A FUNDA /
1º Volume, 3ª edição, Editora Arcádia,
Lisboa, 1973
Páginas 9 - 12
MARCELLO CAETANO
E OS TECNOCRATAS
Janeiro de 1971
Com Salazar, impacientavam-se na antecâmara. Com Marcello
Caetano, entraram, de roldão, na vida pública.
Vêm de Económicas e Financeiras, de Engenharia,
de Sociologia. Têm quarenta anos. São apolíticos.
Estão na Assembleia Nacional, na Câmara Corporativa,
nos Gabinetes Técnicos. Fazem sauna, são católicos
progressivos e falam alto, forte.
São a 3ª geração de 1926. A primeira
era Mário de Figueiredo. A segunda, Ulisses Cortez. A
terceira, Francisco Balsemão.
A política, ela própria, globalista, surge-lhes
como um romantismo. Não há política. Há políticas.
Não há política. Há soluções.
Solução do problema económico. Solução
do problema rodoviário. Solução do problema
urbanístico. Solução do problema migratório.
Portugal é um exercício. A Europa, um exame de
frequência. O desafio americano, um concurso. A EFTA, um
treino. O Mercado Comum, um curso semestral.
Estão aí. São as comissões parlamentares.
São os Gabinetes de Previsão Económica.
São a Banca. São as grandes empresas.
A Esquerda e a Direita deixam-nos indiferentes. Sorriem perante
a severidade de Vasco da Gama Fernandes e a ribombância
de Santos da Cunha.
Os Estados Unidos são, para eles, a United States Steel.
A União Soviética, o Comecom. A África,
os diamantes. Japão, a construção naval.
França, Marcel Dassault. Itália, Agnelli.
Ideologicamente são cegos. Profissionalmente são
aptos. A política é um pretexto. A eficácia,
um fim em si mesmo.
São a nova aristocracia. O País é, de súbito,
para eles, das esferas de acção mais próximas,
a que dá mais chances. A política não é,
para eles, res publica, civismo, humanismo. É performance.
A opção não foi entre a Esquerda e a Direita.
Foi entre aquilo que não é e aquilo que é.
Entre aquilo que não é e aquilo que deixa ser.
Aquilo que condena ao imobilismo e aquilo que admite performance.
O álibi ético é este: transformar de dentro
para fora.
Muito mais hábil, Marcello Caetano coloca-os, politicamente,
nos cargos menos políticos. Ele tira o rendimento máximo
destes operários altissimamente especializados. Importa-lhe
pouco o seu snobismo tecnocrático. A cheia que eles são é,
afinal, força motriz. Força motriz que, politicamente,
rende.
Só que a neutralidade política é um artifício.
Só que a tecnocracia é, ela própria, política.
Seja Mercado Comum. Seja Comecom. Seja Aliança para o
Progresso.
Eficácia não é inocência. Pode, até,
ser culpabilidade. A Krupp era eficaz. Schat também.
Os tecnocratas, por muito supranacionais, por muito Opus Dei,
por muito Sedes, por muito IBM., por muito Herman Kahn e J. J.
Servan-Schreiber, são, afinal, responsáveis perante
aqueles que verdadeiramente, contam - a Nação. |