Carlos Pinto
Coelho- Há muitas maneiras de ler Portugal, de ver Portugal,
de saber Portugal. Artur Portela. Com esta receita de sempre,
entre o cáustico e o comovido, entre o irreverente e
o solidamente convicto - ele tem estas facetas todas -, pôs
em escrita ficcionada a coisa portuguesa através de
uma pessoa, a que ela chamou António Portugal. E este
António Portugal é o título do seu último
romance, História Fantástica de António
Portugal, já nas livrarias por mão da D.
Quixote. Este António Portugal é o país
visto por si próprio de fora. António Barreto,
que é dos outros que mais reincide no estudo da coisa
portuguesa aí pela via da sociologia, vai perseguindo
Portugal com os dados de facto do sociólogo. Artur Portela
pega no Portugal desde o regicídio até agora,
até à entrada de Portugal para a Europa, e vê-a,
Artur, de que maneira?, é possível estabelecer
uma fronteira a partir da qual o seu Portugal não é o
Portugal de um sociólogo?
Artur Portela- Eu acho que essa divisão entre, digamos,
categorias, sociologia, historia, literatura - é respeitável - mas
eu gostaria de a pôr em causa. E tento (...) pô-la
em causa através da ficção, porque acho
que, por exemplo, a obra de arte é, tem de ser, e é-o
cada vez mais, multidisciplinar. Portanto, a abordagem sociológica,
a abordagem histórica, a abordagem filosófica,
a abordagem política (...) eu acho que se fundem. Neste
livro, fundem-se várias paixões, desde a paixão
pela História, até à paixão - e porque
não? - pela própria sociologia, pela literatura,
pelo livro de aventuras, pela banda desenhada. Se quiser pela
banda escrita, - em certo sentido, este meu livro pretende ser,
também, uma banda escrita. Há aqui, claro, digamos,
a herança forte, pesada, e responsabilizante do Fernão
Lopes, mas há também outras heranças, outras
proximidades. Porque não, cinematograficamente, um Spielberg,
um Woody Allen? Porque não, autores do século XIX,
por exemplo Gogol, neste balanço entre a lágrima
e o riso, entre o drama e a sátira?
Há aqui o pícaro e há aqui o comovido.
Nunca se sabe bem onde, de que é que o autor ri quando
ri de Portugal, de que é que o autor faz sarcasmo quando
faz sarcasmo a propósito de os tiques portugueses, ou
de quando é que o autor está rendido à coisa
portuguesa. È um autor português, legítimo,
de lei, este que escreve sobre Portugal?
Não sei, não posso assumir essa posição
sobre mim próprio. Mas direi que rio e choro de Portugal
e rio e choro de mim próprio na medida em que sou, claro,
como todos somos, parte de Portugal. Somos todos Portugal, e
somos também, justamente, essa lágrima e esse riso.
Mas quando este António Portugal retrata o Portugal é possível,
enfim, em ficção tudo é possível,
mas não é isto um desdobramento quase de loucura,
quase de exorcismo?
É possível que sim, mas o exorcismo é fecundo,
só se avança assumindo o drama, o erro, a coragem,
a própria depressão, fazendo o luto. E assumindo
também o peso e a responsabilidade e a alegria de fazer
futuro.
Isto é um livro de um Homem de esquerda?
É um livro de um Homem que tem a esquerda também
no coração, mas não é um livro sectário.
Amigos meus, leitores já desta obra, disseram-me: "Você trata
a figura X, que é uma figura supostamente de direita,
com uma certa ternura, e trata a figura Y, que é suposto
ser uma figura de esquerda, com alguma severidade" (...) Eu acho
que há, no livro, figuras de direita, por exemplo, um
marechalão, aliás, um generalão, que tem
coragem, e que assume o risco das balas que, por exemplo, num
dos lances do romance, ziguezagueiam à volta da sua cabeça...
... E o soldado dizia: "Agache-se, meu General!", e o General
respondeu-lhe: "Um General não se agacha, meu cabrão!".
Justamente. Esse Homem, que é, do ponto de vista de História
progressista, de esquerda, uma figura negativa, é um Homem
que os tem no sítio! E essa coragem, que é também
a coragem portuguesa, porque não elogiá-la? Outras
figuras, mais oficialmente (entre aspas, o oficialmente) de esquerda,
são mais ambíguas, mais difusas, menos coerentes...
...Mário Soares?
Não, Mário Soares é...
...Pergunto eu...
...A resposta é não. O Mário Soares é um
homem corajoso, é um homem cheio de sangue na guelra,
tenha a idade que tiver; é um homem que está para
aquém e para além da própria idade. Ele
(...), que confunde todas as patentes, que é capaz de
confundir um general com um sargento, que tem de perguntar a
um assessor: "este homem é general ou é sargento?"(...)
, sabe - e provou-o ao longo da vida- enfrentar o perigo e ir
direito ao perigo.
Artur Portela, vamos à maçonaria que está aqui
também muito incisivamente metida, e o triângulo,
e o olho que abre e o olho que fecha...
Há, no livro, um diálogo entre o Deus cristão
e o Deus cujo olho está dentro do triângulo. (...)
Esse é um diálogo de oposição entre
a divindade maçónica de muita da República
e o Deus tradicional do antigo regime, que depois o oliveirismo,
como eu o trato aqui neste livro, vai recuperar.
E no entanto este António Portugal, a personagem e o
próprio objecto do livro, é posto a servir a loja
maçónica aqui e acolá...
É..., eu devo dizer que, ao longo do tempo que escrevi
este livro, fui concluindo que- não tendo opção
partidária, não tendo opção religiosa,
a não ser o meu fundo cristão, filosófico
e cultural- , sou, de alguma forma, um filho da maçonaria.
Na medida em que o meu pai era um maçon, e ele foi, naturalmente,
grande parte da minha escola. Foi maçon desde muito jovem,
e de uma forma bastante contida, secreta, e para a própria
família. Esse mistério que eu vim a esclarecer,
em parte, ao longo da feitura deste livro é capaz de me
ter aproximado, afectivamente, dessa opção. Realmente,
este António Portugal é um homem que parte da matriz
maçónica para a luta, para o combate, para a insubmissão
contra todos os poderes autoritários.
Com Artur Portela, a propósito d` A História
Fantástica de António Portugal, ou de
como Portugal, o Portugal de Artur Portela, que é também
o meu e o seu, ouvinte, se encontra nas páginas deste
livro acabado de sair.
Eu imagino, Artur, que mais uma vez isto lhe tenha dado
um prazer quase masturbatório a fazer.
Ah, sim, absolutamente! Devo dizer que este livro foi dos livros
que me deram mais prazer a escrever. Um prazer muito intenso,
muito forte. Parecerá, talvez, pretensioso dizê-lo,
mas é muito sincero.
Não é pecado gostar da obra que se faz...
Não, não é pecado. De qualquer forma foi
um gosto, um prazer e eu gostava muito que esse prazer se comunicasse
a quem o lesse.
É disso que se trata, por isso ao pedir-lhe o favor de
vir ao "Agora acontece", é também um favor que
eu me encarregaria de dar ao meu ouvinte. Não percam as
páginas deste livro, porque há momentos de verdadeira
alegria do humor. De riso, mas de riso descarado, sozinho, a
olhar para as suas páginas, Artur Portela, mas também
de grandes sustos... eu passo-lhe a dizer um dos grandes sustos
que eu tive como leitor: o que é que este homem vai fazer
de Fátima e o que é que este homem vai fazer da
virgem?...bom, como ele trata Fátima eu não vo-lo
digo, só lido, de facto, além disso as páginas
de Artur Portela são para ler, não são de
todo páginas que se possam adaptar ao audio-visual, eu
não saberia fazer, não saberia ler sem trair bocados
da sua prosa, que são intrinsecamente literários.
Qual é a sua relação com a Fátima,
Artur Portela ?
Bom, eu era muito criança, o meu pai era jornalista,
e uma ou duas vezes fui com ele, ele em missão profissional,
mas tendo ainda tempo para me aturar e para me levar. O meu pai
não ía a Fátima por opção
religiosa, tinha uma opção bastante contrastante.
Mas o fenómeno social de Fátima - cá está a
sociologia - , a multidão, a fé, a força,
o rosto do país, ali, de joelhos, sacrificado, etc, era,
não digo um espectáculo, mas uma lição
de humanidade (...) Fátima é um fenómeno
importante, humano, social. São milhares, milhares, dezenas,
centenas de milhar de pessoas que ali vão, que ali irão.
E isso é profundamente sério e respeitável.
Não deixo no entanto de considerar que Fátima foi
realmente um alicerce de uma situação... não
digo de um regime concreto e específico, porque tenho
as minhas dúvidas sobre a verdadeira atitude do Dr. Oliveira
sobre Fátima (...) Está na base sobretudo de uma
atitude, de uma ideologia e de uma cultura. Mas tal não
impede que o romance trate a divindade com alguma alegria, inclusivamente
com alguma ternura. A Nossa Senhora de e Fátima que aqui
fala, fala de uma forma inconvencional, brincada, irónica
...
Mais, mais, de vez em quando quase tocante, quer dizer,
há momentos
na sua escrita que são autênticos momentos de um
crente absoluto na aparição de Fátima, de
tal maneira carinhosa, de tal maneira respeitadora, e depois
esperem pelo fim, mas dos fins só pode rezar o próprio
livro. E por fim, para onde vai Portugal?
Portugal vai para onde nós quisermos que vá...
É que não fica claro, aqui, qual é o rumo,
a trajectória, convém situar este livro no tempo,
este livro começa no regicídio e termina agora.
(...) O livro começa num manicómio, acaba num
manicómio. Começa com António Portugal a
ir visitar a tia-avó, Carlota Joaquina - coincidência
com o nome da Raínha, ou talvez não... - , e acaba
com ele a receber o sobrinho-neto, a quem passa o testemunho
do nome, do apelido. E o tio pergunta-lhe: "Tu como é que
te chamas?", e o sobrinho-neto responde-lhe: " Pórtchugol ".
Responde num português inglesado, informatizado, globalizado,
mediatizado. Já é um português descaracterizado,
não apenas ao nível da C.E.E., mas ao nível
da globalização.
É isso que já vinha atrás, num capítulo,
a propósito das burlas, e falsificações
do Alves dos Reis, quando, pela primeira vez no livro, entra
o seu repúdio pela globalização, que é claro,
aí é claro, é indisfarçável.
É claro o meu repúdio por uma certa globalização
e é claro o meu repúdio pela morte e pela tortura
e pelos massacres. Porque no livro há o assassínio
de um chefe político português, abatido a tiro por
agentes de uma "secreta", junto da fronteira, e depois queimado
e enterrado- e essa parte, que é contada por um anjo,
que vê tudo do alto, é dramática. Há no
livro um massacre em África, altamente dramático.
Há no livro a chacina de uma "Leva da Morte"...
Para onde vai Portugal ?
...A globalização é também uma oportunidade
e eu gostaria que ela pudesse ser aproveitada como uma janela
aberta. Não apenas para nos impingirem a globalização
que o Império quer e que o Império manda, mas...
Leia-se Bush?...
Leia-se Bush..., pode-se ler Bush, uma caricatura dramática
da pior América possível, mas parece-me que já aí vem
outra, e muito bem. A América ...
...De cara lavada...
...De cara relativamente lavada, atenção ao relativamente...
Agora deixe-me insistir na pergunta, e isto é puro
egoísmo, Artur Portela, é puro egoísmo,
eu preciso de conhecer a sua resposta, estou a utilizar o microfone
abusivamente, tenho muito interesse pessoal na sua resposta:
para onde vai Portugal? , depois diz-me o Artur: "pois
bem, que a globalização, sejamos capazes de,
sejamos capazes de, mas sejamos capazes quem? Tem que ser o
meu amigo e eu próprio, porque...
...O meu amigo e eu próprio e muitos dos amigos que nos
estão agora a ouvir...
Justamente, quer dizer, sejamos capazes de...
... da força da crítica, da força da ironia,
da força do riso, da solidariedade da inteligência,
do amor à liberdade, do amor ao futuro. Um futuro de consciência
social, económica e cultural. Todas essas vontades juntas!
Mesmo sem apelidos ideológicos ou para além deles.
Podemo-nos juntar todos, articular todos, solidarizar todos,
a propósito de uma ideia, transformar portuguesmente Portugal.
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