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"As Noivas de São Bento"

Entrevistas:

  -Está aí o novo livro de Artur Portela, “As noivas de São Bento”. - Entrevista de Manuel da Silva Ramos - (Jornal do Fundão)

  - Um homem solitário e poderoso envia ao longo de seis décadas dezenas de cartas e bilhetes a diversas mulheres. - Entrevista ao semanário “O Independente” de 11.03.05.
  - "O espírito inquisitorial é algo que pesa sobre nós há séculos"- Entrevista de Rui Azeredo ao jornal “O Comércio do Porto ” de 03.04.05.

 

Entrevista ao "Jornal do Fundão" de 11 de Março de 2005.

Está aí o novo livro de Artur Portela, "As noivas de São Bento". O autor diz que é uma metáfora sobre a parte mais nocturna e mais ácida da natureza humana. Mais simplesmente o livro adequa-se ao reconhecimento da patologia salazarista.

Manuel da Silva Ramos


Denúncia de uma patologia suicida e assassina

A pátria como castração

-O seu livro é o diário de um louco?

-"É o diário de uma loucura que nos foi longamente imposta. A esperança manteve a sanidade".

-O., no final, já não reconhece a mãe que não o merece e queda-se em relação a ela numa estranheza absoluta. O seu livro é pessimista?

-O meu livro é a denúncia de uma patologia suicida e assassina. É um ajuste de contas em relação a uma mãe castradora. A mãe passa depois à condição de Pátria que acaba por ser para este homem outra castração. Como o provam tantas relações frustradas e interrompidas.

Artur Portela

O diário de uma loucura

JORNAL DO FUNDÃO - Artur Portela, eis mais um romance seu. Desta vez com um título extremamente importante...

ARTUR PORTELA-

Extremamente responsabilizante sim, na medida "em que estas "Noivas de S. Bento" correspondem a uma memória metaforizada de um tempo cultural afecti- vo, e sobretudo desafectivo, dos portugueses.

-Na introdução, que é sua, diz que este romance é uma identificação. Explique- me lá isso...

-Na medida em que corresponde a um país em forma de perfil e não a um perfil em forma de país.

-O autor dos 121 documentos que constituem o romance (documentos en- contrados em seis caixas onde se guardam botins) será ele um bota-de-elástico, pois tão dilatado parece ser esse jogo de seduções, imposições e despedimentos que atravessam todo o livro?

-Bom, para já, até certo ponto é um bota de elástico embora as botas tenham atacadores. No entanto, o risco é de que isto, o tema e a figura, não sejam mera- mente pretéritos mas presentes e até futuros na medida em que parte desta frieza e deste conservadorismo estão aí a reemergir sob roupagens neo-conservadoras e neo-liberais...

-O autor desses tais 121 documentos assina sempre ou quase sempre os ditos com a letra O. Temos a certeza, como leitores esclarecidos, que se trata de An- tónio de Oliveira Salazar. É verdade?

-É uma leitura aliás legítima mas há outra leitura que é a preferida do autor do livro. A de que se trata, sobretudo, de uma metáfora sobre o poder, a solidão e o amor. Um amor frio, castrado, auto-castrado e castrador. Um longo ajuste de contas com o amor que não se recebeu. Desta longa vingança são vítimas as dezenas e centenas de mulheres que aparecem neste livro, e tudo e todos que as envolvem. Se quiser, nós todos.

-Será este O, um homem de mulheres? Pois desde Virgínia, a ruiva, a sua primeira paixão na aldeia, passando por Danielle, a jornalista francesa, até à Tojalinha que o assedia com chás, ele parece estar sempre apto para um primeiro encontro...

-É um homem de mu lheres até um certo ponto, porque se impede de o ser. Pois o livro é também uma metáfora sobre a impotência...

-Mas o livro não é só um diário erótico sem sexo (mas cheio de suposições!).

É também um livro de instruções às domésticas, às criadas. No fundo uma Carta Constitucional da escravatura. É isso?

-Sim, de certa maneira todas essas mulheres acabam por ser criadas, instru- mentos do poder de influência e de domínio do protagonista.

-Muitas mulheres recebe pois O em São Bento. Entre elas uma cartomante que desempenha um grande papel intelectual na vida deste ditador. Mas há também actrizes. Uma, B, pede-lhe um encontro. E ele tem este comentário reaccionário:

"Não me consta que nas aldeias, mesmo as dos redores das cidades usem as mulheres franjas". Será esta mulher com franja a Beatriz Costa?

-É uma leitura possível na medida em que a Beatriz Costa personifica determinado cinema e é o espanto deste homem perante o cinema que está projectado nessa passagem do livro.

-A certa altura no seu livro há a expressão "males de ladeira". O que é que significa isso?

-Duas circunstâncias. A primeira é que ele vivia no alto de uma calçada. Se-

gundo, que era difícil aceder a ele por causa da ladeira e por causa da inacessibilidade que ele transformava em instrumento de poder. Já Mussolini recebia por vezes visitantes ao fundo de uma sala gigantesca obrigando-os a uma caminhada que só por si estabelecia já uma hierarquia entre o visitante e o visitado...

-O é pois um homem de poder, que exerce terrivelmente o seu poder ao milí- metro, impondo tudo e a todos com regra e esquadro. É precisamente este rigor mórbido que o irá perder pois à medida que o livro avança vêmo-lo cada vez mais doente, paranóico, obcecado pelo mar que tudo invade. É realmente isto o que o Artur Portela quer dizer?

-Esse rigor do protagonista volta-se contra ele porque ele se isola, se gela, a ponto de se autodestruir. Veja, por exemplo, nas suas sucessivas alocuções a mul- tidões de mulheres o seu culto crescente da morte como forma de glória...

-À medida que lemos as cartas há um leit-motiv que vem sempre. O autor das cartas diz que o mar irrompe, o mar alaga tudo, terrenos, avenidas, palácios e no final o autor afoga-se depois de escrever à mãe uma última carta de gratidão irónica por esta não lhe ter ensinado a nadar. Quer dizer que o seu livro é uma metáfora política e diluviana?

 

-É uma metáfora de um homem-dique contra a vida, o amor, a liberdade e o futuro. São dezenas de anos a resistir contra a vida e a liberdade que naturalmente acabam por vencer.

-"O pecado não peca quando não tenta a tentação" diz uma das damas do livro que foi a São Bento. Durante seis décadas O vê muitas mulheres, toma chá, vai para uma humilde casa aldeã com uma conquista, mas fica solteiro. Pergunto-lhe eu: este solteirão cas tra-se para não decepcionar a mãe ou a Nação?

-As duas coisas. Mas muito freudianamente a mãe. Quanto à frase ela é uma interpretação do homem pelo protagonista. O, homem é a personalização do pecado. A mulher é a tentação. Desde que a mulher o não tente, ele castra-se...

-A certa altura no seu livro diz-se que "o pessimismo é a única esperança". É um paradoxo de um ditador ou traduz o estado geral de uma velha nação?

-É um paradoxo do dita dor...