Conversa de Domingo com Artur
Portela, jornalista e escritor
Entende que as fronteiras entre o jornalismo e a literatura
são muito ténues. Defende que o jornalismo pode
ser uma forma de literatura muito honrada e muito criativa.
Como no caso de Ernest Hemingway. E que a literatura pode ser
jornalística. Como evidencia John Steinbeck. Faz questão
de se apresentar como português, 60 e alguns anos, seis
filhos, dois ou três jornais dirigidos. Assume que o
seu romance "História Fantástica de António
Portugal" é autobiográfico. Pertence, há uma
década, à Alta Autoridade para a Comunicação
Social e, como o órgão vai ser substituído
por outro com o qual não se identifica, Artur Portela
vai continuar a escrever livros
DIÁRIO DE COIMBRA (DC) - Quem é o António
de "História Fantástica de António Portugal",
um personagem fantástico mas com base real?
ARTUR PORTELA (AP) - A base real é a
simbologia que através dele se pretende alcançar,
uma certa maneira portuguesa de ser num período longo,
de quase um século. É uma figura que simultaneamente é fantástica
mas pretende descobrir a nossa maneira, a nossa cultura, a nossa
sensibilidade, as nossas qualidades, os nossos defeitos, na perspectiva
do autor.
DC - O António Portugal começa jovem...
AP - Começa ainda jovem, assiste ao
regicídio, vai assistir ao assassínio de Miguel
Bombarda, porque foi ao hospital onde estava a tia-avó chamada
Carlota Joaquina; atravessa a História portuguesa contemporânea;
está num momento de um eventual atentado contra Afonso
Costa, em que este se lança do eléctrico e parte
partes do corpo; encontra-se com Sidónio Pais e está no
momento em que é assassinado na estação
de caminho-de-ferro; está na Primeira Guerra Mundial onde
se encontra com Gomes da Costa. Vai assistir à entrada
de um Dr. Oliveira que se vai apoderar do poder muito longamente.
DC - Este António Portugal vai ser um adversário
desse Dr. Oliveira?
AP - Será um adversário jurado
desse Dr. Oliveira, porque este António Portugal é um
maçónico, republicano, de cultura socialista. Toma
o Dr.Oliveira como adversário e tenta atingi-lo, no simbólico,
em várias situações. Tenta lançar
fogo à Exposição do Mundo Português,
assalta com um capitão Gavião um zeppelin sobre
o Atlântico, assiste ao solavanco do 25 de Abril, entra
num certo rotativismo da II ou III República e chega aos
dias de hoje com um país mais ou menos em prisão
preventiva.
DC - Há a preocupação de seguir, em ficção,
os acontecimentos que marcaram a História do século
XX português. É uma tentativa de romancear a História,
tornando-a mais leve?
AP - Há alguns acontecimentos, numa
ficção não vamos cobrir todos os acontecimentos.
Não é bem um romancear da História, é mais
uma invenção da História, indo pela banda
do fantástico para alcançar uma perspectiva mais
verdadeira, mais penetrante, mais crítica. Há momentos
em que a História é driblada intencionalmente.
Dou-lhe um exemplo: aparece aí um A. Reis que alguns observadores
identificaram com o Alves dos Reis...
DC - Que não aparece como um burlão mau...
AP - Não aparece como um burlão
mau e aparece sobretudo absolvido. O Alves dos Reis foi condenado
e esse A. Reis é fundador de uma dinastia empresarial
e financeira que hoje em dia está no poder económico
e político. Falseia-se, reinventa-se, fantasia-se a História
para se fazer uma perspectiva crítica, satírica,
irónica sobre a realidade portuguesa.
DC- Essa reinvenção do Alves dos Reis parte do
princípio de que hoje ele teria outro destino?
AP - Sim, admito que ele teria outro destino.
Porventura, seria mais hábil, mais profissional, mais
tecnológico, mais tecnocrata na sua burla. Naquilo que
faria, utilizaria a sua imaginação em moldes mais
habilmente legais. Podiam não ser morais mas tacticamente
legais.
"Este livro... procura harmonizar figuras que são de
um campo oposto da minha opção ideológica"
DC - Uma vez que a sua área académica é a
História, crê que é mais fácil reinventar
a História e escrever um romance fantástico ou
fazer uma investigação histórica?
AP - A minha área académica
parte daí e este livro reúne as duas paixões.
A paixão pela História e a paixão pela ficção.
São duas realidades com naturezas diferentes. Eu gosto
de fazer ambas as leituras. Embora não seja uma diferença
absoluta. A própria objectividade tem sempre uma margem
de subjectividade de interpretação e, de alguma
forma, enquanto historiadores, estamos a interpretar e a hipotetizar.
A ficção é isso de uma forma mais alargada,
menos responsabilizada factualmente.
DC - A cor dos olhos do António, que são verdes
rubros, é uma alegoria às cores nacionais?
AP - Sim, às cores nacionais, republicanas.
DC - Aqui encontra-se o autor republicano?
AP - Sim, sem dúvida, embora, neste livro, sendo sobre
nós, os portugueses, sobre Portugal, sobre um português - Portugal,
procura encontrar plataformas, convergências, dialécticas
e procura harmonizar figuras que são de um campo oposto
da minha opção ideológica. Por exemplo,
um Sidónio, um Gomes da Costa, a família real,
aparecem tratados com algum cuidado, na medida em que nós
somos tudo. Somos o norte e o sul, os brancos e os azuis, os
verdes e os rubros.
DC - É uma tentativa de reconciliar Portugal consigo
próprio e com a sua história, com algum humor?
AP - Também, com algum humor, reconciliar.
A figura, porventura, menos aceite pelo livro e pela sensibilidade
do autor é o Dr. Oliveira. Mas também não
implacável e cruelmente tratado. É tratado com
maior distanciamento. Será necessário esperar mais
algumas dezenas de anos para não ser tão assim.
Está em carne viva, ainda...
DC - Como nasceu a ideia de criar este século
XX português?
AP - Por um lado, é o meu século,
sou eu e a minha memória. Pelo menos a minha perspectiva.
Eu acho que tenho andado a escrever este livro há dezenas
de anos, embora ainda não o tivesse pensado e titulado.
Mas, ao longo dos meus livros, tenho andado a fazer uma espécie
de retrato, de análise, de observação crítica,
e no livro há também a minha própria história.
DC - O livro pode contribuir para despertar a curiosidade acerca
dos acontecimentos que protagonizaram o nosso século XX?
AP - Se assim for ficarei muito recompensado,
embora esse não seja um objectivo organizado. Algumas
pessoas têm observado que para ler este livro é preciso
ter a chave dos acontecimentos. A minha esperança é que
o livro esteja aberto àqueles que conhecem História,
porque vão reconhecendo, e aberto também àqueles
que, embora não a conheçam, não reconheçam
os momentos chave e as figuras chave, entrem pela banda da ironia,
do humor, da fantasia, porque são contos, com base real,
mas contos.
DC - O próximo livro vai contar a história do
pai do António - o Manuel - vivida no século XIX?
AP - É o século XIX. É Manuel
Portugal. Começa com a fuga da família real para
o Brasil, a chegada das tropas do Junot e vai acabar com o assassinato
de Miguel Bombarda. E se tiver tempo gostava de ir para trás.
Até já tenho uma hipótese de estrutura para
o século XVIII. A protagonista será uma mulher,
aristocrata liberalizada, aberta ao mundo.
DC - O estilo do livro, a linguagem, não será,
porém, acessível ao público em geral...,
sei que é um estilo seu...
AP - Pois, é um estilo meu. Se mudasse
o estilo seria uma traição e uma hipocrisia. Estar
a facilitar, ou seja, estar a tornar light para agradar. A literatura
light pesa excessivamente! Tenho contactado com diversos tipos
de público e gostaria que o público jovem entrasse
no livro pela via da fantasia e do divertimento e se deixasse
impregnar por algumas das questões do que fomos e do que
somos.
DC - O livro é um romance histórico inteligente. É uma
tentativa de abrir horizontes?
AP - (...) Gostaria que se estabelecesse uma
cumplicidade de inteligência entre aquilo que o livro pode
ser e aquilo que os leitores exigem do livro, porque cada leitura é um
livro novo, é um acréscimo, são páginas
a mais...
DC - É um livro preocupado com a preservação
da identidade nacional?
AP - Gostava que o livro fosse pelo bem da
compreensão do que somos e da realidade portuguesa. Isso,
particularmente, é uma grande preocupação
minha: a preservação da identidade nacional num
mundo em globalização, em interactividade, em que
tudo já está sufocado no espaço da globalização,
em que a língua portuguesa, a cultura portuguesa e a própria
sensibilidade podem-se hipotecar, deixar submergir e colonizar
nessa globalização.
DC -O livro não termina de uma maneira optimista. O António
termina no hospício e o país em prisão preventiva...
AP - Sim, no entanto o livro acaba falando
no sabor dos beijos da Genciana e o sabor dos beijos da Genciana é o
amor e o amor é a criatividade e é o futuro.
DC - Mas a Genciana também é a República.
AP - A Genciana poderá ser a República
sim. Mas não é só a República. É a
feminilidade, é a mulher, é a vida, a criatividade,
a continuidade e o futuro. Embora ele esteja perante aquele sobrinho
já um pouco hipotecado ao portugalês insiste no
amor e nesse assunto está o futuro.
DC - O protagonista também está numa espécie
de prisão preventiva?
AP - Não necessariamente, ele não
está mas está a observar que o país está.
Não está assim tão louco. Aliás,
o autor também usa AP e, se calhar, subconscientemente,
a escolha não foi por acaso. Parte da ideia de que o país
se liberte dessa auto-prisão, porque é uma histeria,
uma precipitação, um excesso de zelo. É preciso
que a Justiça faça justiça, fazendo justiça
a si própria. A justiça condicional tem os seus
limites, não pode converter o país numa espécie
de presídio e depois perder a chave ou lançá-la
fora.
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