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Apresentação do livro
em 20.07.04,
no Reservatório do Museu da Água/
Mãe de Água das Amoreiras
O Aqueduto das Águas Livres onde estamos pode ser, no seu todo, a enorme coluna vertebral de uma memória. Da memória da obra concreta que foi, fazendo-se, o Aqueduto. Mas também da global memória de nós. De como somos. Dos materiais com que nos construímos. Da História cultural e política a que nos devemos. É-o, no caso.
Porque Pedro Almeida Vieira, neste seu romance Nove mil passos , toma, evoca e efabuladamente narra esta grande obra de servir e de dar a beber, de matar a morte, matando a sede.
Mas também, mais largamente, nos retrata, nas fatalidades culturais - improdutivos e transitários que então, ainda, e já, éramos -, nos gestos e nas paixões e nos interesses e nas obediências confessionais e na luta que travámos para fazer e não fazer, decidir e indecidir, acelerar e adiar esta grande coisa que foi o Aqueduto das Águas Livres.
Desde antes.
Desde quando Francisco d`Ollanda propôs, na sua Da Fabrica Que Falece à Cidade de Lisboa , que se rompa da Cidade o cerco que a ela a sede pôs. Desde então até quando investimos e quase esgotámos o que pelo mar, do Brasil, trouxemos, no teatro de ver, e de poder, do Barroco, esse teatro já europeu de Estados-teatros.
O estaleiro do Aqueduto somos, assim, nós. Costas quentes de ouro transatlântico, balcão comprador de modas e de traçados virado à Europa. Entretanto a sede. O escândalo da sede. Não podia ser, não foi. Mas foi, como por este livro se vê, o cabo dos trabalhos. A guerra na paz há tão pouco conquistada.
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Mas é também este romance de Pedro Almeida Vieira uma metáfora. Sendo aqui a água a vida, e a pedra a vontade. A água como espelho e como carne. A água que se bebe e se desvia e se inventa. Se trapaceia e se negoceia. Se vende e se rouba e se tributa. Água de que estes nove mil passos são estrada. A pedra de que este Aqueduto é rio. Por junto, teatro de nós, em lama, água sólida e pedra líquida.
Sendo toda a Terra a terra que se arrasa, e se desfaz, e se fura, e se mina, por baixo dela se indo, a terra que se conserta, e se transpõe, sendo ela também esse acto poético e dramático, da Engenharia. Engenharia, essa invenção, em directo, do futuro. Esse salto simultaneamente mortal e vital. Porque constrói, em larga medida descobrindo o quê e o como, e com que instrumentos, que ali mesmo, no estaleiro, à medida que constrói, concebe e fabrica. Engenharia que, nesta parabólica fábula de Pedro Almeida Vieira, empresta as mãos à Arquitectura. E vice-versa. Para fazer a paz e a guerra. E para fazer, por exemplo em Mafra, os cenários de pedra com voz de bronze que são, do lado de Deus, a sua política humana, e, do lado dos Estados, a sua política divina. Mafras e safras. E travejados festejos de rua. Coisas em que se revezavam, engenheiros militares, arquitectos de fontes e jardins e arquitectos de efémeras comemorações.
No caso, singularmente, para ir romper o cerco da sede. Para ir pôr cerco ao cerco. E passar por cima, em cantaria. Coisa de interesse tão geral que o Estado, isto é, o Rei, desconfiava, e por isso ora atribuía ora desatribuía ora suspendia ora atrasava ora tributariamente aproveitava ora pilhava. Ouvindo muitos e escolhendo, de todos, o que ele menos indesejava. Metáfora, este livro, também por tudo isto política.
Objectivo, assim, e, assim, pretexto este Aqueduto. Objectivo do engenheiro, que é Pedro Almeida Vieira e pretexto do ficcionista, que também é Pedro Almeida Vieira.
Narrado aqui, fantasticamente, pelo renascentista Francisco d`Ollanda, para além da sua vida. Sendo ele, neste livro, a voz que inventa o futuro, isto é, a voz inventada que faz, deste de nós passado, dele futuro, a crónica. Digamos que Francisco D`Ollanda - assumindo o serviço como a medida de todos os homens e de todas as obras humanas - é perspectiva cultural e moral na fundamentação da obra e na trama romanesca. Sabendo-se que foi pelo Humanismo que, desde logo, erguemos os nossos aquedutos: Setúbal, Aveiro, Elvas, Évora, Torres Vedras, Óbidos. E, como diz este livro, pelo Humanismo se intentaram os aquedutos de Coimbra e de Lisboa. Cidade que dramaticamente, estupidamente, estava cercada pela sede. À vista do Tejo que é por onde o Atlântico nos chega e nos descobre. Sendo Francisco d`Ollanda perspectiva crítica, personagem e narrador. Narrador da vontade política e a sensibilidade cultural, do arrojo e do limite, dos olhos e da barriga, dos inquisidores de Deus e dos pedreiros livres, dos conventos fáceis e das árvores voadoras.
Na dialéctica de pelo menos dois Portugais e de muitas mais paixões, e interesses. O Portugal cosmopolita, aberto, do jesuíta Padre João Baptista Carbone e o Portugal intestino do Prior de S. Nicolau, o fatalíssimo Padre João Antunes Monteiro. O Portugal do pré-iluminismo e o Portugal da Inquisição, sobre um fundo surdo de alquimia, hermética, cabalística e esoterismo. Tal como o Portugal onde, na ou para a Obra em causa, se travam de razões, de técnicas, de soluções, o arquitecto alemão João Frederico Ludovice, o italiano arquitecto Antonio Canevari, os nossos Sargento-Mor Manuel da Maia, Azevedo Fortes, o bravo Brigadeiro Silva Pais e o engenheiro militar Custódio Vieira, finalmente o húngaro Carlos Mardel. Digamos que já, circulante e por algumas vias comunitária, a Europa.
Tudo isto numa super-produção literária, com centenas e centenas de figurantes: mestres-pedreiros, alvenéis e carpinteiros, serralheiros, boieiros, peneireiros, brocadores, padres, frades, bufos, militares, cirurgiões-torturadores, labregos e mirones citadinos. Multidão de que se destaca, mulherengo, odivelense, freirático, o Rei. Esse anti-herói pomposo, paspalhão, sorna e cobrador, habilmente emboscado na etiqueta e na pragmática. Que é ele quem, e onde, e por quem, tudo e nada se faz. Uma reportagem dramática e colorida, a da vida e a do poder, num Portugal que paga a diamantes contados os versalhismos e as transferências de militares e de arquitectos italianos - não esquecendo que este romancista que é engenheiro também é jornalista.
Até ao salto maior e mais arriscado desta estrada de água, o lanço do voo de cantaria sobre o Vale de Alcântara, com a sua desmesura e o seu então escandaloso barbarismo gótico. Que reproduzirá, diz a inventiva, o pôr de mãos e de dedos em forma de coração invertido da bela Serafina, estalajadeira do Monte Santo, isto é, Monsanto, paixão do engenheiro Custódio Vieira. E que conquistará a anuência de D. João V chegando-lhe, diz a ficção, em maqueta comestível, em bolo de amêndoa. Não desarma, porém, por que nos está, digamos, na massa do sangue, a intriga. Sobretudo a do prior de S. Nicolau. Até que o narrador, o nosso Francisco d`Ollanda, se cansa e directamente intervém, fazendo justiça com a ajuda de Dante Alighieri.
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Romance assim histórico.
Não um museu de papel superficialmente dramatizado, não uma reconstituição animada por um fio de intriga, não um cortejo de pitorescos e de anedotas, não uma pré-telenovela. Nem o cenário de um século nem o telão de uma época. Mas um romance ele mesmo, na - cá está ela outra vez - arquitectura romanesca, no respiro cultural e social. Na inventiva, na descoberta, na surpresa, na emoção, no riso e nas lágrimas, a par e passo da sua construção, do seu desenvolvimento, do seu ritmo e da sua linguagem.
Na sua paradoxal datada intemporalidade.
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Duas obras barrocamente, e não apenas barrocamente, nos dizem: o Aqueduto das Águas Livres e o Real Convento de Mafra. O serviço e o aparato. Duas obras que projectam dois Portugais: o do homem concreto e medida de si e do mundo e o homem esmagado pelo teatro dramático e operático de Deus e do Seu delegado poder no Fidelíssimo Magnânimo. O Portugal da demanda humanística e o Portugal do Barroco. O Portugal da Nação e o Portugal do Estado. Tão decisivamente expressivas as obras, o Aqueduto e o Convento de Mafra que - pudera não! - já têm romances. Cada uma o seu. Sendo este, cujo lançamento nos junta, hoje, aqui, evidentemente um deles. Duas falsas - e ainda bem que falsas - monografias ficcionadas. Porque não é somente, nem sobretudo, de agigantadas obras que tratam. Sequer do nosso século XVIII e das suas setecentas e cinquenta mil famílias. Mas de Portugal e dos Portugueses. E, assim sendo, da natureza humana, como toda a grande ficção. Falo, naturalmente, do Memorial do Convento , de José Saramago, e do Nove Mil Passos , de Pedro Almeida Vieira.
Artur Portela
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