A FUNDA , 7º Volume,
Editorial Liber, Lisboa, 1977
Páginas 33 - 41
O GENERAL GUERREIRO
Setembro de 1975
O prof. Emídio Guerreiro, secretário-geral do
PPD, acaba de declarar, no Porto:
- O PPD armará 50 mil homens, organizará 50 mil
patriotas para defender a liberdade em Portugal, para defender
a liberdade e o bem-estar do Povo Português!
Aparentemente, o prof. Emídio Guerreiro respondia ao
futuro primeiro-ministro deste país, que lhe revelara,
em Belém, perante o Presidente da República, " ter
40 mil homens para armar ".
Portanto, 90 mil.
Ora como o sr. Mário Soares também está conferenciando,
insistentemente, com o futuro primeiro-ministro deste país
e como não é de crer que o futuro primeiro-ministro
deste país diga ao prof. Emídio Guerreiro coisas
que não diz ao sr. Mário Soares, é de crer
que o PS não se fique, e aí teremos, empunhadas
pelas bases socialistas, mais de 80 mil espingardas.
Portanto, 170 mil.
Que fará, nesta contingência, o CDS? Pois, obviamente,
produzirá as suas 10 mil espingardas.
Portanto, 180 mil.
Fica-se o MDP/CDE? Não fica.
Serão vinte mil.
Portanto, 200 mil.
E o PCP, ele? Pois claro que 30 mil.
E a UDP?
Portanto, 240 mil.
E o MRPP?
Portanto, 250 mil.
E assim sucessivamente, até que sejamos, não um
país, mas uma floresta de espingardas.
Que coisa é esta de o 2º partido político
nacional, de o partido que tem, a seguir ao PS, na Constituinte,
direito a mais copos de água, um partido responsável,
um partido competente, um partido que fala inglês, um partido
que ambiciona três ou quatro ministérios do VI Governo,
andar, agora, buscando, para colocar nas mãos de 50 mil
homens, 50 000 espingardas?
O prof. Emídio Guerreiro esqueceu, ele, a responsabilidade
cultural que é ser prof., olvidou, ele, o doce nome de
Emídio, para assumir, exclusivamente, definitivamente,
obsessivamente, o apelido terrível de Guerreiro?
Fez assim tão mal a este homem a entrevista que Sá Carneiro
nos deu, e nós publicámos?
Quer o prof. Emídio Guerreiro apagar a voz fria de Sá Carneiro
sob uma salva de 50 mil tiros?
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Compreende-se, agora, por que é que o conhecido pacifista
prof. Xavier Pintado recusou ombrear com os srs. Magalhães
Mota e Francisco Balsemão na 3ª força.
Compreende-se agora por que é que, quando os deputados
do PPD entram na Constituinte, os outros deputados põem
as mãos no ar.
Compreende-se agora por que é, quando o sr. Mota Pinto
se levanta para falar, as galerias saem, precipitadamente.
Supunha-se que era teórico o que opunha, a Palma Inácio,
o prof. Emídio Guerreiro.
Nada mais falso.
É óbvio: Palma Inácio era a pomba, o prof.
Emídio Guerreiro, o falcão.
Palma Inácio queria, timidamente, ocupar a Covilhã.
O prof. Emídio Guerreiro reclamava que a bombardeassem.
Palma Inácio chegou-se, a medo, a um banco, na Figueira
da Foz.
O prof. Emídio Guerreiro exigia a pilhagem, na Baixa, à luz
do dia, das reservas de ouro do Banco de Portugal.
Palma Inácio desejava, tenro, Vila Franca.
O prof. Emídio Guerreiro só se contentava com
pôr Lisboa a pão e água, cercada a ferro
e fogo.
O prof. Emídio Guerreiro despedaçou, aos pés,
o retrato que, longamente, de si fizera, perante o País,
o PPD, - um partido penteado, de gravata azul e óculos
inteligentes, com a Ordem de Mérito Agrícola na
botoeira e o "Expresso" debaixo do braço.
O prof. Emídio Guerreiro acaba de traçar, dramaticamente,
portinariamente, orozquianamente, um outro retrato, em que ele
surge meio-Saldanha, meio-Zé do Telhado, um lenço
vermelho-sangue na cabeça, cintos de balas cruzados no
peito, a camisa aberta e, sobretudo, aperrada, apontada, prestes
a ser disparada, esse novo símbolo que substituirá,
do PPD, a seta, - a espingarda.
A esPePeDingarda.
Com o prof. Emídio Guerreiro, o PPD não lhe apetece
ser partido.
Apetece-lhe ser uma ópera e chamar-se "Cármen".
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