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Ex.mo Senhor
Director do “Diário de Noticias”
Peço e agradeço a publicação das
seguintes linhas.
Convidado a participar na XXX Feira do Livro e da Comunicação
do Funchal, e designadamente a integrar, com Joaquim Letria,
Armando Baptista Bastos, Paulo Nogueira e Leonardo Ralha, uma
mesa-redonda sobre as relações entre o jornalismo
e a literatura de ficção, testemunhei, no Teatro
Baltazar Dias, e no palco!, o incidente que o vosso jornal narrou,
há dois dias, na reportagem rigorosa de Luís Rocha.
Refiro-me à suspensão abrupta da mesa-redonda,
alegadamente por estar a chegar o sr. Chefe do Governo Regional,
com o objectivo de presidir ao lançamento de uma obra
de historiografia peninsular ibérica.
Ora, sendo os participantes da mesa-redonda convidados do Município
do Funchal, estando eles dentro do programa e dos tempos acordados,
e sendo o sr. Chefe do Governo Regional uma pessoa educada, além
do político que se sabe, estou seguro de que a interrupção
da mesa-redonda não se deveu à sua vontade.
Mais estou certo de que o sr. Chefe do Governo da Madeira, se
conhecesse a situação, teria assistido e participado,
com a alacridade que se lhe reconhece, no debate. Para mais,
sobre o jornalismo e sobre a literatura de ficção!
Após o que todos, ou quase todos, estaríamos no
lançamento do referido estudo transibérico.
Por tudo isto, que seria muito, se não fosse o que só pode
ser, estou na situação de tecnicamente indignado,
mas só até à nota galhardamente bem humorada
que o sr. dr. Alberto João Jardim decerto não deixará de
produzir a propósito, com fins pedagógicos.
Não tanto para a pedagogia dos participantes na mesa-redonda
que, ficcionistas, já colocámos várias hipóteses,
e nenhuma delas cometendo a injustiça de aventar a possibilidade
de o sr. Chefe do Governo Regional ser um homem sem maneiras.
Mas para a pedagogia de quem - coabitanto insular, institucional
e hierarquicamente com o sr. Chefe do Governo Regional - , o
agravou, com este formidável excesso de zelo, expulsando,
de um palco de teatro, meia dúzia de ficcionistas continentais
que muito querem à Madeira e aos Madeirenses.
Dos quais, o sr. Chefe do Governo Regional é incontestavelmente
filho emérito, tendo-o porém o meu querido amigo
Ferreira de Castro desencontrado nas cadeiras de vime dessa vossa
deliciosa Esquina do Mundo!
Tanta é a confiança de que o incidente não
deixará de ser esclarecido por quem de direito, para que
os escritores continentais continuem a olhar a Madeira na sua
vera luz, que, mesmo depois do incidente, não deixei de
depor, nas mãos informadas do sr. Secretário da
Cultura do Governo Regional, um livro meu - dedicado ao sr. Chefe
do Governo Regional, e datado, simbolicamente, de 25 de Abril!
Aceite, sr. Director, os melhores cumprimentos de
Artur Portela
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