...Bom, já há uma resposta
do público...
Eu sei que o livro terá segunda edição...
...Diz-me o editor que sim. Espero pelo menos que o público
se divirta tanto quanto eu me diverti a escrevê-lo.
Eu também me diverti a ler o livro por vários
motivos (já lá vamos quando entrarmos no livro
propriamente) Deixe-me só voltar atrás, voltar
aos anos 60, quando Artur Portela era só, digamos, jornalista.
Publicou nessa altura, em 62, “O Código de Hamurabi” que
foi o seu primeiro romance, embora, antes disso, tivesse publicado
já contos, narrativas. De qualquer modo, deixe-me passar
por essa fase do jornalismo. Começou pelo Diário
de Lisboa...
Comecei nos últimos anos 50. Era um jovem redactor, com
dezanove anos, cheio de vontade de fazer reportagem. Fiz alguma.
Cheio de vontade também de fazer jornalismo cultural numa
perspectiva verdadeiramente jornalística, numa perspectiva ágil
e seguidora dos acontecimentos, de análise, de notícia,
de crítica...
E fez?
...Passou-me o meu pai a responsabilidade do suplemento literário
e, durante três ou quatro anos, um jovem, com dezanove,
vinte anos, vinte e um, tinha a seu cargo a gestão do
suplemento literário do "Diário de Lisboa".
Que nomes é que circulavam pelo suplemento?
Já não o Gaspar Simões, mas ainda o Álvaro
Salema, e outros...
O Álvaro Salema era um dos nomes...
Era. E era um crítico cuidadoso, severo, severo no bom
sentido da expressão, rigoroso.
Entre 62, quando publicou “O Código de Hamurabi”,
e depois 63, com “Rama, verdadeiramente”, e até 70
não publicou praticamente livros. Obviamente, foram anos
em que se dedicou mais ao jornalismo, menos à literatura...
Bom, colaborava em jornais. Comecei, por exemplo, a colaborar
no “Jornal do Fundão”...
De onde resultam, aliás, sete volumes de “A Funda”,
das suas crónicas do jornal...
Crónicas de intervenção, de análise
e de crítica política – a possível,
na altura –, social, cultural...
Tanto possível que os livros não chegavam pacificamente às
livrarias...
Alguns deles não. Um, o terceiro volume de “A Funda”,
criou-me grandes problemas. Fui interrogado na então – já -
DGS, porque era a ponta final do regime, já era o marcelismo
com aquela rebaptização das instituições.
Lembro-me de ter sido interrogado, por mais de uma vez, com a
presença, inédita porque a legislação
tinha, creio, acabado de ser alterada, do Francisco Balsemão,
que não podia dizer nada, mas que estava lá como
advogado. E ainda me lembro de, um pouco por audácia,
um pouco por desafio, ter recusado assinar o auto que reproduzia
as minhas declarações. O agente passou-me o auto
para a mão, li, e disse: “Mas isto está cheio
de erros de ortografia, de erros de construção,
eu não assino isso!” O Francisco Balsemão,
cuidadoso, dizia-me de lado: “Você assine, que nós
não saímos daqui. Pelo menos você não
sai...” Eu mantive: “Recuso-me a assinar!” O
agente perguntou-me: “Então o que é que quer
que faça?” “Eu dito.” E ditei as declarações,
com ponto e vírgula, vírgula, parágrafo,
ponto final, etc..
Nessa altura já assinou...
Porventura uma gavrochade! Mas acho que não ficou mal,
sobretudo porque era merecida...
Não só defendia as suas crónicas como a
língua portuguesa, portanto, na DGS...
Tanto quanto eu sabia e me era possível, não é?
...O que é que lhe perguntavam, exactamente?
Bom, eu era acusado de coisas terríveis, era acusado
de insultos às mais altas magistraturas, incitamento à revolução,
incitamento à rebelião. Havia o problema do dito
ultramar subjacente a tudo aquilo, que era particularmente, como
todos se recordarão (alguns se recordarão!...),
particularmente grave, e sensível. E portanto a acusação
era um libelo fortíssimo, não é? Sem o 25
de Abril, ter-me-ia acontecido, decerto, algo de consequente
com a força daquele libelo.
Depois do 25 de Abril, aí, aparece-lhe uma experiência
jornalística que já não tinha muito a ver
com o “Diário de Lisboa”, que era o “Jornal
Novo”, que foi, obviamente, um marco, nesses anos quentes,
em 75.
Foram meses do ano de 75, mas foram meses que valeram porventura
anos.
O “Jornal Novo” era conhecido pelas suas primeiras
páginas, onde havia umas fotomontagens, também,
os seus editoriais, que não eram propriamente editoriais
políticos, estrito senso, com a seriedade habitual que
se pede a um editorialista de um diário de referência,
se quiser...
Sim, em termos tradicionais é isso que se pede. No entanto,
nada impede que se peça outra coisa e que, sobretudo,
se responda outra coisa. Que se faça um editorial com
vivacidade, alegria, alacridade, intervenção,
humor. Até porque os acontecimentos eram de tal maneira
sortidos, de tal maneira vertiginosos, de tal maneira, vamos,
inconsequentes... Cada dia somava vários dias! A realidade
estava a pedir algo assim. E eu, que tinha tido uma experiência
profissional mais ligada à criatividade, às artes
gráficas, a um tipo outro de intervenção,
acho que levei para o jornal essa alegria. Tentei...Daí as
fotomontagens. Daí os títulos que mais tarde
outras publicações vieram a fazer. Com muito
talento, designadamente “O Independente” – pense-se
o que se pensar do que “O Independente” é ou
foi, ideologicamente – mas o talento transbordava. Ali,
no “Jornal Novo”, bastante antes, tentava-se essa
vivacidade, esses quase slogans em títulos...
Uma primeira página cartaz...
Uma primeira página cartaz. Mas “O Jornal Novo” não
era apenas a fotomontagem, os meus textos e a primeira página.
Tínhamos uma redacção que integrava nomes
de grande qualidade, o Mário Mesquita, o Mário
Bettencourt Resende, e muitos, muitos outros. Portanto, a qualidade
do jornal estava, claro, apoiada num conteúdo mais extenso.
No entanto, quando se esperava que, depois do 25 de
Novembro, o jornal não passasse a ser propriamente um jornal do
regime, mas próximo da nova situação surgida
depois do 25 de Novembro, nessa altura o Artur Portela saiu...
... Fui despedido, o Zé Sasportes foi despedido, o 25
de Novembro deu a reviravolta neste país que se sabe!
Nós tínhamo-nos oposto à bomba colocada
na Rádio Renascença, tínhamo-nos oposto à ilegalização
do PC, tínhamos uma posição relativamente
convergente com a posição designadamente dos nove,
do Melo Antunes ...
O Documento dos Nove foi divulgado pelo “Jornal Novo”.
Foi divulgado no “Jornal Novo”. Num dia, com o jornal
já a fechar, quando alguém achou que seria melhor
publicar no dia seguinte, alguns de nós achámos
que tinha de ser no próprio dia. E o jornal saiu para
as ruas da cidade, já de noite, com ardinas improvisados
aos gritos: “O Documento dos Nove, o Documento dos Nove!!!...” E
foi um acontecimento, porque aquilo pegou, digamos, ateou fogo
no interesse, na ambiência, na rádio, nas televisões,
e por aí fora. O jornal está, na minha perspectiva,
ligado ao acontecimento.
Depois “A Opção”foi, digamos, uma
aventura de mais fôlego...
Tivemos que lamber as nossas feridas, não é?...
A administração e a redacção do “Jornal
Novo” constituíam uma convergência de interesses.
Eles queriam uma coisa, nós queríamos outra. Fizemos
um jornal no qual coincidimos circunstancialmente. O 25 de Novembro
veio repor a verdade das nossas diferenças. Nós
tínhamos uma posição de esquerda independente,
socialismo independente, mais ideológico e cultural, não
necessariamente filiado em termos partidários. Tal como
não é o meu caso. Não era, não foi,
presumo que não será. E então a administração
cobrou, apresentou-se com os seus trunfos na altura. A "Opção” não,
foi uma experiência de jornalistas.
Uma revista semanal.
Uma revista semanal, um pouco à “Nouvel Observateur”,
um pouco à “Newsweek”, com aquela vivacidade,
a ilustração, etc., com um grupo de colunistas
magnífico, o Eduardo Prado Coelho, o Eduardo Lourenço,
o Cravinho, o António Reis, o Lopes Cardoso, o Sena da
Silva...
...O Eduardo Luís Cortesão...
...O Eduardo Luís Cortesão, de quem, aliás,
vai sair, agora, proximamente, um livro com as crónicas,
as belíssimas crónicas de intervenção
e de pedagogia ética, de exigência moral em relação à revolução.
Tinha uma bela secção de cinema, já agora,
se me permite...
Tinha uma belíssima secção de cinema...
Além das crónicas...
E não só... e não só.
E das reportagens...
E não só...
Tinha uma bela secção de cultura, digamos.
...Suponho ter tido o gosto de ter tido entre os leitores aquele
que me está neste momento a entrevistar...
...Exactamente...era um leitor, embora, enfim, muito jovem,
mas era...
Esses são os melhores!
É verdade, é verdade que foi pela “Opção” que
aprendi muitas coisas de cinema. Estávamos nessa altura,
no final da década de 70, e a “Opção” foi
uma das revistas de referência. Nessa altura, o Artur Portela
tinha publicado em 77 o “Marçalazar” que foi,
digamos, a sua primeira ficção desde os anos 60,
a que se seguiu a “Fotomontagem”. Enfim, os livros
de política, de ficção política,
sátira também...Mas deixe-me voltar um bocadinho
mais atrás... Eu falava há pouco do silêncio
em matéria de livros que vai do “Rama, verdadeiramente” até mais
ou menos a 70. Em 70, publica um livro, que tem um título
no mínimo original, chama-se “Essa é que é Eça”.
É um livrinho, um opúsculo, um livro de circunstância,
uma análise crítica sobre a teatralização,
as possibilidades da teatralização de Eça
de Queiroz.
...Essa paixão por Eça é marcante
na sua...
É, é marcante.
...na sua biografia e na sua bibliografia.
...A aproximação que eu fiz, que tive, durou bastante
tempo... Naturalmente, ainda emerge. Mas neste momento isso está muito
relativizado, com toda a consideração que eu tenho
pelo grande talento e pela criatividade e inovação
de Eça de Queiroz. Está dissolvido. Há autores
que têm para mim, neste momento, uma importância
maior, mais evidente. O que não impede que o Eça
esteja na matriz, esteja no alicerce...
O Artur Portela trabalhou em teatro sobre textos do
Eça...
Trabalhei...
“A Capital”, com Artur Ramos, e “O Crime do
Padre Amaro”, com Mafalda Mendes de Almeida.
Exactamente.
E também, depois, mais tarde, em prosa, publicou “O
Novo Conde de Abranhos”, e “O Regresso do Conde de
Abranhos”. Sobretudo “O Regresso do Conde de Abranhos”,
que também aproveita coisas da”Opção”....
Sim, como se o Conde de Abranhos tivesse existido, como se Z.Zagallo,
o seu secretário, tivesse existido também, como
se eu tivesse descoberto novos documentos, novas cartas...
O Conde de Abranhos existia mesmo nessa altura? Continuava a
existir?
Ah, o Conde de Abranhos, bem, digamos que já existia
antes do Conde de Abranhos de Eça de Queiroz...
Obviamente.
...Pelo menos desde o princípio do liberalismo, para
não falar antes, não é? Porque é filho
da passagem do antigo regime à revolução
liberal, e, depois respira, vive, campeia, no rotativismo, etc.
Mas continua a existir, em certo sentido, também: a vaidade,
a arrogância, o oportunismo. Sim, sim, isso são,
nem sei se defeitos, diria características quase inelutáveis
da natureza humana com um picante muito português...
...Da natureza portuguesa...
...Da natureza portuguesa, não é? Mas eu creio
que a realidade evolui com muita velocidade, torna-se muito mais
complexa, e é preciso, porventura, um aparelho mais...Não
digo mais talentoso porque o Eça é um talento enorme.
Mas é preciso um aparelho respondendo mais à complexidade
do nosso tempo, não é? Que o Eça já hoje
dificilmente...
Havia mais Condes de Abranhos em 77 ou hoje?
Ah, bom, em 77, havia-os de uma forma mais vistosa, mais preopinante
e opinante. Hoje em dia, o Conde de Abranhos é mais cauto, é mais
empresário, é mais discreto, é mais concentracionário. É o
homem das grandes concentrações, porventura tem
gravatas, e porventura é capaz de ter um título.
(... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... )
Nós falávamos de Eça de Queiroz e eu esqueci-me
de uma outra referência literária, que também
me é cara, e a si também. O Cavaleiro de Oliveira.
Aliás, soube que escreveu...
...Escrevi um estudo.
...Escreveu um estudo justamente sobre o Cavaleiro de Oliveira...
...Definindo-o como um aventureiro português do século
XVIII, que é um fenómeno social, psicológico,
afectivo, cultural, da época, não é?...Os
aventureiros do século XVIII, epistolares e viajantes...E
o português mais próximo (não propriamente
tão exemplar como alguns exemplos franceses ou italianos) é justamente
o Cavaleiro de Oliveira, que acaba protestante, queimado em efígie
aqui no Terreiro do Paço...
São um bocadinho os seus textos, se me permite. Por um
lado a sátira, a mordacidade, os personagens, a própria
galeria, que deve um pouco a Eça de Queiroz, e esse lado
da aventura, enfim, e a vida ...do Cavaleiro...
...Bem, isso é uma coisa que você não sabe...
...Pode ter... quero dizer que não é matéria
minha. Mas de facto essas duas presenças são constantes...
...Significa que posso morrer protestante...
...Não se queimará a sua efígie, já é muita
sorte...
Bem, houve um momento em que tentaram queimar a efígie,
na ponta final do regime, com a apreensão d`”A Funda” III,
e praticamente era um...
...Um auto de fé...
...Um auto de fé...zinho, não é?, sim...
A censura, que memória é que tem da censura,
propriamente dita?
Ah, a censura e eu somos velhos amigos, amigos-inimigos, não é?
Desde o princípio, desde as primeiras coisas que eu escrevi,
no “Diário de Lisboa”, tinha dezassete, dezoito
anos. Porque comecei a escrever antes de entrar para o “Diário
de Lisboa”. Entrei com dezanove, e comecei a colaborar
antes no jornal. Ora logo quando da minha entrada para o jornal,
publiquei designadamente uma coisa chamada “Feira das Vaidades”...
...Exacto.
...“A Feira das Vaidades” como sabe, como muitos
ouvintes sabem, é um romance do William Tackeray. Eu adoptei,
ironicamente, o mesmo título numa secção
do “Diário de Lisboa” e, depois, no meu primeiro
livro. Livro que foi logo apreendido pela polícia política,
que foi às livrarias e à editora, a exigir “A
Feira das Vaidades”. Ora as livrarias tinham o meu livro,
mas também tinham, claro, o romance do Tackeray. Pelo
que algumas, não sem considerável habilidade, entregaram
aos agentes da PIDE o romance dele. Do que resultou que, durante
horas, até eles esclarecerem a situação,
e voltarem às livrarias, o Tackeray, o pobre Tackeray,
o romântico Tackeray, foi aprisionado pela polícia
salazarista. Curioso...Bom, nessa secção “Feira
das Vaidades” eu publiquei, por exemplo, uma alegoria,
que era uma coisa passada na China, com um mandarim chamado Whu,
crudelíssimo, severíssimo, que geria o império
de uma forma absolutamente implacável. Aquilo saiu uma
vez, saiu duas vezes, saiu três vezes, até que tocou
o telefone de Estado! Os jornais tinham um telefone de Estado,
era assim um telefone de uma cor diferente, que ligava directamente
ao poder, ao Governo. Aliás, era um jornal republicano,
simpático, aberto, não muito agressivo contra o
regime, mas suficientemente crítico. E então toca
o tal telefone! O Norberto Lopes vai ao telefone e era, do lado
de lá, creio que o Teotónio Pereira, Ministro da
Presidência, a dizer: “Estas crónicas, isto é um
retrato do Sr. Presidente do Conselho! Nós não
admitimos isto! Vocês tentam publicar mais isto e o jornal
fecha!” E então acabou o mandarim Whu, que eu depois
publiquei, exactamente no primeiro volume d`”A Feira das
Vaidades”. Daí a apreensão e a proibição,
daí o William Tackeray na cadeia...
Sobre o jornalismo, estávamos aqui a falar de três
livros sobre as suas experiências jornalísticas.
Estávamos a falar do ”Código de Hamurabi”,
estávamos a falar da “Fotomontagem” e d`”A
Manobra de Valsalva”, que saiu muito recentemente. Eles
retratam três experiências diferentes da sua passagem
pelo jornalismo...
Sim, ”O Código de Hamurabi” correspondia
ao jornalismo dos anos 50, primeiros anos 60, jornalismo de papel.
Bairro Alto, Rua Luz Soriano, rotativas antigas, rivalidade com
o “Diário Popular”... O “Diário
Popular”, com uma máquina muito mais acelerada e
muito mais moderna, a do “Diário de Lisboa” mais
romântica e mais asmática. Tanto e de tal maneira
que nós estávamos à varanda, os repórteres,
os redactores, tentando ouvir. “Eles já dispararam
com a máquina?!” Porque, com os horários
dos comboios, era fatal para nós, não é?
Bom, mas era um jornalismo romântico, literário,
político mas veladamente político – assim
o impunha a censura. Mas também era o estilo da época,
não é? Um jornalismo que ia dali para as ceias
e para os teatros e para os cafés. Que acabava, fechava
o jornal, afastava as secretárias e fazia uma sala de
armas, esgrimia ali dentro!... Ainda é da tradição
do meu pai, apanhei ainda essa ponta final, fui colega de jornalistas
notabilíssimos, o Norberto de Araújo, um homem
muito a ligado a Lisboa, o Rogério Peres, El terrible
Perez, um homem ligado aos touros, e por aí fora, grandes
jornalistas, o Mário Neves, o Ribeiro dos Santos, o Norberto
Lopes, o Padre Joaquim Manso, padre que foi o primeiro director
do ”Diário de Lisboa”. Era uma redacção
muito viva, muito notória, com muitos afluentes culturais,
artísticos. Entrava o Almada, saía o Botelho, havia
ilustrações ilustres, a crítica era o Gaspar
Simões. Realmente um viveiro cultural, político,
etc, mas romântico. E os jornalistas eram os protagonistas.
Com o segundo livro, que referiu...
...”A Fotomontagem”...
... “A Fotomontagem” corresponde a outro jornalismo. “A
Fotomontagem” é o retrato de um jornal visto de
uma revolução e de uma revolução
vista de um jornal. Um jornal rápido e improvisado, a
responder, a seguir, a entrevistar, a viajar, a participar na
revolução, praticamente, a vivê-la, a acompanhá-la,
não é? Em directo quase permanente! Mas, atenção,
com uma administração já a tentar pôr
o pé no ramo verde que era – orgulhoso, vaidoso,
porventura incauto – a redacção. O 25 de
Novembro vem repor a ordem digamos natural da hierarquia capitalista,
já meia, se não fundamentalmente, neo-liberal...
...Vem transportar as administrações para
o jornal, propriamente...
Vem, vem transportar...Embora eu, um dos gestos de que me orgulho
relativamente está nesse, vamos, transporte... Foi assim.
O jornal ia fazer uma mesa-redonda com alguns protagonistas políticos
e político-militares da altura. Telefonou-me um dos três
administradores – que aliás até eram simpáticos,
relativamente simpáticos, embora depois fossem, coerentemente,
os nossos despedidores – a dizer :”Nós gostávamos
de assistir”, “Assistir? Mas vocês são
da administração, vocês não são
jornalistas”, “Mas gostávamos de ver. Não
se importa? Ficamos lá calados, ao fundo...” Eu
respondi: “Isto não é um espectáculo.
Os senhores não apareçam!...” Dito e feito,
apareceram. Apareceram, e então começaram a entrar
os militares todos, os políticos, para a sala. Era uma
sala muito grande de uma casa apalaçada, ali sobre o Alto
de Sta. Catarina, à vista do Tejo, muito bonita, com uma
vista lindíssima. Começam a entrar, entra todo
o establishment político para a mesa-redonda. E depois
entram os administradores do jornal. E eu, perante toda aquela
gente ali sentada, disse: “Os senhores, administradores,
out! Os senhores saem!”, “Nós?!...Mas nós
somos os administradores!...” “Os administradores,
sim senhor, digamos, são respeitados como administradores,
mas estão aqui a mais! Pelo que saem!” Saíram,
muito amolgados, e muito feridos. Porventura isso terá ajudado à sua
decisão após o 25 de Novembro...
...E finalmente, “A Manobra de Valsalva”, que reflecte
uma experiência, então, completamente diferente.
Completamente! Uma perspectiva de um órgão regulador
dos media – que não é esse... Aquele em que
porventura estará a pensar...Um órgão regulador,
e agora falo em geral, não é necessariamente um órgão
monstruoso. Porque, em princípio, persegue fins nobres,
em defesa das liberdades, da autonomia, da independência,
etc.. Em alguns casos concretos, com uma lei muito insuficiente.
E com resultados que decorrem, não apenas de insuficiências
dos próprios órgãos, mas bastante da insuficiência
da lei.
O seu alcance era limitado, quer isso dizer que o seu poder
era muito limitado?
Falo agora de um órgão regulador concreto. Esse.
O seu poder, na minha perspectiva, é limitado. Deveria
ser reforçado, ampliado. Mas “A Manobra de Valsalva” não
refere um órgão concreto. Fala, sim, da globalização,
da interactividade, do poder dos audiovisuais. E fala de um outro
jornalismo, um jornalismo de tronco para cima, um jornalismo
que debita, um jornalismo que se exibe. Um jornalismo (falemos
outra vez das gravatas, não agora dos títulos nobiliárquicos)
que aparece muito engravatado e muito maquilhado mas que não é o
jornalismo de intervenção que eu favoreço.
E não em termos necessariamente românticos e passadistas.
Mas em termos de modernidade e de futuro. Um jornalismo com consciência
social, com consciência cultural, com consciência
política, e com as responsabilidades inerentes. Não,
portanto, às vedetas que se podem adquirir, sim a homens
que, podendo ser merecidamente pagos, tenham consciência
e sentido das responsabilidades. Não podendo o patronato
e os títulos onde esses jornalistas se inserem constituir álibis
para o seu desempenho. Desempenho que tem de ser independente,
autónomo e responsável.
Quando fala na consciência social e política dos
jornalistas, isso não quererá dizer que haverá uma
agenda dos jornalistas, haverá um programa dos jornalistas,
quer dizer que os jornais podem passar a depender dos interesses
e das inclinações políticas dos jornalistas?
Isso não é um risco?
...Quando eu falo em política não falo necessariamente
em política partidária. Política é uma
coisa mais ampla do que a política partidária...
Obviamente...
...Consciência política é consciência
social, cultural, económica, e uma perspectiva sobre as
inerentes democracias, a social, a cultural, a económica,
etc.. Portanto, não. A questão central, para mim, é a
de independência dos jornalistas relativamente às
estruturas empresariais, aos ditames empresariais, que, de uma
forma mais ou menos directa, mais ou menos implícita,
condicionam essa liberdade. Porque se pode condicionar a liberdade
dizendo: “Escreves sobre isto e escreves contra aquilo!” É a
grosseria antiga, antiquada, do patronato grosseiro. Mas pode-se
fazer exactamente o mesmo, de uma forma muito mais hábil:
condicionando, cortando, circunscrevendo, afogando órgãos
de comunicação social que têm o seu público
e o seu carácter, limitando-os, reduzindo-os. Reduzindo-lhes
o papel, as páginas, os espaços, o tempo, a visibilidade,
não é?
Muito bem, esse é o lado da imprensa. E agora entramos
nesta “História Fantástica de António
Portugal”. É o nome do personagem é o nome
de um personagem que atravessa todo o século XX português.
Sim, sim, pertence a uma família, os Portugal, que têm
esta fatalidade, ou esta vantagem, de viverem muito tempo. E
normalmente vivem quase cem anos...
...O que os leva a atravessar várias comédias
políticas e várias tragédias...
Justamente. Este António Portugal , que corresponde à fatia
da família Portugal do século XX, começa
por assistir ao assassínio do Miguel Bombarda, chefe civil
da revolução do 5 de Outubro, por um louco, por
um tenente louco, e não pelos jesuítas, conforme
na altura logo se especulou. Depois, há um flashback ao
regicídio, ele ainda muito jovem...Ele é, digamos,
filho daquele operariado culto, maçónico. Filho
daquela Lisboa febricitante, nocturna, de agitações,
e de expectativas, já socialista, ainda republicana, já socialista
e por aí fora... E vai começar a atravessar o século...
...a contactar de perto com todos os personagens...
...Com alguns personagens...
...Lembro-me de Afonso Costa...
... Convive com eles, um pouco como o Zelig, de Woody Allen...
Exacto, o Zelig, de Woody Allen...foi a imagem que eu retive,
Há essa convergência. De qualquer maneira, o Zelig é uma
história, enfim, de um personagem excepcional, não é propriamente
um retrato, ou não pretende ser, uma espécie de
crónica da vida norte-americana. Este meu livro tende, é pelo
menos visto como uma espécie de crónica, ou se
quiser carónica, da vida portuguesa ao longo do século
XX. Este António Portugal assiste à fuga da família
real..
...Tem uma imagem muito bonita, essa cena, essa cena
da fuga da família real, na Ericeira, em que as únicas
bandeiras que haviam eram as saias das senhoras...
...Justamente. A Ericeira ventosa, os vestidos eram lindíssimos,
as senhoras...
...A saia da Rainha...
...A saia da Rainha era, tinha de ser, a maior de todas...A
Rainha, que, na cena do regicídio, lembrar-se-á,
pega no ramo de flores que trazia e bate com as flores no regicida
que lhe está a matar, ou que acabou de lhe matar, o filho... É uma
situação que eu quis lírica e emotiva. Porque,
aliás, eu procurei neste livro – tendo embora eu,
as minhas, claro, opções ideológicas, culturais,
etc., e estando muito mais do lado do António maçónico,
republicano, socialista, digamos, insubmisso, anti-oliveirista,
e por aí fora – ter compreensão, e até ternura
designadamente pela dor da Rainha, tal como uma certa admiração
pela coragem, pelo desassombro de um general Gomes da Costa...
Exactamente.
...Que justamente, na Guerra de 14-18, onde o António
Portugal aparece como galucho, solta...
...“Um General nunca s` agacha!”
“Um General nunca s` agacha!”. Os boches disparavam,
disparavam, disparavam, ele era muito grande, ultrapassava em
altura as trincheiras...
...E o António Portugal diz-lhe: “Agache-se, meu
General!”...
... E o general responde: “Um General nunca s` agacha!...” Posso
dizer a palavra, aqui?
Pode, pode...
...seu cabrão!”.
Exactamente, “Um General nunca se agacha, seu cabrão!”
Depois, aparecem todos os outros personagens, aparece o Sidónio,
que é assassinado...
E aquelas manifestações de apoio ao Sidónio
Pais...
...As manifestações de senhoras de Lisboa – contava-me
a minha mãe –, e no livro está essa situação
reproduzida –, senhoras porventura de média-alta
ou alta sociedade, que iam para as varandas quando passava o
Sidónio, que era um homem assim varonil, num cavalo...
Bem vestido...
...Bem vestido, fardado, a espada, etc., tudo, não é?,
e as senhoras gritavam das varandas, atirando-lhes papelinhos
e flores: “SI-SI, DÓ-DÓ, NI-NI, Ó-Ó!”.
E ele passava. Bem, este homem acaba por ser assassinado na estação,
numa estação de caminho-de-ferro, a caminho do
Norte. Aí está também o António Portugal...
O regicídio também...
O António Portugal está...vai estando...
Ele está em todo o lado...Está na noite sangrenta,
por exemplo, não é?
Está na leva da morte, exactamente...
Onde morreu o António Granjo...
E o Machado dos Santos...
É uma das cenas violentas, obviamente, do livro...Nota-se
ali o peso, o peso do chão, que oscila sobre o peso dos
corpos...
Exactamente, sobre o peso dos corpos, e até porque...
...dos marinheiros...
...dos marinheiros... Lisboa, toda ela, na altura, era uma Lisboa,
digamos, de escadas, de colinas, de subidas, de descidas. Aí já oscilava
a cidade como se fosse um barco. Aliás à beira
do Tejo. Lisboa está a navegar no Tejo, por assim dizer,
não é? Depois, mais para diante, o António
Portugal assiste à chegada do Dr. Oliveira...
O Dr. Oliveira...
...que vai ser o inimigo jurado do António Portugal,
que ele tenta torpedear lançando-lhe fogo à sua
Exposição do Mundo Português.
Exactamente.
...apoderando-se, com o Capitão Gavião, de um
zeppelin sobre o Atlântico, e raptando, finalmente...
O Capitão Gavião, que é obviamente, uma
alusão...
Que é obviamente, uma alusão...essa! Que é uma
alusão a uma grande figura, não é?, um homem
de olhar longo, africano, grandes espaços, etc.. Mas melancólico,
de certa forma melancólico, e pudera! Bom, e depois temos
o 25 de Abril, com os qui pro quos digamos, de go between entre
um general, que aliás aparece aqui como...
Spaniel...
...Spaniel, exactamente, e uma outra figura, o chefe do governo
em queda. Depois temos o 25 de abril, temos a adesão de
Portugal à Europa – que o António Portugal
também tenta tornear ...
Exactamente...
Temos um Dr. Nobre..
Um Dr. Nobre...
...que o Dr. Mário Soares, apresentador deste livro,
reconheceu imediatamente: “Este Nobre sou eu!” Com
aquela aisance que o Mário Soares tem, com aquele seu
poder de encaixe notável...
...e aí o Artur Portela diz: “Não sei”...
Não, eu não disse...por acaso não disse “Não
sei.” Na altura, disse: este homem tem capacidade para
reagir assim, foi o único Presidente da República
que teve capacidade para abrir os salões do palácio
presidencial, em Belém a uma exposição de
caricaturas contra ele! Isto tem qualidade, não é?
Obviamente.
Tem qualidade. De maneira que era capaz de merecer eu evitar
o “não sei” e dizer “é, sim senhor!”.
E por aí fora esta viagem do António Portugal ao
longo do século XX português, até à actualidade.
Até chegarmos a este momento. O livro, que começa
num hospital de loucos, acaba num hospital de loucos, com o António
Portugal...
Porque não esqueçamos que António
Portugal foi nomeado ministro.
Foi nomeado ministro pelo próprio Dr. Oliveira..
... dos Transcortes...
...Ministro dos Transcortes...De maneira que acaba por ser todo
esse trajecto. E, naturalmente, saltámos várias
coisas. Olhe, saltámos o futebol, saltámos o fado,
saltámos...
O fado que aparece através das namoradas, de uma das
mulheres do António Portugal...A Abília...
Abília, exactamente, Abília, que é... Já me
perguntaram diversas vezes: “É a Amália ou
não é a Amália?”Porque é muito
a Amália... E a resposta que eu dou é assim: na
medida em que a Amália simboliza o fado e em que esta
Abília pretende simbolizar o fado, elas convergem e...podem
ser identificadas. Nesse sentido, sim. Agora, retrato de corpo
inteiro, não é. Não podia ser, ou o livro
não era uma ficção.
(... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... .)
Há pouco, na primeira parte do programa, utilizou três
vezes uma palavra: alegoria, que é, justamente, aquilo
que me recorda este livro ou aquilo em que este livro me faz
pensar, neste livro. É uma alegoria sobre Portugal, também.
Que termina, aliás, de uma forma espantosa, com um capítulo
em que se utilizam os códigos das mensagens SMS, o K em
vez de QUE, o teclar. Mas, pelo meio, pelo meio, pelo meio desses
kapas e QUÊS, desse teclar, há uma outra realidade,
que são os beijos da Genciana, uma das personagens mais
bonitas, se quiser, deste livro.
Termina com esses sinais e termina também com... Assim: à pergunta
que o tio-avô António Portugal faz ao sobrinho-neto: “Tu
como é que te chamas?”, o sobrinho-neto responde: “Portugal!” Ou
seja, em linguagem já da globalização, a
linguagem de um império, não é? E não
apenas o império que a nação... que se sabe
está a erguer. Mas um império mais geral, mais
global, mais apátrida. Bom, nessa dialéctica entre
essa sinalética e essa identificação de
Portugal com “Portugal” e não com “Pórtchugol” e
estes beijos da Genciana que António Portugal quer lembrar,
quer saber a que sabiam, há, creio, a relação
entre o que é eterno, o que é essencial, o que é fundamental
e criativo, que é o amor, e esta circunstância de
linguagem técnica, paracultural, porventura cultural,
mas que terá de ser superada, aprofundada, não é?
E este livro é essa dialéctica, esse combate e
essa viagem...Sendo também, julgo, um jogo entre e o drama
e o riso, entre a lágrima e a gargalhada, entre, por exemplo,
Gogol...
...Exacto...
...e Gogol. Porque o Gogol é exactamente essas duas coisas.
Tal como é o Charles Dickens. Como vê, já não é só o
Eça...
Exactamente.
...e não são apenas escritores do século
XIX. E volto a essa dialéctica entre a novidade e a essencialidade.
E estamos nisso, Portugal está nisso. É aqui que
se vai jogar o nosso destino. É preciso não sacrificar
o que é que há de essencial...
E o que é que há de essencial?
A sensibilidade, a inventiva, a pesquisa, a procura, a aceitação
da diferença e o fazer – como dizia um poeta que
não era português, mas era ibérico – ,
fazer o caminho, andando, não é? E há muito
caminho a fazer, por muito conhecido que o mundo esteja, há muitos
mundos neste mundo, e há muitos mundos neste mundo que
não são conhecidos. Sê-lo-á apenas
a superfície, a crosta – embora, claro, o Capitão
Cook ou o Vasco da Gama tenham alcançado muitas e largas
coisas. Mas há muitos mundos a fazer, mundos interiores,
mundos culturais, mundos nacionais. Designadamente, a batalha
da identidade nacional. Este livro, este António Portugal
sorridente, irónico, às vezes dramático, é,
pretende ser, um contributo para se pensar e se sentir Portugal,
e para se fazer portuguesmente Portugal. Porque há muitas
maneiras de fazer Portugal, há a maneira... digamos apátrida,
mercenária, pacoviamente cosmopolita, e há uma
maneira essencial de ir por dentro dos nossos caminhos e termos
uma relação com os outros, uma relação
em que continuamos a ser nós.
Muito bem. Artur Portela, o autor de “História
Fantástica de António Portugal”, a quem eu
agradeço esta vinda ao “Escrita em dia”...Foi
ele o convidado desta emissão. Já sei que este
livro tem uma continuação, uma continuação
que é no século XIX, ou seja, passa do século
XX para o século XIX.
...É que, às vezes, avança-se indo para
trás. Porque podemos descobrir nesse passado coisas que
marcam o nosso futuro...
Muito bem. Aqui fica então a “História Fantástica
de António Portugal”, edição da D.Quixote,
o novo romance de Artur Portela. Dizia eu que estas 250 páginas
de romance são uma das recomendações do “Escrita
em dia”.
|