"História Fantástica
de António Portugal", o mais recente romance de Artur
Portela, que tem por protagonista António Portugal, foi
publicado pela Dom Quixote e entrou para os "tops" dos livros
mais vendidos. Mário Soares, que apresentou o livro em
Lisboa, considerou que se está "perante a vida de um António
Portugal que é, afinal, o próprio Portugal". Esta
aventura do António Portugal atravessa um século.
Para Artur Portela, este não é um "romance histórico
estrito", na medida em que não reconstitui com rigor. É uma
história fantástica. Insere a fantasia na história
e a história na fantasia. Reinventa a história.
Procura dar-lhe, aqui e ali, a volta.
O romance começa com um facto histórico
verídico, o assassinato de Miguel Bombarda, a 3 de
Outubro de 1910, um dia antes da sublevação
republicana. Mas rapidamente história e ficção
se entrecruzam estonteantemente. Pode dizer-se que para si
a história não tem sentido sem a ficção?
Decerto, a história tem sentido sem a ficção.
Ela é minha formação de base. Mas o que
este livro conta, envolvendo referências a factos históricos, é evidentemente
sobretudo uma ficção. Pelo que, no caso desta História
Fantástica , nem essas referências teriam sentido
sem a ficção nem a ficção teria sentido
sem essas referências.
Este António Portugal, com os seus olhos verde-rubros,
com o seu amor por uma Genciana que terá talvez pousado
para o busto da República, herói ora decisivo ora
mais ou menos acidental de lances que vão desde a revolução
republicana aos nossos dias, claro, que se aproxima de uma maneira
de ser português. Na medida em que o autor tiver conseguido
haverá uma aproximação a Portugal.
António Portugal é Portugal. Mas é ao
mesmo tempo muitos portugais. Nunca se sabe muito bem onde é que
o vamos encontrar - se nas trincheiras da I Guerra Mundial
se a sonhar com voos atlânticos ou nos braços
de Genciana? Qual é o seu António Portugal?
Identifica-se com ele? Pode dizer: "António Portugal
sou eu"?
António Portugal serei eu, claro, como autor do livro.
Como serei também os outros personagens. E, tanto quanto
tiver alcançado a aproximação à maneira
portuguesa de ser, também aí estarei. Com muito
gosto, aliás. Este livro, gostava eu que fosse uma declaração
de amor a este país e a esta sua forma de o levar por
diante. O patriotismo não tem de ser um conservadorismo.Com
esse ou outro nome, sempre foi e é a nossa saída
para todas as crises. Hoje, simultaneamente para a crise da nossa
identidade e do défice da nossa modernidade.
Num primeiro momento, António Portugal vê um
louco matar Miguel Bombarda, mas não é certamente
por acaso que, ao longo do livro, loucura e lucidez entrecruzam-se. É como
se loucura e razão fossem dois lados de uma mesma
moeda. Concorda?
Decerto há, em António Portugal, como em todos
nós, essa loucura paredes-meias com a razão. Como
são toda a loucura e toda a razão. Como de facto
os antigos sabiam e o mundo contemporâneo, não o
sabendo tão bem, abundantemente demonstra. Devendo acrescentar-se
que a nossa, a portuguesa, terá particularidades. Que é bastante
do que tenta falar, com sinceridade e julgo que com muita ternura,
este livro.
O melhor resumo sobre o que o narrador pensa sobre
Portugal aparece já no final fdo romance quande escreve,
por exemplo, que somos um país "tão enforcador
e forcado" ou "tão salgado, tão negreiro",
ou "tão ateador de fogos". Não há volta
a dar: esta contradição latente é a
essência de Portugal?
Estou de acordo que essa passagem pode constituir um resumo,
pelo menos dos traços e dos gestos deste António
Portugal. Claro que contraditório António. Como
todo o ser humano é, e ainda bem que é. Ser contraditório é,
passe o paradoxo, ser coerente. Coerente com a condição
humana. Aqui e ali, nós, portugueses, exageraremos. Exageros
que andarão por alguns passos da narrativa.
É por isso que, como António Portugal
ou Fernão Mendes Pinto, somos todos andarilheiros?
O seu cotejo com Fernão Mendes Pinto é generoso
e é uma parada alta. Claro que Fernão Mendes só pode
ser também um antepassado, um colossal antepassado, deste
meu António Portugal. Que não seria, este, o que é se
a nação não tivesse sido também Fernão
Mendes e a sua maneira. Com certeza que andarilheiro, e António
Portugal é andarilheiro. Vagamundesco: africano, atlântico,
brasiliano. Tal como aventuroso, lutador, insubmisso, triunfante,
derrotado, divertido, sofredor, pessimista, optimista. E por
aí fora...
A vertente irónica é uma das vertentes
fundamentais do seu romance, mas que é combinada com
o pícaro. Onde é que julga que se começa
a traçar as fronteiras?
Sim, haverá uma vertente irónica. O riso terá,
aqui, se se quiser, uma geometria e uma intensidade variáveis.
Por vezes, a ironia, com inflexões para o humor. Mas também,
talvez, com intensificações para a sátira.
Já se falou, a propósito, do pícaro. Também
será, em alguns lances, pícaro este personagem.
Um pícaro heróico. Um pícaro que vira heróico,
por capacidade, por vontade, por imposição das
circunstâncias. Não haverá, ou quase não
haverá é sarcasmo. No sentido em que este livro,
falando de Portugal, deste António e do país que
leva dentro e há à sua volta, é um livro
de amor a esta terra e a estes portugueses. Pelo que não é nem
maniqueísta nem um ajuste de contas. É um livro,
não recuperador de tudo e de todos, mas integrador. No
sentido de que nós somos tudo. Somos tudo o que fomos
e o que fizemos.
São os exemplos de um...
... Sidónio ou um Gomes da Costa sejam, claro, politicamente
caracterizados, mas também evocados pela sua portuguesa
coragem. Tal como, de outros lados ideológicos, o sejam
o herói republicano da Rotunda abatido na Leva da Morte
e, muito depois, o chefe da oposição assassinado,
queimado e enterrado, na fronteira com a Espanha.
Mas esse riso quase que constante é subtilmente
combinado com uma certa melancolia...
Há quem tenha notado que esta História Fantástica
de António Portugal ri e chora, às vezes
em simultâneo, outras vezes intercaladamente. Talvez
ria com o confronto do dr. Júlio e da conferência
futurista mas talvez chore com a morte de Genciana por meio
de bala que sobrou, cega, de uma revolução, porventura
rirá com o assalto do capitão Gavião a
uma nave em pleno Atlântico mas porventura chorará com
um massacre africano arregimentado. É o entrosamento
e a sucessão da alegria e da comicidade. Que aqui se
misturam com o muito amor por sucessivas mulheres. Tanto que
ao António Portugal, perto do fim, fundamentalmente
importa lembrar a que sabiam os beijos da Genciana...
Mas além dessa melancolia há mesmo
uma tristeza quanto à situação que o
país vive com os casos de pedofilia, a crise da justiça.
Este romance é também de denúncia, não?
Claro que este livro também é uma denúncia
do que se está a passar, hoje. Não se resolve nada
sem nos resolvermos a nós próprios e nós
começámos ontem, isto é, no largo passado.
Somos também esse ontem. A chave do futuro somos capazes
de a encontrar nos passos que já demos ou que não
soubemos dar. É também essa a função
do romance em geral. Mesmo o romance histórico digamos
estrito. E não será o caso deste.
Voltamos à questão inicial: onde começa
a história e a ficção... Em que é que
ficamos?
Este romance não será um romance histórico
estrito na medida em que não reconstitui com rigor. É o
trajecto de um personagem e é uma história fantástica.
Insere a fantasia na história e a história na fantasia.
E, como aliás notaram a Paula Moura Pinheiro e o Carlos
Amaral Marques, inserindo nos lances, o António Portugal,
um pouco como Woody inseriu o seu "Zelig" em situações
mais ou menos reais. A História Fantástica
de António Portugal digamos que reinventa a história.
Escolhe-a, acelera-a. Procura dar-lhe, aqui e ali, a volta. Embora
simbólica, criticamente. Para, por vezes driblando o episódio,
tentar ir, por assim dizer, à sociologia e à conjuntura,
a um tempo porventura mais historicamente longo...
Um exemplo: um tal A. Reis, burlão monetário,
não é, neste livro, condenado. Pelo contrário, é absolvido
e funda uma dinastia empresarial-bancária que vem por
aí adiante no tempo até hoje, de desdobramento
em desdobramento, internacionalizando, globalizando, mediatizando.
Outro exemplo: essa ponta final das cidades percorridas por
carros celulares prendendo a torto e a direito, do país
quase todo em prisão preventiva. A fantasia, aqui, pretendo
eu que seja, que alcance, em boomerang e em excesso, a realidade,
não apenas que depois foi como, em vários casos,
ainda é. É função de muita ficção.
Veja-se Swift e Kafka.
A tristeza e revolta, quando faz referência
aos últimos casos de pedofilia - "a cidade encheu-se
de carros celulares" - com a cobertura dos "pivots" das televisões
que interrogam sem rei nem roque arguidos e presidiários,
coloca uma outra questão: está preocupado com
a situação democrática do país?
Com certeza que estou preocupado com a situação
democrática do país. Como estou preocupado com
a situação moral, cultural, social do país.
Em certo sentido, são todas a mesma, isto é, a
situação. Para acertarmos temos nos enganar e de
ter dúvidas, embora não necessariamente quanto
ao edifício onde foi, para dele fazer um museu queirosiano,
o Hotel Bragança... Entre uma e outra possibilidade, venha
o Mafarrico e escolha!
A sua escrita combina vários estilos, em
que o apelo aos flashes cinematográficos é uma
evidência. Mas há também a intromissão
no discurso narrativo de interlocuções constantes,
com adversativas, próximo do barroco.
Claro que a deste livro escrita combina estilos. E quem diz
estilos diz tempos, ritmos, andamentos. Por um lado, somos assim, é assim
o nosso discurso interior. O romance dito então novo,
de que Alfredo Margarido e eu próprio falávamos
há já largos anos, não era apenas nem sobretudo
Sarraute e Claude Simon, era também e em primeiro plano
Proust, Joyce, Faulkner, etc.. Por outro lado, creio que o romance,
sendo um olhar sobre o mundo, é também uma perspectiva
do olhar do próprio mundo, logo uma multidisciplina, uma
interdisciplina. Pelo que só pode estar aberto - e este
livro está abertíssimo - a outras linguagens e
inerentes gramáticas...
...no seu caso concreto ao cinema...
...ao cinema e sua montagem, à televisão, ao teatro, à banda
desenhada, aos média, às novas tecnologias, à informática.
Por outro lado ainda, esta aventura do António Portugal
atravessa fantasticamente um século: um século
com tempos, ritmos, velocidades diferentes, fortemente contrastantes.
Pedindo ao narrador que use a sua caixa de velocidades e dou
exemplos: a vertigem modernista, a guerra de 14-18, os anos de
chumbo do oliveirismo, com os seus três efes, o do fado,
o do futebol e dessa outra terra do sol dançante, o solavanco
do 25 de Abril, o segundo rotativismo, a parábola expectante
um país em prisão preventiva.
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