entrevistas
multimédia
entrevistas
multimédia
entrevistas
multimédia


Palavras proferidas por Artur Portela
no funeral de Artur Ramos

O orador informou os presentes que preferia ler uma mensagem que acabara de receber. Desdobrou umas poucas folhas de papel e começou a ler:

“Você fala.
Depois do Rebello.
Dois, três minutos.
Não me ultrapasse os três minutos, homem!
Escusa de levar fato preto.
A Helena estará na primeira fila, entre a Sofia e a Cláudia.  
Quero que todos os outros estejam calados.
Flores ao fundo. Não me afoguem tudo com flores!
A Lourdes que não chore.
O Pedro que não resmungue.
O Charters que não diga que o São João é um teatro, mas no Porto.
Todos os sítios são, se quisermos, teatros.
E todos os teatros são espantos.
Eu estarei onde tenho de estar, em cima de uma plataforma.
Não exagere nos elogios.
Diga que fui um militante.
Desde logo, embora não só, um militante da cultura.
Diga que eu fiz televisão: a que havia a fazer e no negativo daquilo para que a queriam.
Diga que eu fiz teatro.
Diga que eu fiz cinema.
Diga que, dantes, os animais censuravam. Hoje, os animais não censuram. Embora continuem a exagerar!
Diga que eu dirigi gente.
Diga que eu fui um arquitecto de gente.
Diga que eu fiz isso por causa da gente.
Para libertar a gente.
É para isso que o teatro serve.
A RTP foi outra história. A RTP FOI OUTRA HISTÓRIA!
P quer dizer Portuguesa!
Ou quererá dizer Portugueses?
Os textos, caramba, os textos! O Miller, o Manel da Fonseca, o Brecht!...O Beckett!
Diga que nada desculpa ninguém e que ninguém desculpa nada.
É também esse o sentido do Pinter.
Mas diga também que o amor é uma grande exigência.
E que a ternura pode ser a mais libertadora das indisciplinas!
Diga que eu brinquei com os meus netos.
Levei-os aos teatros que podem ser todos – diga-o aí ao Charters - e tudo e em todo o lado!
Os leões dos Jardins Zoológicos, quando os ponho a ensaiar para os meus netos - entram da direita para a esquerda.
E os palhaços dos Circos riem quando eu disser.
Os ursos não, os ursos não! Já disse que os ursos não entram agora, caramba!...
Se depois vir os meus netos mais pequenos, faça-lhes uma festa por mim na cabeça.
Peça-lhes desculpa pela sua mão não ser a do Avô.
Diga-lhes que a voz que ouvirem dentro deles e que lhes parece a voz do Avô são eles que me levam vivo dentro deles.
Eu agora aqui, pelos vistos, vou ter muito trabalho.
Aqui, como eu já sabia, ninguém tem asas nas costas, e ninguém sabe o seu papel!
Aí, uma última coisa, uma última coisa!... VOTEM BEM!...! Eu sei do que falo, eu nasci em 26!”

A nota vem assinada: Artur Ramos.