série das suas célebres entrevistas a ditadores (aqui entrevista também Mussolini). Ora torna-se muito evidente esta resistência de Salazar a uma colagem, concretamente aos Camisas Negras de Mussolini. Como depois também guardou uma certa reserva de distância com o próprio Franco (aqui também por razões de outra natureza, para resistir às tentações ibéricas de Franco). (...) Há depois aqui uma passagem muito clara sobre isso, em que se descreve, de uma forma quase sintética, esta resistência geral do Salazar. A páginas cento e onze diz o seguinte: (...) “Sendo que o dr. Oliveira, Republicanos não, por via de Afonso Henriques e do Infante, dos quais, bicentenariamente, se iria, em estafe, reivindicar. Democratas, nada, socialistas, menos, comunistas, coisíssima nenhuma, anarquistas, só safanões. Indiferentemente, a tempo e a destempo. Isto enquanto o reviralho revirava e espanholizava como queria e podia, embora sem consequências.” Isto dá bem conta do que o homem escovava: à esquerda, à direita, para cima e para baixo, ‘isto não, aquilo não... E eu gostava de o ouvir sobre isso.

Ele foi escovando, mais ou menos, à medida das suas necessidades e das circunstâncias. No início o Dr. Oliveira teve uma aproximação relativamente ao fascismo. O fascismo italiano, no início, teve um certo élan cultural, uma dinâmica cultural que o nazismo nunca viria a ter. Salazar e o cardeal Cerejeira eram particularmente críticos em relação ao nazismo. Em relação ao Mussolini, inicialmente houve uma aproximação por parte do Salazar. Até à Segunda Guerra Mundial, Salazar teve de potenciar, naturalmente, da aliança da Luso-Britânica para se distanciar e para se proteger também, de uma Espanha que sabia-se lá que apoio poderia vir a ter do nazismo e do fascismo! Pois não teve tanto quanto isso, mas, ainda assim, Portugal em parte beneficiou desse distanciamento, dessa frieza...

Uma astúcia, não é?

Uma astúcia. Mas inimigo do socialismo, o Dr. Oliveira, sem dúvida, inimigo do comunismo, inimigo da democracia, inimigo da democracia representativa e do parlamentarismo. Era inimigo de muitas coisas e defensor de um Portugal, digamos, fechado, rural, pequenino, Portugal dos Pequeninos, não é... Digamos que, paradoxalmente, o apogeu está na Exposição do Mundo Português! Mas em estafe, material tão frágil, tão provisório. Foi uma espécie de auto-monumento a Portugal e a si próprio, ao próprio salazarismo. Ora este livro pretende caracterizar, sem algumas dicotomias às vezes ...

Simplistas...

Simplistas... fascismo, democracia, socialismo, comunismo, etc.. É tudo mais complexo, mais dialéctico, mais dinâmico. Quarenta anos! É muito tempo...

Aliás a própria Primeira República... Já aqui aludimos à figura do Sidónio Pais, que aparece aludido como o presidente-rei... De alguma forma, este livro começa com o regicídio. É a segunda cena, a primeira é a morte de Miguel Bombarda...

É um flashback.

É um flashback, exactamente. De alguma forma começa com um desencanto (...) na Primeira República, na descrição da Primeira República. Como há uma espécie de tentação, perigosíssima – a cada rei tende a substituir-se outro rei. Portanto, há uma espécie de reconhecimento que deriva de uma lucidez, penso eu, da condição humana e das dificuldades que há em suster um regime, de facto, de liberdade e de democracia. Porque nós assistimos a isso na Primeira República...

Esse jogo entre a alegria a melancolia, entre o riso e a lágrima, muito português, é uma ideia que esse livro procura transmitir. Designadamente, no regicídio. A dor da rainha...

É inesperado esse ponto de vista...

...A dor da rainha, a bater com ramos de flores em quem lhe estava a matar o filho. É uma dor profundamente respeitável. Mas, ao mesmo tempo, também compreendo e simpatizo com os republicanos, com os anarquistas, com os próprios regicidas, que têm, também, a sua motivação, a sua generosidade e a sua coragem. Valorizo a capacidade de compreender uma e outra coisa, o que há de bom, de humano, corajoso, num e noutro lado... Eu acho que já passou o tempo suficiente e acho que importa compreender. É possível gostar de vários lados. Não sei se isso não será pelo menos uma obrigação da lucidez.

É redentor. É uma forma, de facto, de conseguirmos apropriar-nos, sem trauma, de uma história colectiva que é a nossa e conseguir, de facto, integrá-la de uma forma não traumática. (...) Conseguir integrá-la de uma forma produtiva. Somos isto tudo...

Somos isto tudo...

(...) Já aludiu en passant à Primeira Guerra Mundial, o nosso António Portugal, inevitavelmente, por lá passou com o general. Mas não só: o António Portugal acaba, a certa altura, a seguir ao romance com a Abília, por sair para Angola .

E assiste a um massacre.

Exactamente. E eu gostava de o ouvir sobre essa sucessão de massacres a que ele vai assistir, porque não é só em Angola.

Pois, é que os nossos ‘brandos costumes’, como se sabe (já foi dito e redito), são por vezes muito violentos. No século XIX, foram violentíssimos nas guerras entre miguelistas e liberais. No nosso próprio século XX, veja-se a Leva da Morte, que o livro aí evoca, com a morte de Machado dos Santos, herói do 5 de Outubro, mortos os chefes civis e militares da revolução. Disse há pouco que o livro não é trágico, mas tem momentos dramáticos. A cena que se assemelha à Leva da Morte é um desses momentos. Outra matança, à qual o livro, digamos, não assiste, mas que se percebe que vai acontecer, é em Badajoz, depois de a polícia política e a guarda portuguesas entregarem aos chamados “nacionais” os refugiados republicanos, entendidos pelos franquistas como rojos, vermelhos, comunistas. Para eles, todos eram comunistas, e não eram, era falso. O António Portugal está na praça de touros, ainda consegue sair a tempo de não ser fuzilado. Para trás ficam todos aqueles homens que serão chacinados na praça de touros como animais. Depois, em Angola há um massacre que, de alguma forma, evoca outros massacres. Para isso, não há necessariamente perdão, há o respeito pelo drama, pela tragédia...

E sobretudo para não branquear o que aconteceu.

Aconteceu e é de assumir.

E é interessante, porque, de facto, no seu livro, há um périplo de horror. De resto, um horror não dado com grande aproximação, mas insinuado, no sentido em que não se descreve exaustivamente as coisas a que António assiste. Como acaba de dizer o Artur Portela, o seu personagem vai sendo obrigado a assistir, ou saindo, na iminência de ser também uma vítima – primeiro em Badajoz, depois também... em Angola. (...) Depois, escapa-se para o Brasil, mas engana-se e vai parar às Caraíbas onde acaba por...

... Onde acaba por conhecer um capitão, que no livro aparece com o nome de Gavião, e que parece assim um Gary Cooper de sombrero, com ar melancólico, com olhar longo, um olhar africano, de grandes espaços, e combinam, o golpe do zeppelin, chamado “Padre Bartolomeu”, símbolo do oliveirismo.(...). Então há esse assalto, eles vêm em avionetas assim semi-loucas, tipo “Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras”, aproximam-se do zeppelin, lançam-se sobre ele com cordas, como se fosse uma abordagem no mar, apoderam-se da barquinha. E, perante o Mundo, o oliveirismo, o salazarismo, é desfeiteado! O que leva à indignação do Dr. Oliveira. É esse o episódio de mais uma semi-vitória, semi-derrota. Porque aqui não há nem grandes vitórias nem grandes derrotas, o que é também muito português. Há porventura neste livro – com todo o devido respeito, e sem me querer equiparar com quem vou citar– uma trajectória que talvez faça lembrar uma figura grande da literatura portuguesa e da aventura portuguesa: Fernão Mendes Pinto. Semi-bandoleiro, semi-herói, bom, mau, cheio de coragem, cheio de amargura, deprimido, exaltado, ciclotímico e por aí fora...

(...) Bem, os episódios, como quem, nos está a ouvir já foi compreendendo por esta altura, sucedem-se, as aventuras também, o nosso António Portugal emergindo sempre no meio das figuras mais importantes da nossa História colectiva moderna. E, portanto, é garantido o divertimento sob esse ponto de vista: o inesperado da quantidade de situações que esta História Fantástica de António Portugal nos propõe. Mas levantou-se-me uma dúvida, uma eventual dúvida que se lhe tenha colocado a si, Artur Portela. Como tratar a contemporaneidade? Porque uma coisa é olhar para trás, apesar de não ser para o século XVI, apesar de ser tudo passado no século XX: o início do século, o regicídio, a Primeira República, o Estado Novo ... Há tantos episódios dos quais já vamos tendo um recuo, suficiente para podermos fazer balanços (ainda que com o grau de subjectividade inevitável) com alguma distância, o que nos permite nomeadamente ironizar, etc. Mas quando faz esta evolução no seu livro até aos dias de hoje, não teve dificuldade em avançar para... ? Por exemplo, há um capítulo onde fala claramente da situação da Justiça em Portugal e de como, na sua leitura, ela aparece hoje em dia a exercer-se de uma forma abusiva, ilegítima no limite. Não receia que tenha aqui misturado... não é dois registos, é dois pontos de vista, de alguma forma incompatíveis, um com distância e outro em cima dos acontecimentos?

Bom, digamos que, se o livro fosse um ensaio de História, isso criava esses problemas digamos técnicos. Mas, como é um livro de invenção, chega-se no romance, e os leitores chegarão, à actualidade, com a facilidade do fantástico. E o desfile continua! Desde um chefe de Governo que confessa que vai pela primeira vez ao teatro e não percebe nada da peça, e a única coisa que lhe interessa é saber se o pano de ferro é uma coisa e o pano de boca é outra coisa, até um chefe de Governo, outro, que vai praticamente ao mesmo teatro e que está muito preocupado se os actores dialogam, se não dialogam, se dialogaram o suficiente. E dali não saem, nem um nem outro: um porque é de ferro, outro porque é a personificação do diálogo...

Eu assumo o ónus. São, evidentemente, Cavaco Silva e António Guterres. Eu assumo o ónus que o Artur Portela visivelmente não quis assumir.

Assumo a ficção. O livro acaba com um País praticamente todo em prisão preventiva: as cidades todas percorridas por carros celulares, toda a gente a ser presa preventivamente, praticamente não há ninguém fora da prisão. E, na ponta finalíssima do livro, o António Portugal, que começou a ir a um hospital para dialogar com uma tia-avó louca, dialoga ele, já muito idoso, deitado na sua cama de hospital, com um sobrinho-neto informático, que, à pergunta do tio ‘Então como é que te chamas?’ responde ‘Pórtchugól’. Já não sabem, os Portugueses , dizer o seu próprio nome, e o nome do seu País, a não ser num inglês informatizado, globalizado, mundializado.

Artur Portela, eu agradeço-lhe imenso esta conversa e espero que quem nos ouviu, estou segura que sim, tenha ficado com desejos de ler História Fantástica de António Portugal o último romance de Artur Portela, uma edição da D. Quixote.