É o retrato de um País contemporâneo numa História com estórias fantásticas. Artur Portela escolheu António Portugal para ser a presença dos factos reinventados de um país à beira-mar plantado entre assaltos a zepellins, com ditadores e insubmissos. Um herói ou anti-herói vai ao fim de tudo, com crítica e sem géneros específicos. Aliás, a haver um seria o fantástico. Veja-se o exemplo do título e da capa desta "História Fantástica de António Portugal". Artur Portela assume a crítica, enfrenta a parada e até fala de saídas de entidades na vida real.
Nuno F. Santos (texto)
Tiago André (fotos)
Alguma razão especial para que este livro seja dedicado ao António Lobo Antunes?
Em especial não. Simplesmente isso acontece porque admiro o Lobo Antunes como escritor nuclear da literatura contemporânea. É um escritor profundamente português. Ora bem, como este meu livro pretende ser português e contemporâneo, faço portanto uma homenagem muito sincera a quem conheço e admiro há longos anos.
Este seu livro que atravessa uma trama política?
Só atravessa trama política, cultural, moral e artística!
O começo da narrativa é por volta de 1910?
Começa nas vésperas da revolução do 5 de Outubro, exactamente com o assassínio de Miguel Bombarda por um louco no hospital com o mesmo o nome. Por isso o lançamento do livro em Lisboa foi feito no Hospital Miguel Bombarda. Voltando à narrativa: depois desse episódio há um flashback ao Regicídio, avança até à Primeira Guerra Mundial passando pelo Sidónio Pais e Sidonismo, recordando a Leva da morte, bem como o 28 de Maio e a chegada do Dr Oliveira. Depois tem aspectos muito curiosos, como a entrada do nosso António Portugal (o herói ou anti-herói deste livro) que pretende raptar o Salazar e sai de lá ministro nomeado. Entramos no 25 de Abril e posteriormente na própria realidade, chegando a um Portugal meio presídio de oito ou dez milhões de habitantes. Ou seja, é o fantástico. Tem um fundo histórico mas é reinventado com momentos mais risíveis e outros mais dramáticos, desde a morte de um homem na fronteira luso-espanhola contada por um anjo, e o risível com Gomes da Costa mais alto que a trincheira, respondendo a um "agache-se agache-se" com: "cala a boca seu cabrão um general nunca se agacha!"
É portanto um romance com fundo histórico com algumas datas mas sem imprecisões, mesmo sendo reinventado?
Tenho todo o respeito pelo romancista histórico. Posso citar os casos de Alexandre Herculano, Garrett, Arnaldo Gama, por aí fora. Mas devo alertar que esse é um romance histórico de um tipo diferente. "A História Fantástica de António Portugal" não é bem um romance com uma estrutura histórica rigorosíssima. Antes: é um livro de fundo histórico com uma reinvenção ora chorada ora brincada com amor e erotismo. É mais livre e solta, mas com o respeito pelos factos. Existe uma personagem que se chama A. dos Reis. No lançamento disse-se que era o Alves dos Reis. Eu não digo que não seja. Porém, o que está no livro é que existe um indivíduo que não é condenado, que faz uma inventona e que funda uma dinastia de engenheiros financeiros. Dei a volta à figura original para criticar esse tipo de sistema. Outro exemplo: decorre nesta aventura um assalto a uma nave no Oceano Atlântico. A História fala de um capitão chamado Galvão que assalta o navio Santa Maria, e o meu livro fala de um capitão Gavião que assalta um Zepellin português que tinha sido apresado pelos republicanos ao kaiser em Lisboa, e que é assaltado por avionetas do ar... está a ver a inventiva disto?
O António Portugal escreveu este livro... peço desculpa, o Artur Portela?
(risos) De certa maneira, de certa maneira. Não tenho olhos verde-rubros, não namorei a mulher que posou para o busto da República, não me chamo Portugal, mas identifico-me. Há figuras muito próximas de mim. Nomeadamente uma figura que corresponde ao meu próprio pai, que foi anarco-sindicalista numa altura e jornalista democrático noutra, tendo uma relação com o mundo teatral. Uma forma de homenagem terna.
Mas o António Portugal chega a mexer directamente no curso das coisas ou é apenas um observador que nos conta tudo?
Umas vezes mexe, outras não. Repare: chega a ministro. Tenta roubar as taças de um grande clube e não consegue. Tenta lançar fogo ao símbolo máximo do Oliveirismo em 1940 e não consegue. Contudo consegue outras coisas. Designadamente num episódio em que vai numa missão humanitário-militar para um país qualquer que talvez seja o Iraque, talvez seja o Afeganistão, talvez seja a ex-Jugoslávia, e enfrenta um tanque das forças de estabilização. Só que o tanque dispara sobre a população e ele, António Portugal, pega indignado na pistola que foi usada no Regicídio e dispara sobre o tanque.
Como poderá ser lido este livro. Será que ele pode ser uma forma de entrar na História de Portugal sem que haja um grande grau de exigência da parte do leitor. Falo da comunidade de leitores mais jovem?
A minha esperança é que este livro possa ser lido como fantasia, como conto sem necessidade de conhecer rigorosa e cientificamente os factos ou de os ter vivido. Poderá ser lido como aventura, como Banda Desenhada, como Banda Escrita, como descrição de um filme. Porque sobre a tese de que há o romance depois há o cinema e géneros maiores e menores, eu não estou nada de acordo. Há boa ou má Banda Desenhada, há bom ou mau Cinema. E nesta "História Fantástica", a começar pela belíssima capa do Henrique Cayatte, existe o Lucas da «Guerra das Estrelas», existe o Woody Allen em alguns diálogos, existe o Fernão Lopes nas movimentações do povo de Lisboa em revolta e existem corsários. A esperança é de que esses leitores se possam divertir lendo isto de uma forma fantástica, mas por essa fantasia chega-se até à História de Portugal.
Digamos que é um bom ponto de partida...
Gostava que fosse ponto de partida e um ponto de entrada desse tipo de público.
Tipo de público que pode ser a própria capa?
Exactamente, pode ser a própria capa...
[A capa tem um pássaro gigante que prende com o bico uma avioneta]
E que episódio é este, que aventura encontramos nesta capa?
É uma metáfora em que se mostra o fantástico combate do pássaro com um outro pássaro... só que metálico. Subtilmente pode ser referente a um outro episódio curioso, e já antigo. Alguém é enviado pelo Hitler a levar ao Dr. Oliveira uma mensagem. O enviado viaja num avião deste género. O Dr. Oliveira está a comer pastéis de bacalhau com um cardeal, vê a mensagem, discorda um pouco dela e manda para o Hitler os pastéis de bacalhau. Só que o enviado não os leva porque os come pelo caminho.
O Artur Portela, e agora sem o confundir com António Portugal, viveu o Salazarismo e recorda-o, até pela maneira como conta a narrativa e as pequenas estórias, como algo que realmente existiu mas sem grandes traumas... o que acho que alguns intelectuais dessa geração não conseguem esconder. Parece que o assunto se tornou tabu...
Isso é mau. É mau porque a vida não é apenas esse período mau. Aliás, uma das formas mais sérias de enfrentar a História e a natureza humana é brincar com ela. É ter a capacidade de saber rir. Não é desrespeitar... é amar. E esta ironia é também uma expressão de amor e afecto.
Faltam "António Portugal"?
Exactamente por faltarem é que eu pretendo fazer avançar este.
Há antónios Portugal que eu gostaria de libertar naqueles que o sendo julgam que o não são. Estão estagnados nesse medo de serem ridículos, estagnados na coragem de rir, estagnados no medo de enfrentar as convenções.
Tem consciência que este livro pode ser considerado uma dura crítica?
Aguento essa parada! Aguento esse risco.
Como acha que seria a vida do António Portugal se vivesse mais uns anos. Se avançasse ainda mais no futuro para contar as estórias da História?
Iria divertir-se imenso e iria continuar o seu combate. Provavelmente aconselharia o autor a sair da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Por quê?
Porque o próprio autor acredita na matriz que defende a entidade. Acredita no pluralismo, na independência perante o poder político, mas não deixa de ser auto-crítico, e é por isso muito provável que este livro seja já uma semi-saída da Alta Autoridade.
É o último livro que o autor escreve enquanto membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social?
Sem dúvida!
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