As Noivas de São Bento
INTRODUÇÃO
Quem é o autor destes 121 documentos, 77 rascunhos de cartas, 27 de bilhetes, 6 marcados como de cartões-de-visita, 10 como folhas de instruções e 1 como mero apontamento, dirigidos a 24 mulheres, e 4 alocuções dirigidas a centenas de outras?
Decerto um jogador de poder. E onde o poder masculinamente de facto se decide. Se funda e depois se decide. Decide se se usa, se se simula, se se castra. Sendo, aliás, destas mulheres, uma a Mãe do autor das cartas.
A assinatura disponível é, quando é, uma inicial. Correntemente, um O. Raras vezes um A. Outra talvez letra deixou, a fechar esta ou aquela carta, um sinal de rasura. Porventura reveladoramente sinuosa.
Romance epistolar de um signatário só. Porque o que sabemos de tantas mulheres, deste corrupio, desta contradança, deste roçagar de ramos de flores e de saias de seda, deste conflito de perfumes, desta almofada espetada de alfinetes, deste uso de usadoras, deste cumulativo e impossível noivado, desta gestão de entradas e saídas, desta governanta de sentinela, deste país sem homens ou de maridos distantes, desta expectativa, destas galinhas de traseira, destas águas que implacavelmente avançam e tudo submergem, deste perigo de que o pessimismo é a única esperança, sabemo-lo através deste filme manuscrito.
Um mapa em forma de perfil.
A ordem dos textos, nenhum deles datado, corresponde à da sua disposição em caixas separadas - assim foram descobertos, assemelhando as caixas aquelas onde se guardam sapatos, mas estranhamente mais altas. Dir-se-ia que de botas. Vamos, de botins. Seis caixas aqui propostas como seis "Décadas". Tão dilatado parece ser este jogo de seduções, imposições e despedimentos.
Havendo ainda, fugidia, a pista de São Bento, em pouquíssimos destes textos recomendado para não se entende que "males de ladeira". Deu-lhe para aí o título deste livro e fez seu esse nome beatificado.
Um puzzle.
O que diz, no mínimo, do escrúpulo concêntrico e acautelado do autor dos 121 documentos. Escrúpulo que, porém, reproduz alheios poemas. Acauteladamente não os dizendo seus. 121 documentos, dos quais uns 11 num forçadíssimo francês simultaneamente remoto e interior. Meio dezoitista . Sem mestre a não ser a vontade, que não disfarçará o desejo. O desejo, de quem o usa, da talvez inesperada francesa que o suscita. Francês de que se dá, em pé-de-página, o português que o impôs.
Porventura tudo pelo risco afirmado por Garcia de Resende, em escrito dirigido ao camareiro-mor de D. João III, D. Francisco de Castelo Branco, e datado de 20 de Novembro de 1535: " Se as cartas não fossem cartas, muitas vezes escreveria a V. M. como desejo, mas porque o são o não ouso fazer, pois não as leva o vento, como palavras e prumes, antes se guardam tão bem, que a todo o tempo se pode pedir razão de como se escreveram e porque as escreveram ."
O exacto oposto de outro O., este identificadamente Oliveira, cavaleiro do século XVIII, famoso pelas suas cartas, que nelas, e de si, dizia: " Uso, quando escrevo, de dizer o que me vem à boca ." Como se sabe, acabariam por queimá-lo, embora só em efígie.
Se quiserem, este romance é uma identificação. Como memória da literatura epistolar seiscentesca e setecentesca, quando o comércio dos espíritos era absoluta condição existencial.
Cumulativamente, é uma metáfora diluviana. E, no quotidiano da sempre crescente ameaça das águas, talvez bizantina.
O jogo é este. Rien ne va plus! Artur Portela |