A FUNDA , 6º volume,
Editora Arcádia, Lisboa, 1975
Páginas 217 - 225
A ABORDAGEM
Setembro de 1975
DGI - Notícia 4 282, de 3/9/75 - Gabinete do Chefe
do Estado Maior da Armada:
A Assembleia da Armada verificou que mais uma vez a Marinha
foi tratada, nas páginas do Jornal Novo, de uma forma
que se considera ofensiva do prestígio e dignidade da
Armada.
Constatando que o facto apresenta características
de difamação sistemática, constituindo
um abuso da liberdade de Imprensa, a Assembleia avisa solenemente
o Jornal Novo que a Armada se reserva o direito de actuar revolucionariamente,
em justa defesa do seu prestígio, se casos de idêntica
natureza se voltarem a repetir.
Marinha:
Porque é que os Gabinetes têm, do ridículo,
esta decidida vocação?
E porque é que o Gabinete do Chefe do Estado Maior da
Armada, que tem mais mar, e mais mundo, que tocou, do perfil
da civilização, todos os portos, se sujeita a escrever
esta coisa de que gerações inteiras rirão?
Dizer que uma fotomontagem que faz pedalar, na primeira página
deste jornal, um comandante político, " ofende o prestígio
e a dignidade da Armada ", dizer que uma fotomontagem, que
coloca, sobre a obra-prima de humor, de sensibilidade, de garra
portuguesa, que é um desenho de Rafael Bordalo Pinheiro,
a cabeça de um Primeiro-Ministro, " apresenta características
de difamação sistemática " - é a
demonstração de que o Gabinete do Estado-maior
da Armada tem capacidade de não ser, por vezes, excessivamente
inteligente.
É a demonstração de que este Gabinete não
compreende nada do que tem de ser essa qualidade, essa cultura,
essa plasticidade, essa largueza, essa força da razão,
essa intensidade humana, que é a política, que é a
responsabilidade, não apenas de um convés, de um
quartel, de um mar chão, mas de uma complexidade, de uma
heterogeneidade, de uma dialéctica, que é - um
País.
Se um Gabinete de Chefe do Estado-maior da Armada não
entende que nem a fotomontagem onde pedalava um político
responsável pela lei de Imprensa que nos queria amordaçar
a todos, nem a fotomontagem em que Pinheiro de Azevedo tinha
a honra de apor o seu rosto, que a História mal conhece,
a um desenho, que a História de Arte e a História
tout court consideram inesquecível, são ofensivas
do prestígio da Armada, da dignidade da Armada, esse Gabinete,
não somente não tem nenhum sentido de humor, como
não tem robustez psicológica, endurance cultural,
para assumir, deste País, deste País que sempre
soube rir, desde o escárnio medieval ao Eça constitucional,
os destinos.
É grave, Gabinete.
É grave, Armada.
Porque, dois pontos: nem nós temos, contra a Armada,
nada de irredutivelmente sério, nem nenhuma revolução é incompatível
com a alegria.
A Armada, Gabinete, sempre foi, das janelas deste jornal, que
escancaram sobre o Tejo, a alegria.
Este jornal, Gabinete, tem, da História, a noção
de que deve à Armada a costa de África, o Cabo,
a ilha de Moçambique, a Taprobana, Calecut e Dili.
O mais jovem dos nossos repórteres vê na Armada
o "Adamastor", Machado dos Santos, o "Augusto de Castilho" e
o almirante Rosa Coutinho.
Não há, neste jornal, contra a Armada, o mais
leve rebuço.
A revolução, Gabinete, porque há-de ela
assumir, da seriedade, o espírito, da opacidade, a espessura,
da mediocridade, a teima?
É velha a questão.
Tão velha como a Marinha.
Que nem a crítica nem os ataques são ofensa e
que uma e outra coisas são, também, a fecundidade
e a dialéctica da democracia.
Reabrir, hoje, nesta revolução, perante este jornal,
numa fase tão grave da vida desta revolução,
e deste País, esta polémica, tão fácil
para nós, tão lamentável para o Gabinete,
inaugurar, contra a inteligência, contra a liberdade, contra
a crítica, contra a alegria, esta frente de batalha - que
significa isto?, que quer isto ocultar?, que insuficiência
projecta?, que sanha compensa?, que derrota camufla?
Há, depois, e finalmente, uma coisa grave, Gabinete,
que é - a ameaça.
Que é, sic, " o aviso solene de que a Armada se reserva
o direito de actuar revolucionariamente, em justa defesa do
seu prestígio, se casos de idêntica natureza se
voltarem a repetir ".
Isto é - A ABORDAGEM!
Está, pois, este País, habilitado ao espectáculo único
na Europa que é haver, entre a Armada e um jornal, uma
batalha - naval.
Poderá ser assim.
O "Jornal Novo" deita, no largo de Santa Catarina, o ferro.
A Armada passa ao largo.
O "Jornal Novo" arreganha, num mastro, duas tíbias cruzadas,
e uma caveira.
A Armada abre, rotundo, nutrido, o fogo.
O "Jornal Novo" lança, em torpedo, uma fotomontagem.
A Armada sulca, na direcção pirata, o Tejo.
O "Jornal Novo" arremessa, em torpedo, a segunda fotomontagem.
A Armada encurrala, entre os seus costados de aço, o "Jornal
Novo".
No convés do "Jornal Novo", agitam-se, facas nos dentes,
papagaios nos ombros, lenços atados ao crânio, os
redactores.
O comandante Correia Jesuíno varre, de um só golpe
de escopeta, o convés, e abre, entre Antilhas morais,
entre pernas de pau, entre barris de rum, caminho, na direcção
de um homem enorme, de barba preta, de nariz adunco, que está escrevendo,
no seu camarote - um editorial.
Talvez o último.
Talvez este.
E é no mastro mais alto, na ponta do cabo mais áspero,
entre hurras viris dos fuzileiros, entre tripulações
inteiras que agitam as boinas, entre flâmulas, entre tiros
secos, e brancos, entre o buzinar de festa, que é, finalmente,
justiceiramente, enforcado - o director do "Jornal Novo".
Outro dia, Gabinete, esteve aqui, neste jornal, discutindo uma
qualquer miudeza, isso!, a revolução cultural,
um escritor que é marinheiro, um Pierre Loti feroz, - o
meu amigo Ramiro Correia.
Pergunta este jornal, directamente, - estava ele nesta Assembleia,
levantou, ele, nesta Assembleia, contra o "Jornal Novo", contra
as fotomontagens, contra Rafael Bordalo Pinheiro, contra o sorriso
da pequena História, contra a memória visual de
um futuro implacável, contra o direito à alegria, à crítica,
contra o dever da inteligência, da abertura, o seu braço,
a sua voz, os seus galões?
Esta votação, Ramiro, é, ela, a revolução,
a cultura, ambas, ou nenhuma? Que erro é este, político,
seu, de passar, a um jornal incómodo, um atestado de força?
Que erro é este, cultural, e político, revolucionário
portanto, seu, de passar, a si próprio, a uma sala branca,
um atestado de incapacidade?
Por quanto tempo nos lembraremos todos, todos os jornalistas,
todos os escritores, todos os poetas, todos os cronistas, todos
os historiadores, com um sorriso terrivelmente português,
dilacerantemente lisboeta, e não só, deste comunicado
que declara guerra a um jornal, deste comunicado que proíbe
a caricatura, deste comunicado que confunde humor com ofensa,
deste comunicado que invoca a revolução para vir
escavacar talvez meia dúzia de secretárias, e arremessar,
talvez, pelas janelas, meia dúzia de máquinas de
escrever?
Com esta grandiloquência de quem faz História às
pazadas, de quem traz o nome, a seis colunas, no cabeçalho
de qualquer jornal, não estarão alguns protagonistas
desta revolução a deixar que, amanhã, fique
deles, não o Rádio Clube Português, não
o "Diário de Notícias", não o "Diário
de Lisboa", mas estes indícios, feitos de trágico
e feitos de cómico, que são estes comunicados,
estas ameaças, estas batalhas navais?
É para esta opacidade que se fez, Ramiro, esta revolução?
Este Gabinete sabe de quem é o retrato que o traço
de Rafael Bordalo Pinheiro faz?
Pois é do senhor Dom Luís, que foi, deste País,
não ministro da Comunicação Social, não
Primeiro-Ministro indigitado, não director de um jornal
da manhã - mas rei.
Rei e tradutor de Shakespeare.
Este Gabinete sabe onde está, entre outros retratos,
este retrato?
Pois está no "Álbum das Glórias", painel
do Constitucionalismo.
E julga este Gabinete, tão revolucionário, tão
culto, tão comunicável, tão ameaçador,
que o Constitucionalismo e o Senhor Dom Luís, que toda
a gente sabe muito moderadamente subtis, protestaram, eles, mandaram,
eles, pôr uma fragata em frente da casa do sr. Rafael Bordalo
Pinheiro, ameaçaram, eles, o "António Maria" de
mandar dois marinheiros destroçar a tipografia, empastelar
os tipos, partir os lápis?
Não, hélas, Gabinete.
Eles não fizeram nada disso. Só porque eles, apesar
de obesamente monárquicos, de vagamente liberais, de cautamente
letrados, sabiam duas coisas muito simples.
Uma coisa é que o jornalismo tem o direito, e o dever,
da crítica, da alegria, da invenção.
Outra coisa é que mandar um comunicado, uma fragata,
ou dois marinheiros, destroçar um atelier, uma tipografia,
um lápis que seja, é - um suicídio cultural,
um suicídio moral, um suicídio político.
Excelente é que este Gabinete defenda, ele, não
a liberdade de navegação, mas a liberdade de Imprensa.
E aí, não sabendo nós, de barcos, coisa
nenhuma, sabemos nós alguma coisa.
Sabemos, por exemplo, coincidência!, que foi exactamente
uma das nossas fotomontagens, chamada Correia Jesuíno,
que fez chegar ao Conselho da Revolução, nas mãos
de outra das nossas fotomontagens, chamada Rosa Coutinho, o projecto
de lei que a maioria esmagadora dos trabalhadores da Imprensa
considerou uma tentativa de restabelecimento da censura.
Aparentemente, há políticos portugueses que dão fotomontagens.
Mas há políticos portugueses que são fotomontagens.
Interessante seria, histórico seria, revolucionário
seria, que este Gabinete, tão leitor das primeiras páginas
deste jornal, tivesse feito, ele, semanas atrás, outra
nota que seria, essa, assim:
"A ASSEMBLEIA DA ARMADA VERIFICOU QUE, MAIS UMA VEZ, A IMPRENSA
FOI TRATADA PELO MINISTRO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL,
DE UMA FORMA OFENSIVA DO PRESTÍGIO E DIGNIDADE DO JORNALISMO.
CONSTATANDO QUE A APRESENTAÇÃO PELO COMANDANTE
CORREIA JESUÍNO DE UM PROJECTO DE LEI QUE AMEAÇA
A LIBERDADE DE IMPRENSA, AO CRIAR UMA COMISSÃO DE ANÁLISE
E AO INSTITUIR MULTAS ATÉ 500 CONTOS E PENAS DE SUSPENSÃO
ATÉ 180 DIAS, A ASSEMBLEIA SAÚDA O JORNAL NOVO
PELA SUA FRONTALIDADE AO DENUNCIAR ESTA INIQUIDADE E AVISA SOLENEMENTE
OS INIMIGOS DA LIBERDADE DE IMPRENSA QUE SE RESERVA O DIREITO
DE ACTUAR REVOLUCIONARIAMENTE, EM JUSTA DEFESA DO PRESTÍGIO
DA REVOLUÇÃO, SE CASOS DE IDÊNTICA NATUREZA
SE VOLTAREM A REPETIR."
Embora este comunicado não tenha, ao que parece, sido
publicado, talvez fosse este um pouco o sentido das palavras
do indigitado Primeiro-Ministro quando, perguntado sobre o destino
do sr. comandante Correia Jesuíno, respondeu:
- Está dentro dos meus planos pedir-lhe para descansar.
Admirável Gabinete, este jornal regista o teu aviso solene.
Até porque, Gabinete, este jornal há uma coisa
que não tem - é medo.
Este jornal avisa, ele, solenemente o Gabinete do Chefe do Estado-maior
da Armada de que se reserva o direito de actuar revolucionariamente,
em justa defesa, não apenas do prestígio do jornalismo,
mas do próprio prestígio da Armada, se casos de
idêntica natureza se voltarem a repetir.
É que, entendamo-nos, Gabinete, não é principalmente
o prestígio da Imprensa que está em causa. Nem
o prestígio de Rafael Bordalo Pinheiro.
Com esta nota deliciosa, com esta nota que já entrou
na História, que, obrigado, Gabinete, nos ajuda a ocupar,
lá dentro, um lugar confortável, e vistoso, com
esta nota que é um teste psicológico, cultural,
político, o que está em causa é o prestígio - do
Gabinete.
Portanto, Gabinete, este jornal reserva-se o direito de actuar
revolucionariamente pela inteligência, pela alegria, pela
crítica.
Este jornal reserva-se o direito de esperar que a Armada responda à inteligência
com a inteligência, à alegria com a alegria, à crítica
com a crítica.
Este jornal reserva-se o direito de esperar que a Armada mantenha,
da largueza, do horizonte rasgado, a sua tradição.
Este jornal espera que a Armada não deite ferro na pequenez,
e no ridículo, desta nota, e se faça ao alto mar
da grandeza que esta revolução tem de ser. |