Leonardo Ralha
O seu novo livro, é composto por 121 cartas e bilhetes enviados ao longo da vida de um homem a várias mulheres. Até que ponto é possível conhecer a essência de alguém através da sua correspondência?
Conhece-se de uma forma limitada. Até porque esta figura está sempre a recusar-se ao afecto, à simpatia, à empatia, ao amor, à paixão. É um indivíduo sempre em baixo-relevo. Estas cartas são, acima de tudo, a recusa de serem escritas. É uma voz que emudece, paradoxalmente.
Que se autocensura?
Censura a sua própria comunicabilidade. De certa forma é a figura do autocastrado que vai castrando os outros e que acaba por fazê-lo a praticamente todas as pessoas. Esse é o seu poder. Na minha perspectiva freudiana, está em causa uma vingança relativamente à mãe, que o pune, o limita e o cerceia. Ele vinga-se dessa maternidade castradora e de uma paternidade quase inexistente, recusando-se a todos e impondo-lhes essa recusa. E convertendo a autocensura em discurso e ideologia.
Esse homem assina as cartas com as iniciais A, O e S. Porque não lhe chamou Salazar?
Porque o meu projecto não era fazer o retrato de uma figura e de um tempo históricos mas sim uma espécie de metáfora que, embora pudesse envolver essa figura, a ultrapassasse. O livro pode ser encarado como uma representação de Salazar, mas gostaria que também fosse lido como uma metáfo ra sobre a solidão, o poder, o desamor e a castração enquanto regime político, fisiológico e mental.
Para o protagonista do livro, seja qual for o seu nome, o poder é incompatível com o amor?
Concordo. Até porque o amor é -ou deveria ser - uma trégua no exercício do poder. O poder é uma guerra, uma interdição, uma ditadura, enquanto o amor é generosidade. Embora, na realidade, as relações amorosas envolvam sempre jogos de poder.
Pode dizer-se que, em vez de um misógino, temos um autocontrolado e um manobrador de mulheres?
Temos, fundamentalmente, um controlador e manobrador político. Um político do ritual do amor - da sedução, da atracção, do envolvimento e da manobra. Mas, chegando o momento, não executa. Com uma ou outra excepção, o amor não é feito.
Numa das primeiras cartas, enviada à ruiva e tentadora Virgínia, ele afirma que "nada se passou se não quisermos e não é vantagem para ninguém que algo se tenha passado". Trata-se de uma "realpolitik" da vida afectiva e sexual?
Assumiu a sua fisiologia pelo menos uma vez, o que não quer dizer que o tenha feito uma única vez. Mas é uma fisiologia de que tem um certo receio e repugnância. Há uma sensação de risco.
Não é conforme ao destino traçado...
Completamente. O projecto não passa por aí. Importa manobrar, conjugar, mobilizar pessoas, designadamente mulheres, para o seu destino: uma grande ideia que poderá ser a Pátria, o Estado...
Tem consciência de que os leitores irão tentar discernir pessoas reais nas mulheres a quem o protagonista do seu livro escreve?
Admito que sim. Embora sejam todas irreais. E não o digo com ironia: todos nós somos irreais.
No caso da rapariga de quem ele se vê forçado a afastar-se por imposição familiar há um paralelismo com a filha do dono das terras arrendadas aos pais de Salazar.
Nessa ocasião partiram-lhe as pernas e a partir de então ele fará o mesmo a toda a gente. Vamos ser oito a dez milhões de anões e andamos todos de pernas partidas. E, entretanto, as águas vão invadindo a terra.
A água, enquanto metáfora, significa o quê?
A vida, o amor e a liberdade. Ele é um dique que contém tudo, mas não impede que as águas vão avançando. Sobem mesmo ao alto da calçada onde ele vive. No final, de certa maneira, morre afogado. A única coisa que não sabia era nadar.
No jogo que propõe ao leitor é lícito reconhecer Beatriz Costa e Amália Rodrigues entre as correspondentes?
É lícito descobrir duas figuras. Uma delas representando algo que não é definido no livro mas que é a sétima arte - em que regimes autoritários de tendências contrárias apostaram muito para a propaganda -, com uma vivacidade, uma alegria e uma franja. E depois há uma outra mulher que canta, normalmente acompanhada, com melancolia e com tristeza, algo que pode ser o fado. Mas são figuras ficcionadas.
Essa Abília fadista já aparecia na sua obra anterior, "A História Fantástica de António Portugal". A sua inclusão é uma auto-homenagem?
Foi uma brincadeira de autor.
Todas as cartas são sucintas e apressadas. Parecem segundos roubados a algo mais importante.
Admitindo a hipótese de o autor ser uma figura política, a sua atenção está centrada na luta contra a liberdade.
Mesmo as cartas à francesa que virá a arrebatá-lo não são muito maiores.
Mas essas são diferentes. Num francês horrível, ao qual impõe a retroversão a português em rodapé, ele quer despachar a francesa para a sua casa na província. Há meia de seda. Há um erotismo, um alvoroço...
Uma fraqueza que ele se permite ter?
Há uma experiência que deseja mas da qual se retrai rapidamente. Acaba depois por converter a francesa em alguém que deve "deixar cair uma boa palavra" nos sítios onde estiver. Ele está sempre a transformar as mulheres em agentes e espias.
Uma personagem bastante subalternizada, pelo menos em comparação com o papel que a sua congénere de carne e osso deteve no mito salazarista, é a governanta.
Porventura. A minha intuição diz-me que aquela governanta não exerceu o papel que a antipatia pela figura histórica lhe reservou: que eles mantinham relações e que algumas das jovens que viviam na residência oficial eram suas filhas. Não me parece. A lógica da personagem não levaria para aí. Isso seria muito coisa de abade. O homem é mais duro do que isso. E apetece-lhe mais o desejo latente, não concretizado, do que propriamente ser amancebado. Mesmo que isso tenha acontecido na vida real à tal personagem histórica, não quero ir nessa direcção.
Em "As Noivas de São Bento", a governanta não é muito mais do que alguém a quem dá ordens, pedindo-lhe que esteja de boca fechada e de ouvidos abertos...
Mas há sempre uma má cara em relação às outras mulheres que ela vê passar. É muito divertido. Eu e um grupo de três pessoas estamos a pensar fazer um filme sobre essa situação.
Não lhe parece estranha a ausência da figura de Salazar no cinema português?
Isso ainda faz com que o desafio seja maior. Aquilo em que estou a trabalhar é circunscrito no tempo e no espaço. Apenas horas de vida, mas muito carregadas de significado. E sem caricatura. Sem aquele ódio caricatural que tantas vezes existe.
Também no livro, aceitando que se veja Salazar na personagem que criou, não há laivos de caricatura.
Parece-me que não, mas ainda bem que pensa o mesmo.
Entre os episódios mais divertidos estão os relatos das visitas de uma cartomante à residência do autor das cartas. É verosímil que uma figura daquelas tivesse fascínio por mapas astrais?
As pessoas são altamente contraditórias. Todos nós. Acho interessante que um homem tão ortodoxamente católico de repente resvale. É um mistério dentro de outros mistérios.
No entanto, como bom professor de Finanças Públicas, põe em causa os cálculos da cartomante.
E no final manda uns sicários a casa dela recolher toda a correspondência trocada, como fizera a outras mulheres.
Sendo alguém que pertenceu aos círculos da oposição ao Estado Novo, foi-lhe fácil escrever esta personagem?
Não vejo que isso tenha constituído problema. Penso que tentei e consegui distanciar-me do ódio e da animosidade sistemática. Não sinto que me tenha vingado do passado.
Surpreendeu-se por empatizar mais com a personagem do que estaria à espera?
Empatizar? Talvez através da escrita. Gosto muito do Padre António Vieira e ele também. E, portanto, pela agudeza das palavras e pela inteligência da malícia, num ou noutro momento houve empatia.
De entre os políticos no activo. admite que algum possa inspirar personagens de ficção dentro de quatro ou cinco décadas?
O Cavaco, embora não saiba nada do Padre António Vieira ou do Salazar. Pela secura, pelo tom ocre e limitado, é uma novela de Camilo Castelo Branco. E o Soares também, devido à coragem física e à intuição. Gosto muito dele, mas criticamente, que é a forma mais saudável.
E Alberto João Jardim?
Isso é mais linha Parque Mayer. Embora seja, na minha perspectiva, aquilo que pretende ser. É autor de si próprio. Há muito controlo naquele aparente descontrolo, e isso pressupõe uma certa inteligência.
E Durão, Guterres, Santana, Sócrates? Têm potencial enquanto personagens?
Talvez o Santana Lopes... Mas eles próprios, porque assim o decidiram, tornaram-se demasiado óbvios e caricaturais. Não têm mistério suficiente. Não há sombras. E a sombra é necessária para a perspectiva e para a profundidade.
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