A FUNDA / 2º Volume
/ Arcádia, Lisboa, 1972
EU, DEPUTADO
Abril de 1972
(Não publicado)*
Suponhamos que eu era deputado.
Suponhamos que eu, deputado, assistia, na Assembleia
Nacional, à última intervenção
de Franco Nogueira.
O Sr. Franco Nogueira: - (...) Houve tempo, sr. Presidente,
em que o mundo julgava que se podia confiar a ideias e princípios
generosos. (...) No alvoroço da paz, os homens acreditaram
que os princípios messiânicos, por que muitos
haviam morrido, iam ser postos em execução. Da
libertação dos países ocupados caminhou-se
para a autodeterminação de todos os povos em
todos os lugares, e os grandes impérios criaram e disseminaram
o anticolonialismo; da desmobilização dos exércitos
passou-se à ideia do desarmamento geral e completo;
do desarmamento, que libertaria capitais e energias, evoluiu-se
para a ideia do desenvolvimento acelerado das áreas
subdesenvolvidas; da paz universal emergiu o conceito da abolição
das fronteiras e do governo mundial, e as Nações
Unidas foram a derradeira e luminosa esperança da humanidade
(...)Daqueles ideais, daqueles princípios, tudo se esperou,
e depois nada resultou. Hoje, são ruínas, são
campos de destroços que pertencem à História.
(...) Mais recentemente, surgiu a obsessão da tecnologia,
como política por si própria; e propagou-se o
conceito de novos e vastos espaços económicos,
como meio para a prosperidade geral e rápida; e defendeu-se
a internacionalização da actividade produtiva,
como método para o progresso técnico e científico
e para a unidade económica mundial; e têm-se batido
os homens pela liberdade total, no plano político e
no plano social, como se aquela fosse a única garantia
dos direitos individuais e da pessoa humana. (...) Alguns isolados,
quase havidos por réprobos, não se precipitaram
no rasto dos mitos efémeros. (...) E a esses (...) nada
garantia que se não estivesse a correr ofegantemente
atrás de ideias que (...) se transformariam (...) em
cemitérios de doutrinas inteiramente falidas e mortas...
O Sr. Artur Portela: - Não apoiado!
Vozes: - Quê?! Que diz ele?!...
O Sr. Artur Portela: - Digo, e bem claramente:
não apoiado!
O Sr. Presidente: - Sr. Deputado, se é uma interrupção,
precisa da autorização do Orador. A menos que
seja um simples aparte...
O Sr. Artur Portela: - Era um aparte. Mas pretendo
promovê-lo a interrupção. O Sr. Deputado
Franco Nogueira dá-me licença?
O Sr. Franco Nogueira: - Faça
favor.
O Sr. Artur Portela: - Eu só quero manifestar a minha
estranheza pelo facto de se verificar que o nosso ministro
dos Negócios Estrangeiros de 1961 a 1969 o tivesse podido
ser com esta carga de cepticismo em relação a
princípios como são: 1) a libertação
dos países ocupados; 2) a autodeterminação
dos povos; 3) o anticolonialismo; 4) a desmobilização
dos exércitos; 5) o desarmamento; 6) o desenvolvimento
acelerado das áreas subdesenvolvidas; 7) a paz universal;
8) as Nações Unidas; 9) a tecnologia; 10) os
vastos espaços económicos, como meio para a prosperidade
geral e rápida; 11) a internacionalização
da actividade produtiva como método para o progresso
técnico e científico e para a unidade económica
mundial; 12) a liberdade no plano político e no plano
social...
O Sr. Franco Nogueira: - Eu não disse só isso!
O Sr. Artur Portela: - Não disse só isso,
mas disse isso. E isso é o suficiente!
Vozes: - Que quer ele? Que pretende ele?
O Sr. Homem de Mello: - É um rapaz de talento! Embora
muito destrutivo...
O Sr. Cazal-Ribeiro: - Ao que isto chegou!...
O Sr. Artur Portela: - Eu só quero manifestar a minha
estranheza pelo facto de o homem que foi responsável
pela nossa diplomacia de 1961 a 1969 vir agora afirmar que
o princípio do desenvolvimento das áreas subdesenvolvidas é um
campo de destroços. Que a tecnologia é um campo
de destroços. Que os vastos espaços económicos
são campos de destroços. Que a liberdade no plano
político e no plano social é um campo de destroços.
E que todas essas coisas são doutrinas falidas e mortas!
O Sr. Franco Nogueira: - Eu não disse precisamente
isso!
O Sr. Artur Portela: -... Isto parece quer dizer que o sr.
Franco Nogueira, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros,
coerentemente, nos colocou a todos nós, Portugueses,
a todos nós, País, à margem, por exemplo,
da tecnologia, dos vastos espaços económicos
e da liberdade, pela simples e forte razão de que os
considerava - campos de destroços!
Vozes: - Não apoiado!
O Sr. Miller Guerra: - Ouçam-no! Ao menos, ouçam-no!
O Sr. Sá Carneiro: - É o mínimo!
O Sr. Artur Portela; -... E eu gostaria de perguntar ao
Sr. Deputado Franco Nogueira quais as ideias que norteavam,
quando ministro dos Negócios Estrangeiros, a sua acção.
Porque do seu discurso se podem tirar ilações
verdadeiramente inquietantes. Por exemplo, que os países
ocupados durante o conflito de 39-45 - não deviam ter
sido desocupados. Que os povos do Terceiro Mundo - não
se deviam ter auto determinado. Que o desarmamento das áreas
subdesenvolvidas - é uma ideia grotesca. Que a paz - não
interessa. Que a tecnologia - não serve. Que o Mercado
Comum - não presta. Que a liberdade - não dá nada.
O Sr. Franco Nogueira: - Isso são meras ilações!
E abusivas!...
O Sr. Artur Portela: -... E quero ainda manifestar a minha
perplexidade pela endurance psicológica e ideológica
do Sr. Franco Nogueira. Já espanta que um Deputado defina,
numa Assembleia Nacional de um país europeu, em 1972,
a tecnologia e o desarmamento como - ideias inteiramente falidas
e mortas. Espanta ainda mais que esse Deputado tenha sido ministro
dos Negócios Estrangeiros. Mas nada nos deixa tão
perplexos como a capacidade revelada pelo Sr. Franco Nogueira,
enquanto ministro, de trabalhar com um mundo que se move todo
ao contrário. Um mundo que, apesar de todas as suas
contradições, ambições, retrocessos,
se move - para a frente. Num mundo que insiste em lutar pelo
desarmamento - e negoceia, prepara e assina tratados. Num mundo
que insiste em lutar pelos espaços económicos - e
dialoga, E ajusta e prepara uma nova Europa. Num mundo que
insiste em lutar pela liberdade - e impõe Quang Tris,
Hués, qualquer dia Saigões. Ou seja, um mundo
que, tendo campos de destroços, não é totalmente
um campo de destroços. Um mundo que não é um
cemitério de doutrinas inteiramente falidas e mortas.
Imagina-se a dificuldade do Sr. Franco Nogueira, enquanto ministro
dos Negócios Estrangeiros, em adaptar-se a um mundo
que crê exactamente naquilo em que ele não crê e
que tem como objectivos fundamentais aquilo que ele considera
coisas extintas e falidas!...!
Vozes: - Basta! Basta!
O Sr. Franco Nogueira: - São destroços! São
campos de destroços!
O Sr. Artur Portela: - Esse pessimismo - que pretende?
Esse pessimismo - para onde vai? Fechar-nos as grandes ideias
que, postas ou não em causa, contrariadas ou não - são
diplomacia, são política, são sociologia,
são História? Abrir-nos a fecundidade do nosso
isolamento? Abrir-nos a perspectiva da nossa singularidade,
a vantagem do nosso atraso, a personalidade da nossa pobreza,
a potencialidade do nosso afastamento?
O Sr. Cazal-Ribeiro: - E porque não?!...
O Sr. Franco Nogueira: - A interrupção já vai
longa e a minha intervenção é demorada.
De maneira que prossigo.
Vozes: - Prossiga! Prossiga!
O Sr. Franco Nogueira: - Tudo isto, tudo quanto eu estava
referindo quando fui interrompido, foi assim até há pouco,
Sr. Presidente, mas hoje deixou de ser assim. Em Agosto do
ano findo, o Presidente Nixon...
Não sendo eu deputado - não disse nada
disto.
Sendo o Sr. Franco Nogueira deputado - disse.
Ou seja, disse-o sem ser interrompido.
Nem por mim, claro, que não sou deputado.
Nem por mais ninguém.
* (Não publicado) - significa que foi cortado
pela Censura. |