O tesouro
Andando os três irmãos de Medranhos na mata de Roquelanes, encontraram, numa cova, um cofre de ferro. Conservava três chaves em três fechaduras. Dentro, dobrões de ouro! Estalaram a rir. Para logo se encararem, numa desconfiança tão desabrida que apalparam nos cintos os cabos das grandes facas. O mais avisado começou por decidir que o tesouro entre eles se repartiria. Mas como carregar o cofre? Por isso ele entendia que o mais leve devia trotar para a vila, a comprar três alforges. Mas este, desconfiado, disse: "Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!" O mais avisado sorriu. Decerto! A cada um uma das chaves. E cada um cerrou a sua fechadura. Imediatamente o mais leve saltou na égua, a caminho da vila. Sentaram-se, junto de um tanque de água, os dois restantes. Então o mais avisado considerou que o que se fora, nessa manhã estivera quase para não vir à mata. Sorte ruim! Se ele tivesse quedado em Medranhos, só entre eles se dividiria o ouro! Grande pena! Até por ser mais que certo que, se ele tivesse, sozinho, achado o ouro, não dividia com os irmãos! Ambos se ergueram, levados pela mesma ideia. "Pois que morra, e morra hoje!" O mais avisado agarrou o braço do irmão: "Hás-de ser tu, que és o mais forte. Um golpe de ponta pelas costas!" Esperaram, emboscados, por trás de um silvado. Enfim! O irmão voltava. O mais avisado murmurou: "Na ilharga!" O irmão atirou o braço; - e toda a lâmina se embebeu na ilharga do que chegava. "A chave!", gritou o avisado. Arrancada a chave ao morto, ambos largaram pela vereda. Debruçou-se o assassino sobre o tanque, a lavar, das mãos, o sangue. Então o mais avisado tirou do cinto a sua larga navalha e enterrou a folha no dorso do irmão. Caiu este sobre o tanque. Pelo que o mais avisado lhe pôde tirar a chave. Agora eram dele as três chaves!...Seu, o ouro! Depois foi examinar os alforges daquele que à vila fora. E encontrando duas garrafas de vinho, pôs um gargalo à boca e bebeu. De repente, numa ansiedade de carregar os alforges, tomou um punhado de ouro... Mas, largando os dobrões que retilintaram no chão, levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. "Socorro! Alguém! Irmãos!" Viu os corpos. E de repente, esbugalhando os olhos, berrou, compreendendo todo o horror: "É veneno!" Porque o irmão, apenas chegara à vila, correra a comprar o veneno que o tornaria o dono de todo o tesouro. Dali a pouco, três corvos bicadamente repartiram os três corpos: "Este é Dom José Manoel!", "Este aqui só pode ser Dom Pedro", "E este, este, é claro que é o Dom Marcello!"
Artur Portela
23.07.04 |