A História do século
XX português é contada e reinventada de uma forma
muito imaginativa e divertida pelo escritor Artur Portela na
obra "História Fantástica de António Portugal",
editada pelas Publicações Dom Quixote. O protagonista é,
ele próprio, o Portugal em que vivemos, mas em forma de
homem. Misturando ficção e realidade, Artur Portela,
com muita imaginação e ainda mais boa disposição, escreveu
um livro divertidíssimo sobre Portugal e os portugueses.
Mas, a brincar, acaba por levar a que se pense seriamente em
muito do que foi o nosso século XX. Em entrevista ao COMÉRCIO
DO PORTO Artur Portela falou do seu livro, de Portugal e de si.
O
COMÉRCIO DO PORTO:
Quem é António
Portugal?
ARTUR PORTELA: É uma figura de ficção,
mas tem olhos verde-rubros. Chama-se António, chama-se
Portugal. É de uma família chamada Portugal e ama
uma mulher chamada Genciana que, além de ter sido modelo
do pintor Columbano, porventura terá posado para o busto
da República. De tudo isto pode resultar que António
Portugal pretende simbolizar (pelo menos foi essa a interpretação
de Mário Soares) o próprio Portugal.
CP:
Mas
era essa a intenção?
AP: Ser eu a assumir
essa pretensão pode parecer um pouco pretensioso, mas
pode-se dizer que, se não era a minha intenção
de início, a personagem, por própria vontade, por
própria acção, assumiu essa simbologia. É ele
que quer ser isso.
CP: Logo pelo nome pode chegar-se
a essa conclusão?
AP: Logo pelo nome, talvez
até de uma forma demasiado óbvia, se pode chegar
a essa conclusão.
CP: Porque resolveu contar desta
forma uma parte (século XX) da História de
Portugal?
AP: Estamos a falar de nós, estou a
falar de mim. Estou a falar do passado e do futuro. A minha formação
em História e a minha memória familiar, afectiva,
biológica e cultural puxavam-me para essa que é a
nossa História. Aquilo é passado mas também
futuro. O livro, de certa maneira, que começa com a Revolução
do 5 de Outubro, acaba numa perspectiva de futuro em que o país
surge quase todo ele em prisão preventiva e quase todo
ele a interrogar-se - um pouco em português um pouco em
inglês, nesta línguagem mediatizada, informatizada
-, a falar de si, já projectado no futuro.
CP: A
formação que tem em História não
o limita a não partir em demasia para
a ficção ou para o fantástico?
AP:
Não, de forma nenhuma. Por um lado, na minha perspectiva,
a História não é uma ciência exactíssima. É uma
ciência interrogativa, hipotetizadora. Por outro lado, é uma
formação de raiz, académica, mas a minha
vida tem-se feito à base de uma actividade de ficcionista
também.
CP: Porquê o século XX?
AP:
Escolhi esta época porque esta época me escolheu
a mim. Eu sou, nós somos, parte desta época. É ela
que vivemos e é sobre ela que me quero pronunciar. No
entanto, tenho um projecto mais longo que é, porventura,
outros livros com outras figuras com o mesmo apelido, identificadas
com outras épocas.
CP: Confirma-se que o próximo
será com o pai de António Portugal?
AP:
Desta série o próximo será com o pai de
António Portugal, que se chama Manuel Portugal, no século
XIX.
CP: Não pensa que o século XX será,
estranhamente, dos mais desconhecidos em Portugal?
AP:
Bom, estamos a falar de um romance histórico e uma História
ficcionada e inventada e reinventada, à qual por vezes
lances do livro até dão a volta, interpretando
e descrevendo coisas insolitamente ao contrário da forma
como se passaram. Há um fundo de matriz histórica
claro, mas é sobretudo uma ficção. Por exemplo,
há um lance com um capitão Gavião que assalta
um zepelim português durante uma época que defino
como a época gerida por um doutor Oliveira, um ditador
português, e o assalto não é a um barco é a
um zepelim. Outro exemplo ao qual se dá intencionalmente
a volta, que é uma chamada burla da figura que aparece
no livro como A. Reis. O apresentador do livro em Lisboa, Mário
Soares, dizia que era Alves dos Reis, o que não confirmo,
nem desminto. Digo que o A. Reis não é preso e
campeia como fundador de uma espécie de dinastia de engenheiros
financeiros que vão avançado, triunfando e acabando
por emergir na ponta final do século como figuras-chave
da sociedade portuguesa, empresarial e financeira. São
voltas que o livro dá.
CP: Essas voltas representam
algo que gostaria que tivesse acontecido ou simplesmente
foram surgindo ao escrever?
AP: Não é que
desejasse necessariamente que acontecessem assim, é porque
eu acho que ao descrevê-las assim estou a procurar com
esta reconversão dar às figuras uma força
simbólica e, porventura, estou a pretender analisar criticamente
o século. Atenção que o livro chama-se "História
Fantástica de António Portugal", é um livro
histórico mas também fantástico. Por exemplo:
o Alves dos Reis não ser apenas um genial burlão
mas ser uma figura que ultrapassa aquele episódio e se
converte numa figura triunfante, aí estou a falar da engenharia
triunfante.
CP: O Alves dos Reis actualmente não é visto
de uma forma negativa.
AP: Na altura foi condenado e
muito criticado, hoje em dia não sei se seria da mesma
forma. O seu génio financeiro, provavelmente, seria condecorado.
CP: O livro a princípio tem uma linguagem difícil.
AP:
Eu tenho um determinado estilo, mas por um lado há a habituação
do leitor e por outro o estilo vai-se fazendo aos acontecimentos.
Há acontecimentos que são dados de uma forma mais
rápida e mais incisiva, outros mais barroca, mais emotiva,
mais sentimental.
CP: Teve de fazer muita pesquisa?
AP:
Fiz alguma pesquisa. Por exemplo, no episódio sobre um
doutor Afonso, que é interpretado como o Afonso Costa,
houve uma história com ele. Ia de eléctrico na
Avenida 24 de Julho e de repente houve uma explosão no
eléctrico. Ele julgou que era um atentado, lançou-se
do eléctrico e feriu-se. Isso ocorreu, a forma como é contada é um
pouco diferente. É contada por um senhor chamado Fernando,
talvez amigo de um Pessoa, que conheciam ambos um Álvaro,
que era amigo do Campos. Ou seja, todas estas pessoas são
obviamente correspondentes ao Fernando Pessoa, que não
era propriamente um republicano e muito menos um afonsista e
se pronunciou de uma forma crítica e irónica sobre
este episódio. O livro é uma reinvenção
disto. Mas para a descrição do eléctrico,
da maquinaria, fiz uma investigação. Houve investigação
mas grande parte do que está contado está-me na
massa do sangue.
CP: O livro parece-me muito oral.
AP:
Agradeço o elogio. Porque não? Os livros começaram
por ser isso, eram contos contados oralmente, depois é que
entrou o Guttenberg a oficializar e a identificar o livro com
esta estrutura que é hoje. Mas porque não o livro
ser essa narrativa aberta, fresca, envolvente, empatizante? Se
o meu livro for assim estou cheio de sorte.
Um
Portugal meio a sério e meio a brincar
História
Fantástica de António Portugal" (Publicações
Dom Quixote) é, na prática, a História Fantástica
de Portugal do século XX, escrita e reinventada (com boas
doses de humor e ironia) por Artur Portela. Formado em História,
nem por isso se deixou prender pelo academismo e lançou-se
a percorrer, atráves de António Portugal, o século
XX do nosso país, abordando de um modo muito próprio
diversos momentos marcantes. Com uma linguagem muito oral, Artur
Portela percorre eventos como o regicídio, a II Guerra
Mundial, a aparição de Fátima, a moda das
prisões preventivas, etc, com um sentido de humor que
pode perturbar os mais tradicionalistas, mas que é muito útil
para ajudar a ultrapassar uma época em que Portugal vive
em plena depressão. É, portanto, uma obra surpreendente,
onde, mesmo a brincar, se pode
entender melhor o complexo século XX português.
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