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"História Fantástica de António Portugal"

Entrevistas:

  - "Retratar e analisar a história de Portugal"- (Lusa)
  - “Uma peregrinação portuguesa” - Entrevista de Manuel da Silva Ramos - (Jornal do Fundão)

  - “ Será este livro, não uma banda desenhada, mas uma banda escrita?” - Entrevista de Paula Moura Pinheiro - (Programa “Três à Quarta”/Rádio Paris-Lisboa- RPL/25.02.04)
  - No final o país surge (...) em prisão preventiva - Entrevista de Rui Azeredo”/ “O Comércio do Porto”/ 3 de Março de 2004.
  - "A ironia é uma forma de amor"- Entrevista de Teresa Horta / ”Diário de Notícias”/ 7 de Março de 2004
  - "Uma das formas (...) de enfrentar a História(...)"- Entrevista de Nuno F. Santos / ”O Primeiro de Janeiro”/ Suplemento “Das Artes, das Letras”/ 8 de Março de 2004.
  -“Transformar portuguesmente Portugal” /Entrevista de Carlos Pinto Coelho/ Edição nº 267 do “Agora Acontece”, emissão radiofónica entre 22 a 28 de Março de 2004
  -“É uma alegoria de Portugal” /Entrevista de Francisco José Viegas / Antena 1 / Programa “Escrita em dia” / 23 de Março de 2004.
  -“A cultura portuguesa pode hipotecar-se na globalização” / Entrevista de Noémia Malva Novais/ “Diário de Coimbra” / secção “Temas de Domingo” / 28 de Março de 2004
  -“Aproximações de uma maneira de ser português” Entrevista de Carlos Câmara Leme /PÚBLICO / MIL FOLHAS/ 8 de Maio de 2004

 

"É UMA ALEGORIA DE PORTUGAL"

Entrevista de Francisco José Viegas / Antena 1 / Programa “Escrita em Dia” / 23 de Março de 2004.

Hoje o convidado é Artur Portela, autor de “História Fantástica de António Portugal” (...) Publicou o último romance há dois anos. O que é que espera deste livro?


...Bom, já há uma resposta do público...

Eu sei que o livro terá segunda edição...

...Diz-me o editor que sim. Espero pelo menos que o público se divirta tanto quanto eu me diverti a escrevê-lo.

Eu também me diverti a ler o livro por vários motivos (já lá vamos quando entrarmos no livro propriamente) Deixe-me só voltar atrás, voltar aos anos 60, quando Artur Portela era só, digamos, jornalista. Publicou nessa altura, em 62, “O Código de Hamurabi” que foi o seu primeiro romance, embora, antes disso, tivesse publicado já contos, narrativas. De qualquer modo, deixe-me passar por essa fase do jornalismo. Começou pelo Diário de Lisboa...

Comecei nos últimos anos 50. Era um jovem redactor, com dezanove anos, cheio de vontade de fazer reportagem. Fiz alguma. Cheio de vontade também de fazer jornalismo cultural numa perspectiva verdadeiramente jornalística, numa perspectiva ágil e seguidora dos acontecimentos, de análise, de notícia, de crítica...

E fez?

...Passou-me o meu pai a responsabilidade do suplemento literário e, durante três ou quatro anos, um jovem, com dezanove, vinte anos, vinte e um, tinha a seu cargo a gestão do suplemento literário do "Diário de Lisboa".

Que nomes é que circulavam pelo suplemento?

Já não o Gaspar Simões, mas ainda o Álvaro Salema, e outros...

O Álvaro Salema era um dos nomes...

Era. E era um crítico cuidadoso, severo, severo no bom sentido da expressão, rigoroso.

Entre 62, quando publicou “O Código de Hamurabi”, e depois 63, com “Rama, verdadeiramente”, e até 70 não publicou praticamente livros. Obviamente, foram anos em que se dedicou mais ao jornalismo, menos à literatura...

Bom, colaborava em jornais. Comecei, por exemplo, a colaborar no “Jornal do Fundão”...

De onde resultam, aliás, sete volumes de “A Funda”, das suas crónicas do jornal...

Crónicas de intervenção, de análise e de crítica política – a possível, na altura –, social, cultural...

Tanto possível que os livros não chegavam pacificamente às livrarias...

Alguns deles não. Um, o terceiro volume de “A Funda”, criou-me grandes problemas. Fui interrogado na então – já - DGS, porque era a ponta final do regime, já era o marcelismo com aquela rebaptização das instituições. Lembro-me de ter sido interrogado, por mais de uma vez, com a presença, inédita porque a legislação tinha, creio, acabado de ser alterada, do Francisco Balsemão, que não podia dizer nada, mas que estava lá como advogado. E ainda me lembro de, um pouco por audácia, um pouco por desafio, ter recusado assinar o auto que reproduzia as minhas declarações. O agente passou-me o auto para a mão, li, e disse: “Mas isto está cheio de erros de ortografia, de erros de construção, eu não assino isso!” O Francisco Balsemão, cuidadoso, dizia-me de lado: “Você assine, que nós não saímos daqui. Pelo menos você não sai...” Eu mantive: “Recuso-me a assinar!” O agente perguntou-me: “Então o que é que quer que faça?” “Eu dito.” E ditei as declarações, com ponto e vírgula, vírgula, parágrafo, ponto final, etc..

Nessa altura já assinou...

Porventura uma gavrochade! Mas acho que não ficou mal, sobretudo porque era merecida...

Não só defendia as suas crónicas como a língua portuguesa, portanto, na DGS...

Tanto quanto eu sabia e me era possível, não é?

...O que é que lhe perguntavam, exactamente?

Bom, eu era acusado de coisas terríveis, era acusado de insultos às mais altas magistraturas, incitamento à revolução, incitamento à rebelião. Havia o problema do dito ultramar subjacente a tudo aquilo, que era particularmente, como todos se recordarão (alguns se recordarão!...), particularmente grave, e sensível. E portanto a acusação era um libelo fortíssimo, não é? Sem o 25 de Abril, ter-me-ia acontecido, decerto, algo de consequente com a força daquele libelo.

Depois do 25 de Abril, aí, aparece-lhe uma experiência jornalística que já não tinha muito a ver com o “Diário de Lisboa”, que era o “Jornal Novo”, que foi, obviamente, um marco, nesses anos quentes, em 75.

Foram meses do ano de 75, mas foram meses que valeram porventura anos.

O “Jornal Novo” era conhecido pelas suas primeiras páginas, onde havia umas fotomontagens, também, os seus editoriais, que não eram propriamente editoriais políticos, estrito senso, com a seriedade habitual que se pede a um editorialista de um diário de referência, se quiser...

Sim, em termos tradicionais é isso que se pede. No entanto, nada impede que se peça outra coisa e que, sobretudo, se responda outra coisa. Que se faça um editorial com vivacidade, alegria, alacridade, intervenção, humor. Até porque os acontecimentos eram de tal maneira sortidos, de tal maneira vertiginosos, de tal maneira, vamos, inconsequentes... Cada dia somava vários dias! A realidade estava a pedir algo assim. E eu, que tinha tido uma experiência profissional mais ligada à criatividade, às artes gráficas, a um tipo outro de intervenção, acho que levei para o jornal essa alegria. Tentei...Daí as fotomontagens. Daí os títulos que mais tarde outras publicações vieram a fazer. Com muito talento, designadamente “O Independente” – pense-se o que se pensar do que “O Independente” é ou foi, ideologicamente – mas o talento transbordava. Ali, no “Jornal Novo”, bastante antes, tentava-se essa vivacidade, esses quase slogans em títulos...

Uma primeira página cartaz...

Uma primeira página cartaz. Mas “O Jornal Novo” não era apenas a fotomontagem, os meus textos e a primeira página. Tínhamos uma redacção que integrava nomes de grande qualidade, o Mário Mesquita, o Mário Bettencourt Resende, e muitos, muitos outros. Portanto, a qualidade do jornal estava, claro, apoiada num conteúdo mais extenso.

No entanto, quando se esperava que, depois do 25 de Novembro, o jornal não passasse a ser propriamente um jornal do regime, mas próximo da nova situação surgida depois do 25 de Novembro, nessa altura o Artur Portela saiu...

... Fui despedido, o Zé Sasportes foi despedido, o 25 de Novembro deu a reviravolta neste país que se sabe! Nós tínhamo-nos oposto à bomba colocada na Rádio Renascença, tínhamo-nos oposto à ilegalização do PC, tínhamos uma posição relativamente convergente com a posição designadamente dos nove, do Melo Antunes ...

O Documento dos Nove foi divulgado pelo “Jornal Novo”.

Foi divulgado no “Jornal Novo”. Num dia, com o jornal já a fechar, quando alguém achou que seria melhor publicar no dia seguinte, alguns de nós achámos que tinha de ser no próprio dia. E o jornal saiu para as ruas da cidade, já de noite, com ardinas improvisados aos gritos: “O Documento dos Nove, o Documento dos Nove!!!...” E foi um acontecimento, porque aquilo pegou, digamos, ateou fogo no interesse, na ambiência, na rádio, nas televisões, e por aí fora. O jornal está, na minha perspectiva, ligado ao acontecimento.

Depois “A Opção”foi, digamos, uma aventura de mais fôlego...

Tivemos que lamber as nossas feridas, não é?... A administração e a redacção do “Jornal Novo” constituíam uma convergência de interesses. Eles queriam uma coisa, nós queríamos outra. Fizemos um jornal no qual coincidimos circunstancialmente. O 25 de Novembro veio repor a verdade das nossas diferenças. Nós tínhamos uma posição de esquerda independente, socialismo independente, mais ideológico e cultural, não necessariamente filiado em termos partidários. Tal como não é o meu caso. Não era, não foi, presumo que não será. E então a administração cobrou, apresentou-se com os seus trunfos na altura. A "Opção” não, foi uma experiência de jornalistas.

Uma revista semanal.

Uma revista semanal, um pouco à “Nouvel Observateur”, um pouco à “Newsweek”, com aquela vivacidade, a ilustração, etc., com um grupo de colunistas magnífico, o Eduardo Prado Coelho, o Eduardo Lourenço, o Cravinho, o António Reis, o Lopes Cardoso, o Sena da Silva...

...O Eduardo Luís Cortesão...

...O Eduardo Luís Cortesão, de quem, aliás, vai sair, agora, proximamente, um livro com as crónicas, as belíssimas crónicas de intervenção e de pedagogia ética, de exigência moral em relação à revolução.

Tinha uma bela secção de cinema, já agora, se me permite...

Tinha uma belíssima secção de cinema...

Além das crónicas...

E não só... e não só.

E das reportagens...

E não só...

Tinha uma bela secção de cultura, digamos.

...Suponho ter tido o gosto de ter tido entre os leitores aquele que me está neste momento a entrevistar...

...Exactamente...era um leitor, embora, enfim, muito jovem, mas era...

Esses são os melhores!

É verdade, é verdade que foi pela “Opção” que aprendi muitas coisas de cinema. Estávamos nessa altura, no final da década de 70, e a “Opção” foi uma das revistas de referência. Nessa altura, o Artur Portela tinha publicado em 77 o “Marçalazar” que foi, digamos, a sua primeira ficção desde os anos 60, a que se seguiu a “Fotomontagem”. Enfim, os livros de política, de ficção política, sátira também...Mas deixe-me voltar um bocadinho mais atrás... Eu falava há pouco do silêncio em matéria de livros que vai do “Rama, verdadeiramente” até mais ou menos a 70. Em 70, publica um livro, que tem um título no mínimo original, chama-se “Essa é que é Eça”.

É um livrinho, um opúsculo, um livro de circunstância, uma análise crítica sobre a teatralização, as possibilidades da teatralização de Eça de Queiroz.

...Essa paixão por Eça é marcante na sua...

É, é marcante.

...na sua biografia e na sua bibliografia.

...A aproximação que eu fiz, que tive, durou bastante tempo... Naturalmente, ainda emerge. Mas neste momento isso está muito relativizado, com toda a consideração que eu tenho pelo grande talento e pela criatividade e inovação de Eça de Queiroz. Está dissolvido. Há autores que têm para mim, neste momento, uma importância maior, mais evidente. O que não impede que o Eça esteja na matriz, esteja no alicerce...

O Artur Portela trabalhou em teatro sobre textos do Eça...

Trabalhei...

“A Capital”, com Artur Ramos, e “O Crime do Padre Amaro”, com Mafalda Mendes de Almeida.

Exactamente.

E também, depois, mais tarde, em prosa, publicou “O Novo Conde de Abranhos”, e “O Regresso do Conde de Abranhos”. Sobretudo “O Regresso do Conde de Abranhos”, que também aproveita coisas da”Opção”....

Sim, como se o Conde de Abranhos tivesse existido, como se Z.Zagallo, o seu secretário, tivesse existido também, como se eu tivesse descoberto novos documentos, novas cartas...

O Conde de Abranhos existia mesmo nessa altura? Continuava a existir?

Ah, o Conde de Abranhos, bem, digamos que já existia antes do Conde de Abranhos de Eça de Queiroz...

Obviamente.

...Pelo menos desde o princípio do liberalismo, para não falar antes, não é? Porque é filho da passagem do antigo regime à revolução liberal, e, depois respira, vive, campeia, no rotativismo, etc. Mas continua a existir, em certo sentido, também: a vaidade, a arrogância, o oportunismo. Sim, sim, isso são, nem sei se defeitos, diria características quase inelutáveis da natureza humana com um picante muito português...

...Da natureza portuguesa...

...Da natureza portuguesa, não é? Mas eu creio que a realidade evolui com muita velocidade, torna-se muito mais complexa, e é preciso, porventura, um aparelho mais...Não digo mais talentoso porque o Eça é um talento enorme. Mas é preciso um aparelho respondendo mais à complexidade do nosso tempo, não é? Que o Eça já hoje dificilmente...

Havia mais Condes de Abranhos em 77 ou hoje?

Ah, bom, em 77, havia-os de uma forma mais vistosa, mais preopinante e opinante. Hoje em dia, o Conde de Abranhos é mais cauto, é mais empresário, é mais discreto, é mais concentracionário. É o homem das grandes concentrações, porventura tem gravatas, e porventura é capaz de ter um título.

(... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... )


Nós falávamos de Eça de Queiroz e eu esqueci-me de uma outra referência literária, que também me é cara, e a si também. O Cavaleiro de Oliveira. Aliás, soube que escreveu...

...Escrevi um estudo.

...Escreveu um estudo justamente sobre o Cavaleiro de Oliveira...

...Definindo-o como um aventureiro português do século XVIII, que é um fenómeno social, psicológico, afectivo, cultural, da época, não é?...Os aventureiros do século XVIII, epistolares e viajantes...E o português mais próximo (não propriamente tão exemplar como alguns exemplos franceses ou italianos) é justamente o Cavaleiro de Oliveira, que acaba protestante, queimado em efígie aqui no Terreiro do Paço...

São um bocadinho os seus textos, se me permite. Por um lado a sátira, a mordacidade, os personagens, a própria galeria, que deve um pouco a Eça de Queiroz, e esse lado da aventura, enfim, e a vida ...do Cavaleiro...

...Bem, isso é uma coisa que você não sabe...

...Pode ter... quero dizer que não é matéria minha. Mas de facto essas duas presenças são constantes...

...Significa que posso morrer protestante...

...Não se queimará a sua efígie, já é muita sorte...

Bem, houve um momento em que tentaram queimar a efígie, na ponta final do regime, com a apreensão d`”A Funda” III, e praticamente era um...

...Um auto de fé...

...Um auto de fé...zinho, não é?, sim...

A censura, que memória é que tem da censura, propriamente dita?

Ah, a censura e eu somos velhos amigos, amigos-inimigos, não é? Desde o princípio, desde as primeiras coisas que eu escrevi, no “Diário de Lisboa”, tinha dezassete, dezoito anos. Porque comecei a escrever antes de entrar para o “Diário de Lisboa”. Entrei com dezanove, e comecei a colaborar antes no jornal. Ora logo quando da minha entrada para o jornal, publiquei designadamente uma coisa chamada “Feira das Vaidades”...

...Exacto.

...“A Feira das Vaidades” como sabe, como muitos ouvintes sabem, é um romance do William Tackeray. Eu adoptei, ironicamente, o mesmo título numa secção do “Diário de Lisboa” e, depois, no meu primeiro livro. Livro que foi logo apreendido pela polícia política, que foi às livrarias e à editora, a exigir “A Feira das Vaidades”. Ora as livrarias tinham o meu livro, mas também tinham, claro, o romance do Tackeray. Pelo que algumas, não sem considerável habilidade, entregaram aos agentes da PIDE o romance dele. Do que resultou que, durante horas, até eles esclarecerem a situação, e voltarem às livrarias, o Tackeray, o pobre Tackeray, o romântico Tackeray, foi aprisionado pela polícia salazarista. Curioso...Bom, nessa secção “Feira das Vaidades” eu publiquei, por exemplo, uma alegoria, que era uma coisa passada na China, com um mandarim chamado Whu, crudelíssimo, severíssimo, que geria o império de uma forma absolutamente implacável. Aquilo saiu uma vez, saiu duas vezes, saiu três vezes, até que tocou o telefone de Estado! Os jornais tinham um telefone de Estado, era assim um telefone de uma cor diferente, que ligava directamente ao poder, ao Governo. Aliás, era um jornal republicano, simpático, aberto, não muito agressivo contra o regime, mas suficientemente crítico. E então toca o tal telefone! O Norberto Lopes vai ao telefone e era, do lado de lá, creio que o Teotónio Pereira, Ministro da Presidência, a dizer: “Estas crónicas, isto é um retrato do Sr. Presidente do Conselho! Nós não admitimos isto! Vocês tentam publicar mais isto e o jornal fecha!” E então acabou o mandarim Whu, que eu depois publiquei, exactamente no primeiro volume d`”A Feira das Vaidades”. Daí a apreensão e a proibição, daí o William Tackeray na cadeia...

Sobre o jornalismo, estávamos aqui a falar de três livros sobre as suas experiências jornalísticas. Estávamos a falar do ”Código de Hamurabi”, estávamos a falar da “Fotomontagem” e d`”A Manobra de Valsalva”, que saiu muito recentemente. Eles retratam três experiências diferentes da sua passagem pelo jornalismo...

Sim, ”O Código de Hamurabi” correspondia ao jornalismo dos anos 50, primeiros anos 60, jornalismo de papel. Bairro Alto, Rua Luz Soriano, rotativas antigas, rivalidade com o “Diário Popular”... O “Diário Popular”, com uma máquina muito mais acelerada e muito mais moderna, a do “Diário de Lisboa” mais romântica e mais asmática. Tanto e de tal maneira que nós estávamos à varanda, os repórteres, os redactores, tentando ouvir. “Eles já dispararam com a máquina?!” Porque, com os horários dos comboios, era fatal para nós, não é? Bom, mas era um jornalismo romântico, literário, político mas veladamente político – assim o impunha a censura. Mas também era o estilo da época, não é? Um jornalismo que ia dali para as ceias e para os teatros e para os cafés. Que acabava, fechava o jornal, afastava as secretárias e fazia uma sala de armas, esgrimia ali dentro!... Ainda é da tradição do meu pai, apanhei ainda essa ponta final, fui colega de jornalistas notabilíssimos, o Norberto de Araújo, um homem muito a ligado a Lisboa, o Rogério Peres, El terrible Perez, um homem ligado aos touros, e por aí fora, grandes jornalistas, o Mário Neves, o Ribeiro dos Santos, o Norberto Lopes, o Padre Joaquim Manso, padre que foi o primeiro director do ”Diário de Lisboa”. Era uma redacção muito viva, muito notória, com muitos afluentes culturais, artísticos. Entrava o Almada, saía o Botelho, havia ilustrações ilustres, a crítica era o Gaspar Simões. Realmente um viveiro cultural, político, etc, mas romântico. E os jornalistas eram os protagonistas. Com o segundo livro, que referiu...

...”A Fotomontagem”...

... “A Fotomontagem” corresponde a outro jornalismo. “A Fotomontagem” é o retrato de um jornal visto de uma revolução e de uma revolução vista de um jornal. Um jornal rápido e improvisado, a responder, a seguir, a entrevistar, a viajar, a participar na revolução, praticamente, a vivê-la, a acompanhá-la, não é? Em directo quase permanente! Mas, atenção, com uma administração já a tentar pôr o pé no ramo verde que era – orgulhoso, vaidoso, porventura incauto – a redacção. O 25 de Novembro vem repor a ordem digamos natural da hierarquia capitalista, já meia, se não fundamentalmente, neo-liberal...

...Vem transportar as administrações para o jornal, propriamente...

Vem, vem transportar...Embora eu, um dos gestos de que me orgulho relativamente está nesse, vamos, transporte... Foi assim. O jornal ia fazer uma mesa-redonda com alguns protagonistas políticos e político-militares da altura. Telefonou-me um dos três administradores – que aliás até eram simpáticos, relativamente simpáticos, embora depois fossem, coerentemente, os nossos despedidores – a dizer :”Nós gostávamos de assistir”, “Assistir? Mas vocês são da administração, vocês não são jornalistas”, “Mas gostávamos de ver. Não se importa? Ficamos lá calados, ao fundo...” Eu respondi: “Isto não é um espectáculo. Os senhores não apareçam!...” Dito e feito, apareceram. Apareceram, e então começaram a entrar os militares todos, os políticos, para a sala. Era uma sala muito grande de uma casa apalaçada, ali sobre o Alto de Sta. Catarina, à vista do Tejo, muito bonita, com uma vista lindíssima. Começam a entrar, entra todo o establishment político para a mesa-redonda. E depois entram os administradores do jornal. E eu, perante toda aquela gente ali sentada, disse: “Os senhores, administradores, out! Os senhores saem!”, “Nós?!...Mas nós somos os administradores!...” “Os administradores, sim senhor, digamos, são respeitados como administradores, mas estão aqui a mais! Pelo que saem!” Saíram, muito amolgados, e muito feridos. Porventura isso terá ajudado à sua decisão após o 25 de Novembro...

...E finalmente, “A Manobra de Valsalva”, que reflecte uma experiência, então, completamente diferente.

Completamente! Uma perspectiva de um órgão regulador dos media – que não é esse... Aquele em que porventura estará a pensar...Um órgão regulador, e agora falo em geral, não é necessariamente um órgão monstruoso. Porque, em princípio, persegue fins nobres, em defesa das liberdades, da autonomia, da independência, etc.. Em alguns casos concretos, com uma lei muito insuficiente. E com resultados que decorrem, não apenas de insuficiências dos próprios órgãos, mas bastante da insuficiência da lei.

O seu alcance era limitado, quer isso dizer que o seu poder era muito limitado?

Falo agora de um órgão regulador concreto. Esse. O seu poder, na minha perspectiva, é limitado. Deveria ser reforçado, ampliado. Mas “A Manobra de Valsalva” não refere um órgão concreto. Fala, sim, da globalização, da interactividade, do poder dos audiovisuais. E fala de um outro jornalismo, um jornalismo de tronco para cima, um jornalismo que debita, um jornalismo que se exibe. Um jornalismo (falemos outra vez das gravatas, não agora dos títulos nobiliárquicos) que aparece muito engravatado e muito maquilhado mas que não é o jornalismo de intervenção que eu favoreço. E não em termos necessariamente românticos e passadistas. Mas em termos de modernidade e de futuro. Um jornalismo com consciência social, com consciência cultural, com consciência política, e com as responsabilidades inerentes. Não, portanto, às vedetas que se podem adquirir, sim a homens que, podendo ser merecidamente pagos, tenham consciência e sentido das responsabilidades. Não podendo o patronato e os títulos onde esses jornalistas se inserem constituir álibis para o seu desempenho. Desempenho que tem de ser independente, autónomo e responsável.

Quando fala na consciência social e política dos jornalistas, isso não quererá dizer que haverá uma agenda dos jornalistas, haverá um programa dos jornalistas, quer dizer que os jornais podem passar a depender dos interesses e das inclinações políticas dos jornalistas? Isso não é um risco?

...Quando eu falo em política não falo necessariamente em política partidária. Política é uma coisa mais ampla do que a política partidária...

Obviamente...

...Consciência política é consciência social, cultural, económica, e uma perspectiva sobre as inerentes democracias, a social, a cultural, a económica, etc.. Portanto, não. A questão central, para mim, é a de independência dos jornalistas relativamente às estruturas empresariais, aos ditames empresariais, que, de uma forma mais ou menos directa, mais ou menos implícita, condicionam essa liberdade. Porque se pode condicionar a liberdade dizendo: “Escreves sobre isto e escreves contra aquilo!” É a grosseria antiga, antiquada, do patronato grosseiro. Mas pode-se fazer exactamente o mesmo, de uma forma muito mais hábil: condicionando, cortando, circunscrevendo, afogando órgãos de comunicação social que têm o seu público e o seu carácter, limitando-os, reduzindo-os. Reduzindo-lhes o papel, as páginas, os espaços, o tempo, a visibilidade, não é?

Muito bem, esse é o lado da imprensa. E agora entramos nesta “História Fantástica de António Portugal”. É o nome do personagem é o nome de um personagem que atravessa todo o século XX português.

Sim, sim, pertence a uma família, os Portugal, que têm esta fatalidade, ou esta vantagem, de viverem muito tempo. E normalmente vivem quase cem anos...

...O que os leva a atravessar várias comédias políticas e várias tragédias...

Justamente. Este António Portugal , que corresponde à fatia da família Portugal do século XX, começa por assistir ao assassínio do Miguel Bombarda, chefe civil da revolução do 5 de Outubro, por um louco, por um tenente louco, e não pelos jesuítas, conforme na altura logo se especulou. Depois, há um flashback ao regicídio, ele ainda muito jovem...Ele é, digamos, filho daquele operariado culto, maçónico. Filho daquela Lisboa febricitante, nocturna, de agitações, e de expectativas, já socialista, ainda republicana, já socialista e por aí fora... E vai começar a atravessar o século...

...a contactar de perto com todos os personagens...

...Com alguns personagens...

...Lembro-me de Afonso Costa...

... Convive com eles, um pouco como o Zelig, de Woody Allen...

Exacto, o Zelig, de Woody Allen...foi a imagem que eu retive,

Há essa convergência. De qualquer maneira, o Zelig é uma história, enfim, de um personagem excepcional, não é propriamente um retrato, ou não pretende ser, uma espécie de crónica da vida norte-americana. Este meu livro tende, é pelo menos visto como uma espécie de crónica, ou se quiser carónica, da vida portuguesa ao longo do século XX. Este António Portugal assiste à fuga da família real..

...Tem uma imagem muito bonita, essa cena, essa cena da fuga da família real, na Ericeira, em que as únicas bandeiras que haviam eram as saias das senhoras...

...Justamente. A Ericeira ventosa, os vestidos eram lindíssimos, as senhoras...

...A saia da Rainha...

...A saia da Rainha era, tinha de ser, a maior de todas...A Rainha, que, na cena do regicídio, lembrar-se-á, pega no ramo de flores que trazia e bate com as flores no regicida que lhe está a matar, ou que acabou de lhe matar, o filho... É uma situação que eu quis lírica e emotiva. Porque, aliás, eu procurei neste livro – tendo embora eu, as minhas, claro, opções ideológicas, culturais, etc., e estando muito mais do lado do António maçónico, republicano, socialista, digamos, insubmisso, anti-oliveirista, e por aí fora – ter compreensão, e até ternura designadamente pela dor da Rainha, tal como uma certa admiração pela coragem, pelo desassombro de um general Gomes da Costa...

Exactamente.

...Que justamente, na Guerra de 14-18, onde o António Portugal aparece como galucho, solta...

...“Um General nunca s` agacha!”

“Um General nunca s` agacha!”. Os boches disparavam, disparavam, disparavam, ele era muito grande, ultrapassava em altura as trincheiras...

...E o António Portugal diz-lhe: “Agache-se, meu General!”...

... E o general responde: “Um General nunca s` agacha!...” Posso dizer a palavra, aqui?

Pode, pode...

...seu cabrão!”.

Exactamente, “Um General nunca se agacha, seu cabrão!”

Depois, aparecem todos os outros personagens, aparece o Sidónio, que é assassinado...

E aquelas manifestações de apoio ao Sidónio Pais...

...As manifestações de senhoras de Lisboa – contava-me a minha mãe –, e no livro está essa situação reproduzida –, senhoras porventura de média-alta ou alta sociedade, que iam para as varandas quando passava o Sidónio, que era um homem assim varonil, num cavalo...

Bem vestido...

...Bem vestido, fardado, a espada, etc., tudo, não é?, e as senhoras gritavam das varandas, atirando-lhes papelinhos e flores: “SI-SI, DÓ-DÓ, NI-NI, Ó-Ó!”. E ele passava. Bem, este homem acaba por ser assassinado na estação, numa estação de caminho-de-ferro, a caminho do Norte. Aí está também o António Portugal...

O regicídio também...

O António Portugal está...vai estando...

Ele está em todo o lado...Está na noite sangrenta, por exemplo, não é?

Está na leva da morte, exactamente...

Onde morreu o António Granjo...

E o Machado dos Santos...

É uma das cenas violentas, obviamente, do livro...Nota-se ali o peso, o peso do chão, que oscila sobre o peso dos corpos...

Exactamente, sobre o peso dos corpos, e até porque...

...dos marinheiros...

...dos marinheiros... Lisboa, toda ela, na altura, era uma Lisboa, digamos, de escadas, de colinas, de subidas, de descidas. Aí já oscilava a cidade como se fosse um barco. Aliás à beira do Tejo. Lisboa está a navegar no Tejo, por assim dizer, não é? Depois, mais para diante, o António Portugal assiste à chegada do Dr. Oliveira...

O Dr. Oliveira...

...que vai ser o inimigo jurado do António Portugal, que ele tenta torpedear lançando-lhe fogo à sua Exposição do Mundo Português.

Exactamente.

...apoderando-se, com o Capitão Gavião, de um zeppelin sobre o Atlântico, e raptando, finalmente...

O Capitão Gavião, que é obviamente, uma alusão...

Que é obviamente, uma alusão...essa! Que é uma alusão a uma grande figura, não é?, um homem de olhar longo, africano, grandes espaços, etc.. Mas melancólico, de certa forma melancólico, e pudera! Bom, e depois temos o 25 de Abril, com os qui pro quos digamos, de go between entre um general, que aliás aparece aqui como...

Spaniel...

...Spaniel, exactamente, e uma outra figura, o chefe do governo em queda. Depois temos o 25 de abril, temos a adesão de Portugal à Europa – que o António Portugal também tenta tornear ...

Exactamente...

Temos um Dr. Nobre..

Um Dr. Nobre...

...que o Dr. Mário Soares, apresentador deste livro, reconheceu imediatamente: “Este Nobre sou eu!” Com aquela aisance que o Mário Soares tem, com aquele seu poder de encaixe notável...

...e aí o Artur Portela diz: “Não sei”...

Não, eu não disse...por acaso não disse “Não sei.” Na altura, disse: este homem tem capacidade para reagir assim, foi o único Presidente da República que teve capacidade para abrir os salões do palácio presidencial, em Belém a uma exposição de caricaturas contra ele! Isto tem qualidade, não é?

Obviamente.

Tem qualidade. De maneira que era capaz de merecer eu evitar o “não sei” e dizer “é, sim senhor!”. E por aí fora esta viagem do António Portugal ao longo do século XX português, até à actualidade. Até chegarmos a este momento. O livro, que começa num hospital de loucos, acaba num hospital de loucos, com o António Portugal...

Porque não esqueçamos que António Portugal foi nomeado ministro.

Foi nomeado ministro pelo próprio Dr. Oliveira..

... dos Transcortes...

...Ministro dos Transcortes...De maneira que acaba por ser todo esse trajecto. E, naturalmente, saltámos várias coisas. Olhe, saltámos o futebol, saltámos o fado, saltámos...

O fado que aparece através das namoradas, de uma das mulheres do António Portugal...A Abília...

Abília, exactamente, Abília, que é... Já me perguntaram diversas vezes: “É a Amália ou não é a Amália?”Porque é muito a Amália... E a resposta que eu dou é assim: na medida em que a Amália simboliza o fado e em que esta Abília pretende simbolizar o fado, elas convergem e...podem ser identificadas. Nesse sentido, sim. Agora, retrato de corpo inteiro, não é. Não podia ser, ou o livro não era uma ficção.

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Há pouco, na primeira parte do programa, utilizou três vezes uma palavra: alegoria, que é, justamente, aquilo que me recorda este livro ou aquilo em que este livro me faz pensar, neste livro. É uma alegoria sobre Portugal, também. Que termina, aliás, de uma forma espantosa, com um capítulo em que se utilizam os códigos das mensagens SMS, o K em vez de QUE, o teclar. Mas, pelo meio, pelo meio, pelo meio desses kapas e QUÊS, desse teclar, há uma outra realidade, que são os beijos da Genciana, uma das personagens mais bonitas, se quiser, deste livro.

Termina com esses sinais e termina também com... Assim: à pergunta que o tio-avô António Portugal faz ao sobrinho-neto: “Tu como é que te chamas?”, o sobrinho-neto responde: “Portugal!” Ou seja, em linguagem já da globalização, a linguagem de um império, não é? E não apenas o império que a nação... que se sabe está a erguer. Mas um império mais geral, mais global, mais apátrida. Bom, nessa dialéctica entre essa sinalética e essa identificação de Portugal com “Portugal” e não com “Pórtchugol” e estes beijos da Genciana que António Portugal quer lembrar, quer saber a que sabiam, há, creio, a relação entre o que é eterno, o que é essencial, o que é fundamental e criativo, que é o amor, e esta circunstância de linguagem técnica, paracultural, porventura cultural, mas que terá de ser superada, aprofundada, não é? E este livro é essa dialéctica, esse combate e essa viagem...Sendo também, julgo, um jogo entre e o drama e o riso, entre a lágrima e a gargalhada, entre, por exemplo, Gogol...

...Exacto...

...e Gogol. Porque o Gogol é exactamente essas duas coisas. Tal como é o Charles Dickens. Como vê, já não é só o Eça...

Exactamente.

...e não são apenas escritores do século XIX. E volto a essa dialéctica entre a novidade e a essencialidade. E estamos nisso, Portugal está nisso. É aqui que se vai jogar o nosso destino. É preciso não sacrificar o que é que há de essencial...

E o que é que há de essencial?

A sensibilidade, a inventiva, a pesquisa, a procura, a aceitação da diferença e o fazer – como dizia um poeta que não era português, mas era ibérico – , fazer o caminho, andando, não é? E há muito caminho a fazer, por muito conhecido que o mundo esteja, há muitos mundos neste mundo, e há muitos mundos neste mundo que não são conhecidos. Sê-lo-á apenas a superfície, a crosta – embora, claro, o Capitão Cook ou o Vasco da Gama tenham alcançado muitas e largas coisas. Mas há muitos mundos a fazer, mundos interiores, mundos culturais, mundos nacionais. Designadamente, a batalha da identidade nacional. Este livro, este António Portugal sorridente, irónico, às vezes dramático, é, pretende ser, um contributo para se pensar e se sentir Portugal, e para se fazer portuguesmente Portugal. Porque há muitas maneiras de fazer Portugal, há a maneira... digamos apátrida, mercenária, pacoviamente cosmopolita, e há uma maneira essencial de ir por dentro dos nossos caminhos e termos uma relação com os outros, uma relação em que continuamos a ser nós.

Muito bem. Artur Portela, o autor de “História Fantástica de António Portugal”, a quem eu agradeço esta vinda ao “Escrita em dia”...Foi ele o convidado desta emissão. Já sei que este livro tem uma continuação, uma continuação que é no século XIX, ou seja, passa do século XX para o século XIX.

...É que, às vezes, avança-se indo para trás. Porque podemos descobrir nesse passado coisas que marcam o nosso futuro...

Muito bem. Aqui fica então a “História Fantástica de António Portugal”, edição da D.Quixote, o novo romance de Artur Portela. Dizia eu que estas 250 páginas de romance são uma das recomendações do “Escrita em dia”.