A Marie
Claire Cortesão
Nesses dias, Lisboa era Portugal. E Portugal era o mundo. Onde
o mundo se fazia.
A rua era a casa. As praças, varandas. Os quartéis,
esplanadas. Os ministérios, corredores. As fardas, liberdades.
As armas, floreiras. As cabeças, léus. As patentes,
tus. Os pescoços, lenços. Os óculos, espelhos.
Almirante Reis, um rio. O Tejo, uma avenida.
A cidade era um desembarque do mundo. Os aviões eram
camionetas com asas. Vinha aqui ver-se o futuro. Fazer-se aqui
férias do passado. Paxs ideológicos. Gazeta ao
presente. Todas as respostas eram aqui, embora não respondessem às
perguntas. As perguntas, sobretudo as francesas, não era
importante serem respondidas. Mas feitas. E multiplicadas. Nisso,
os espanhóis sabiam, esperadamente, mais. As respostas
estavam no ar. Apanhavam-se à mão.
Todos os dias eram manhãs. Acordava-se S. Petersburgo.
Dormitava-se Estocolmo. À noite, era a China. Havia Chiles.
O Brasil era aquele cálice. Cafés faziam sovietes.
Os liceus desfraldavam bandeiras. Sobravam conselheiros revolucionários
para os procópios. Os embaixadores pediam esmolas de dicas.
Os sustos faziam as malas à pressa. Tornavam a tornar
a viagem. As paredes escreviam-se a si próprias. Os livros
eram diários. A rádio via-se. Os jornais ouviam-se.
A revolução era um filme por montar.
Foi nisto tudo, neste filme, num jornal arrevistado, meio nouvel
observateur meio o que só ele foi, encaixado num primeiro
andar de escada íngreme, debruçado sobre o combro
de uma calçada da Lisboa antiga, à distância
de uma breve corrida até à casa de obras, que começa
a história deste livro.
O jornal arrevistado era uma mal cheia mão de jornalistas
e um punhado de colunistas, uma confusão de poucos num
espaço pouco, provas, fotografias, capas, máquinas
hoje arqueológicas, leitores escada acima escada abaixo,
correspondentes estrangeiros, militares, sociólogos, sindicalistas,
motociclistas-mensageiros, abaixo-assinados.
Foi aí que, um dia, apareceu, anónimo nesta desordem,
avulso, misturado, mas indisfarçável, desculpando-se
pela sua evidência, por ser mais alto, por ser meio inglesado,
por exibir um delicado mas impositivo sorriso, por olhar verde,
por fazer debruçadas perguntas em redor mas em vão,
por a alguns parecer meio príncipe meio Mr. Hulot, aquele
homem.
Eduardo Luís.
Exibia o infalível maço de papéis na mão.
E procurava o director.
O qual, estando, como sempre, ali, do lado de lá da sala,
em contraluz, na moldura de uma portinhola, demoraria, era tanto
o movimento, os papéis, as entornadas fotos, os fios enrodilhados
dos perdidos telefones, um tempo enorme a identificar-se.
Foi aí que Eduardo Luís fez o seu charme e induziu,
profissional, a tranquilidade. Fez-se-lhe um redor. Estava com
a revolução, com o jornal, com o próprio
director do jornal por afectos familiares. E estendeu o maço
de papéis.
Quando saiu, dir-se-ia que nunca tinha entrado, repôs-se
a confusão. A única diferença era que o
director ficara com o maço de papéis na mão.
Era, viu aquele que escreve estas linhas, um artigo.
O primeiro de uma série que durou três anos: de
1976 a 1978.
E que será um livro, proposto justamente por esse director
a uma casa editora. Este livro que tu, leitor, tens na mão.
Um psiquiatra na revolução não é evidentemente,
e nem o João Cabral Fernandes nem eu queremos que ele
passe por tal, mesmo perante os geracionalmente menos precavidos
ou perante os " ouvidores laicos " em geral, sobre a
revolução da psiquiatria (uma das suas aproximativas
revoluções).
Nem é o que foi a nossa psiquiatria nessa concreta revolução
portuguesa.
Nem o que foram sendo as intervenções do mestre
universitário, do psiquiatra, do introdutor de avanços
específicos psicanalíticos e grupanalíticos.
Este livro é simultaneamente menos e mais.
É este livro um gesto. No sentido amplo, cultural e ético,
exemplar, solidariamente individual, de gesto. Que, desde logo,
importa situar. Historicamente datar. Conceptual, linguística,
emocional, afectivamente situar. Como combate, polémica,
pedagogia, fabulário, metaforismo, empenhamento na clareza
e na eficácia, reiteração, jornalismo cultural-ético.
Aceite isto, a circunstância e o homem na circunstância
são a riqueza e singularidade deste livro. A sua generosidade
e a sua exemplaridade. E essas, concordar-se-á, essenciais.
Um gesto.
Decerto o gesto de um psiquiatra, e de um psiquiatra que compreende,
no concreto, no imediato, no próprio quotidiano, a oportunidade
simultânea de avanços da psiquiatria na revolução
e de vantagens para a revolução de avanços
da psiquiatria. Para o eu que há no nós. Para os
poços profundos que há nos rios. Na perspectiva
de uma " psicologia política ." Numa articulação
entre o " distúrbio psíquico individual " e
o " distúrbio psíquico social", a sociopatia .
Num exercício de assumido risco que ele, com a seriedade
essencial da questionadora ironia, define aqui como politicoterapia .
Pela saúde mental política . E pela saúde
mental da própria política . Também
a fim de que a revolução fosse, não só uma
revolução política, uma mudança de
regime, mas uma " revolução moral ". Uma
revolução do carácter pelo carácter.
No critério de que, na saúde política, estaríamos
- e porventura ainda estaremos - " a sofrer predominantemente
de moléstia do carácter mais do que uma qualquer
neurose lusitana ou suposta psicose nacional ".
Mas também o gesto do homem que este psiquiatra foi:
a coragem, a intervenção, a afectividade, a generosidade,
a solidariedade, a alegria.
E o risco.
Desde logo, o risco do escândalo corporativo, de pública,
periódica, directamente se dizer, e se dizer sobre o quotidiano
político, social, cultural, económico, de dizer
a sua cidadania de médico, de psiquiatra, de professor.
Aquela que nem a prudência, nem a academia, nem a ambição
então usavam normalmente, assim lavando, do quotidiano,
do motim de títulos, as mãos. Hoje, a exposição
constante dos psiquiatras e psicólogos é corrente.
Eduardo Luís fez isso quando ninguém fazia. Antecipou,
compreendeu antes. Fez o que há a fazer quando os caminhos
não estão abertos: abriu-os. No momento cumulativamente
próprio que foi a revolução. De cara descoberta.
Espontaneamente. A uma só voz. E não na ponta de
perguntas.
Depois, o risco dos afectos, das escolhas, das opções,
das solidariedades: Eduardo Luís não era um capacete
azul ideológico, neutral, desarmado e auto-simétrico.
A esperança tinha ideologicamente nome próprio.
Que ele usava a peito descoberto. Assumia, as convergências
e as amizades. Gostava, não gostava. Impacientava-se.
Dizia funções, dizia nomes. Chamava-os à pedra
das suas responsabilidades. Das suas obrigações
e das suas coerências. No critério de que as gavetas
não servem apenas para meter coisas, mas para, delas,
tirar, e assim pôr a uso, coisas. Batia uma vez à porta,
batia duas vezes. À terceira era capaz era capaz de atirar
uma pedra à vidraça. Sobretudo se o edifício
fosse neo-clássico e institucional. E tivesse leões
de pedra à porta. Porque toda a esperança tem limites,
os humanos.
Depois, o risco jornalístico da resposta a quente, o
risco do próprio erro inerente ao tempo jornalístico.
Finalmente, o risco físico. O que hoje se sabe que não
chegou a ser, então era quase todos os dias certo que
seria. Brandos que então fossem os costumes, os nossos,
o que, como se sabe, nunca foi historicamente líquido.
Tudo isso é Um psiquiatra na revolução .
Diário de bordo de um combate. Diário de bordo
de um combatente.
Com uma matriz neo-racionalista, uma familiar, uma herdada e
modernamente reassumida pedagogia seareira, límpida e
inteligível, de renovação da mentalidade,
de criação de uma opinião pública
adulta e avançada, de avanço para reformas, de
defesa, não tanto da revolução como circunstância,
mas como futuro.
Um " semeador da esperança ".
Com um leit-motiv: os valores éticos da Esquerda.
E em defesa de oportunidades únicas: a do escrutínio
interior corajoso e verdadeiro, a do luto que podíamos
ter feito, a do enfrentamento da depressão pessoal ou
colectiva, a da elaboração psíquica, social
e política, a da tolerância, a da esperança,
a da força moral, a da " edificação
do carácter ", a da coragem do desacordo, a da responsabilidade
do concreto, a do exemplo.
Contra os mecanismos de negação, a paleofobia,
o narcisismo, o exibicionismo maníaco, o flibusteirismo
da Esquerda, o partidismo, o nepotismo, o tartufismo, o culto
da impersonalidade, a castração, a mitomania política,
o suicídio político inconsciente, a cultomania,
o neuroticismo não-alinhado, o mimetismo paranóico,
a fantasmática ansiedade irracional, o bode-expiatorismo,
a complacência, a aquiescência, o laissez-faire ,
o " adoecer colectivo do carácter ".
Na perspectiva de que " um acto de amor é um acto
de combate ".
" Batalha do carácter ", também lhe chamou
ele. Sendo o carácter, não apenas um capital, uma
reserva, uma intimidade, uma distinção, mas uma
acção, uma construção pessoal e efectiva
se efectivadora, uma sociabilidade, um civismo, uma concidadania.
Batalha de princípios. Na perspectiva de que " os
princípios têm de traduzir objectivos concretos,
claros e inteligíveis ", não podendo, não
devendo " estiolar-se em slogans idealistas ou demagógicos "
Capaz este homem de se zangar. Não apenas com as coisas,
com o estado das coisas, e as coisas do Estado, mas com os homens.
Com aqueles que. E por eles não serem capazes de. Há,
porventura, nestes textos, na intensidade do afecto destes textos - que
cronológica, digamos que jornalisticamente, aqui se ordenam - um
crescer do lado imediatamente de lá desse afecto. Ele,
que não se poupa, não os poupa. A generosidade
também tem o direito à indignação.
O que se passa é que a revolução perde,
uma a uma, e a céu aberto, oportunidades. Consolida, por
vezes em lugares errados. Empobrece a espontaneidade e a franqueza.
Desdramatiza, mas segreda até à ocultação.
Acultura a sua normalidade. É a " epidemiologia da
ruminação-passivo-agressiva-lusitana."
Digamos, aliás, que Eduardo Luís Cortesão,
o inicialmente bloqueado, o depois exilado, o estrangeirado anglo-saxonizado,
o pragmático, o dinamizador, o introdutor da grupanálise
entre nós, o inaugural, mas também o singular,
o elitista, o perfeccionista, o exigente, o defensor de um certo " aristocratismo
do conhecimento científico ", logo porém compartilhado,
o meio-renascentista, o excessivo de si próprio, e sobre
os outros, veio, pudera!, a morrer quase só, cultural,
profissional, dimensionalmente, só.
Impar, no vazio que a estatura, quando quase nada ou quase ninguém,
em redor, a alcança, pode ser, pode impor. No vazio que - cumprido
embora o cerimonial que o fim usa registar, e mais os créditos - se
fez. Mas logo depois cuidadosamente se fechou. Reabsorvido. Tapado
por outros passos mais alcatifados.
Eduardo Luís caiu, de pé, numa batalha que foi - por
encerrar que esta ficou, largos anos depois - a mesma. Num combate
digamos que justamente cada vez mais impaciente, cada vez mais
indignado, contra a burocracia, a lentidão, o formalismo,
a pequenez.
O pensamento cretino .
A velhíssima sacripantice .
Digamos que há, neste livro, um protagonismo. Digamos
que veemente. Que terá tido a sua circunstancialidade
cultural e política: a revolução e a sua
vertigem. Mas que também teve, e nas intervenções
reunidas neste livro de forma muito rica de espontaneidade, a
indelével personalidade deste homem. Dizendo-se, influenciando,
fazendo inflectir. E, para tal, se mostrando. Colocando-se no
terreno. Exibindo-se.
Eduardo Luís e a OPÇÃO escolheram-se mutuamente
porque ambos quiseram pensar e fazer pensar a revolução.
Digamos que seareiramente fazê-la reflectir.
Pensar-se por dentro, cumprir-se cumprindo-se, acontecer acontecendo-se,
adiantava Eduardo Luís.
A OPÇÃO era, não apenas o jornalismo pontual,
embora analítico e crítico, mas também um
conjunto lato de perspectivas, de propostas. Na sua estratégia
editorial geral. Nas suas reportagens. Nas suas entrevistas e
mesas-redondas. Nos seus inquéritos. Eram seus colunistas
mais ou menos regulares: Eduardo Lourenço, Remy Freire,
João Cravinho, António Lopes Cardoso, António
Reis, Eduardo Prado Coelho, Kalidás Barreto, Sena da Silva,
Maria Belo, Luís Sttau Monteiro, César Oliveira,
Jorge Fagundes, José Augusto Seabra, Gonçalo Ribeiro
Teles, José Manuel Galvão Teles, Aurora Murteira,
Diniz Machado e outros. Numa palavra, um banco de opções.
Propunha-se a OPÇÃO pensar Portugal e a revolução.
Adiantar interpretações, discutir e propor medidas.
Num empenhamento global de modernização e de democratização
social, cultural, económica.
Um papel ambicioso.
Que Eduardo Luís, não apenas não temia,
como desejava.
Dir-se-á que a pontaria alta deste homem passou sobre
as cabeças baixas. Ou ocupadas em prioridades outras.
E que a pequenez, pelo seu lado, sempre teve razão ao
considerar demasiado altos, et pour cause, os gigantes. Que todo
este investimento foi o que só podia ser: uma vitoriosa
derrota.
Mas não era aquela uma revolução? Não
são elas isso? E não o sabia, Eduardo Luís?
Não ganhou ele, ele e o seu magistério académico,
ele e o seu ensino da psiquiatria, ele e a sua direcção
clínica hospitalar, ele e a sua clínica privada,
com esta intervenção, este élan, esta coragem?
Este voluntarismo? Ele e todos aqueles que ensinou, que mobilizou,
que responsabilizou?
Há muito mais Eduardo Luís Cortesão, e
porventura mais institucional, mais reconhecível pela
gravidade em que alguns de nós só nos reconhecemos.
Mas este Eduardo Luís é também esse mais
institucional. Com a diferença de que este é aquilo
de que muita dessa gravidade talvez não tivesse sido capaz.
Um psiquiatra na revolução é,
pois, a crónica de uma coragem pedagógica e uma
cidadania moral. Diz este livro que não há homem
sem aquela parte de si que se decide, decidindo o mundo. Diz
que Eduardo Luís é o professor aberto à pátria
do mundo que todos os mestres universitários só poderiam
ser, sob o risco de o não serem. Diz que Eduardo Luís é o
psiquiatra que soube sê-lo como exclusividade, mas na sempre
premente totalidade que é o humanismo. Diz que Eduardo
Luís foi - e o seu exemplo é-o - um dador de afectos,
um dador universal de afectos. Diz que Eduardo Luís Cortesão é cultural,
eticamente da estirpe daqueles de quem herdou o apelido e de
quantos com esses estiveram. Falo de um Armando Cortesão
e de um Jaime Cortesão. Falo de um Raul Proença.
Falo de um Luís da Câmara Reis. Falo de um Azevedo
Gomes. Falo de um António Sérgio.
Pelo que Eduardo Luís Cortesão cultissimamente
dizia, a um tempo, os sonhos que humanamente somos e a identidade
a que portuguesmente nos devemos.
A sombra que este homem deixou é luminosa. E, porque
exigente até ao excesso, inapropriável.
Para quando as suas obras completas? Para quando a integração
do seu trabalho na perspectiva internacional dos avanços
pelos quais se bateu? Para quando o reconhecimento da multidisciplinaridade
da sua intervenção? Para quando o estudo da amplitude
da sua filiação e do seu alcance culturais? Para
quando a expressão viva - constante, exemplar e pedagógica,
de facto pública -, do seu nome, nas áreas e desenvolvimentos
que entre nós introduziu?
Este livro, à sua revelia, é uma desafiadora homenagem.
Permitimo-nos crer que o seu gosto gostaria.
Artur Portela |