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Comentários / Criticas:
   - lista de Recomendações do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, Marcelo Rbelo de Sousa, RTP, 14.09.09
   - Recomendação de Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, na Rádio Renascença
   - Crónicas de Francisco José Viegas, Blog 326 08.04.09
   - Pedro Teixeira Neves, a qualidade do silêncio, 23.04.09
   - Ana Vitória, Jornal de Notícias, 24.05.09
   - Maria Augusta Silva, Suplemento Revista DN/JN, 30.05.09
   - Os Meus Livros, Junho de 2009


Artur Portela«A Guerra da Meseta» Dom Quixote, 372 páginas

Artur Portela. Um nome, um apelido e um quase programa no mundo do jornalismo português do século XX; geracional, de pai para filho, via gene das palavras. Falamos aqui, concretamente, de Artur Portela Filho, logo não de seu pai, também homem de letras e de grata lembrança na Imprensa cá do adro. E, contudo, tão-só Artur Portela, escritor hoje já somente Artur Portela, perdido o apelido Filho com os anos – talvez porque os filhos com os anos se tornam pais (e depois avôs); de resto, como muito bem o evidencia este romance em mãos do autor que à escrita aqui me convoca. De sua graça, «A Guerra da Meseta» (edição Dom Quixote). Também sobre a obra já lá iremos, para já detenho-me numa introdução prévia ao currículo de Artur Portela.

Nascimento: Setembro de 1937, Lisboa. Jornalista com nome impresso em diversos órgãos de informação. Trabalhou também em publicidade e, enquanto escritor, deu-se a conhecer no início dos anos 60. Teve a sua quota-parte de importância e relevo no surgir do chamado novo romance português, com as devidas heranças e influências reconhecidamente gaulesas, publicando, em concreto, o livro ensaístico «O Novo Romance Português» (1962), em co-autoria com Alfredo Margarido. Uma veia temperada de subtil ironia, forte crivo crítico à realidade político-social, fazendo uso de um debruado linguístico bastante próximo do registo cronista, revelando um olhar próximo do cinematográfico (pelo encadeado de pequenas narrativas ou quadros dentro de uma narrativa maior), eis, à vol d’oiseau, a escrita de Artur Portela espraiada em diversos títulos, de contos, romance ou crónica, no ante ou pós-Revolução dos Cravos. Os últimos anos têm sido particularmente prolíficos, havendo a assinalar «História Fantástica de António Portugal, de 2004, «As Noivas de São Bento», de 2005, ou a colectânea de contos-fábulas «Os Peixes Voadores», editado em 2006.

Enfim, «A Guerra da Meseta», romance de trezentas e muitas páginas impregnadas de um século político e social que se confunde com as memórias biográfico-vivenciais do autor. A guerra do título, em si, pouco relevo acaba por ter no desfiar narrativo. A guerra, por assim dizer, é outra, aquela que o narrador trava com o revisitar do seu passado. O ‘mecanismo’ narrativo é de formatação cinematográfica; o livro começa com um momento presente em que encontramos o narrador em cavaqueira gastronómica com amigos, para depois se espraiar numa viagem que recua quase um século. Temos então Max, Max o historiador, casado com Vânia, pai e avô, a braços com uns exames médicos que tem (têm) de fazer, e logo depois temos um Max outro (outro?), a criança quase cega por acidente pelo irmão mais velho, Chich. E por aí adiante, misturando com habilidade e detalhe momentos da vida familiar com momentos outros de um país que atravessa uma «grande noite» – a do Fascismo, como parece óbvio: «Nada se passava. Porque se se passasse não se passaria. Nem na Istmânia nem no Mundo. De resto, o Mundo não havia. Nem hoje nem amanhã.»

Com minúcia, extremo pormenor descritivo (donde a frase curta, sucessiva, cortante, incisiva), imprimindo forte ritmo de leitura (também por via dos múltiplos e curtos capítulos), Artur Portela oferece-nos um belo fresco de uma Istmânia (leia-se Portugal) formatada a la Ductor (Oliveira, claro está) – um país de sombras, ensombrado, quotidianamente cinzento, e de tanto assim quase ‘fantástico’, tal como o semelhava o plantado país à beira-mar durante quase meio século. As imagens impregnadas na infância do narrador traçam o retrato perfeito desta Istmânia, vivida e crescida como que pelos olhos do seu pai, o pai de Max – jornalista, correspondente de guerra, figura-farol aos olhos do filho que mais tarde lhe seguirá as pegadas no mundo das letras – também no que a filhos respeita, também no que ao uso do chapéu respeita.

Há momentos cheios de ternura neste romance de Artur Portela. Passagens bonitas e tocantes, passagens fortes e desarmantes. Às vezes, tão-só pela rememoração de um gesto, uma visão, uma ausência, um objecto, uma frase, uma personagem – sobretudo o pai, a figura do pai (tal alto que era o pai, e agora ali, como farrapo nas mãos das enfermeiras, «como se pega numa criança ou num boneco»! – era o pai, aquele? Ou «metade do pai»?). Às vezes, de forma marcante, como nesse mínimo e excepcional «O Conto da Mãe», ou no brutal e seco revisitar d’A Sala de Interrogatórios. A Istmânia prestava-se a este caldo de emoções contrastantes. No entreter da escrita, passam-se décadas. O narrador cresce, há personagens que desaparecem. Outras vão e vêm. O mundo corre, morre, reergue-se. A Istmânia vive a censura, a guerra, a revolução. Com os leitores, Max volta ao presente e aos exames que o prendem ainda à vida. Do lado de lá do vidro Vânia sorri. O médico, dias depois, examina os resultados dos exames e lê com atenção ausente o relatório num envelope. Lê-lhe, nas imagens ao negatoscópio e nas palavras dentro do envelope, a vida, é como se a sua vida inteira ali se resumisse, com uma imensa clareza. Justamente: uma guerra que ali termina e se expõe à morte adivinhada – estará Max, como o general Sabre, disposto e com forças para declarar uma outra guerra, uma guerra a Deus? Estará disposto a aprisioná-lo? ~

por pedroteixeiraneves em Abril 23, 2009.
http://pedroteixeiraneves.wordpress.com/2009/04/23/ptneves-no-pnetliteraturapt-artur-portela/