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Quando as cadeiras vinham
das Necessidades

Posam para a fotografia a molhe, desarrumados.

Dir-se-ia ou um almoço nas hortas ou um banho, vestido, mas ainda não molhado de mar.

Dispõem-se em duas, três filas: uns de pé, outros sentados, de pernas cruzadas, outros ainda meio derrubados, na terra.

As camisas são brancas e descolarinhadas, há camisolas insistentemente listradas na horizontal, circenses, quase saltimbancas.

Riem bigodes, afilam-se barbas.

As calças são justas, as meias, altas, pretas.

As botas assapatadamente improvisadas.

Cruzam-se dois pares de braços, enfiam-se displicentes mãos em calças compridas.

Os chapéus vão do barrete amilitarado, meio marinheiro meio turco, ao boné.

Há, intercalados, dois chapéus de coco, um deles, abotoado de alto a baixo, apoia-se, oblíquo, numa bengala que verga.

Já não é Toulouse-Lautrec, ainda não é Nijinsky.

Seriam ciclistas se não fosse

a bola.

A bola está por terra.

Podia ser uma bala de canhão.

Mas não é, tem atacadores.

E cada tira de couro é um gomo. Castanha dourada. Dura como um corno. Pesada. Só enganadoramente esférica.

Ao fundo do grupo, há umas escadas. Não, um portão. Não, umas escadas com uma fonte atrás. Não, um muro.

Talvez seja em Carcavelos, na Quinta Nova. Se for, o mar, que não se ouve na fotografia, está a ser ouvido pelos homens que posam. Há olhares que o olham.

Deles, metade são ingleses, talvez do Cabo Submarino, entre Portugal e a Inglaterra, da Eastern Telegraph Company.  

Será porventura, no Campo Pequeno.

Do lado de cá da fotografia,

do lado de cá do campo,

aquela outra fotografia que depois mais formalmente se fará,

porque talvez estejam a acabar de montar uma tenda, uma tenda mole e roçagante, precária, talvez estejam a chegar as cadeiras acolchoadas e baixas e as mesinhas trazidas, ao alto, nas mãos da criadagem, do Palácio das Necessidades.

Chega, daquele lado, alargadamente, o Rei.

A sua comitiva,

um redor de militares, que insistentemente, repetidamente, se fazem uns aos outros continências,

e  às senhoras, de largos chapéus folhosos de tules brancos, e de chapéus de sol,

e às insistentes e múltiplas sobrecasacas.

Destas, uma faz um gesto a uma farda e esta um gesto ao grupo dos que têm em frente uma bola.

Aproximam-se, sorridentes, estes.

O Rei cumprimenta os jogadores.

Na vez dos portugueses,

é uma longa festa de acenos, sorrisos, apresentações circulares, exclamações, afinidades familiares, intimidades (o jogo ainda é um jogo e só pode ser aristocrático). Cumprimentam-se todos duas vezes, ao Rei todos uma vez. Embora ele detenha alguns. Usa o tu e os nomes próprios.

Na vez dos ingleses,

shake-hands vigorosos, interjeições-vogais, brados breves, acenos bruscos de cabeça, menções de bater de chuteiras, traduções, retroversões.

Fala-se inglês, há quem fale francês. As senhoras respondem com sorrisos. Os militares falam continências.

Isto enquanto cada vez mais há,

ao fundo,

móvel, oscilante, uma linha de multidão.

Mirone, toda de boné, quase toda porque há meia dúzia de boinas, e uma faixa de garotos de camisas brancas e gaforinas soltas.  

Alguns guardas, cada vez mais guardas, tendo a montante dois homens de chapéu de coco,  contêm a multidão com gestos-manápulas.

Ergue-se, dali, um rumor que não é firme,

digamos, digno de confiança,

porque um militar jovem, a gestos de um militar menos jovem,

atravessará, sempre em corrida, a segurar a espada contra as pernas, ora num sentido ora no outro, o campo

entre o grupo do Rei e aquela linha de multidão

para parlamentar com os homens de chapéu de coco,

indo dizer e saber o que importava que deste lado se soubesse e do lado de lá se fizesse.

Para que, vejamos, o jogo seja.

Joguemos, pois.

Há, a cada extremo do campo, umas traves em H que talvez sejam as balizas. Se for em Carcavelos, serão balizas de rugby.

Há, intermitentes, na terra acidentada, linhas brancas.

É mais do que um match, é a inauguração, digamos que a reinauguração, de um jeito.

Jeito que o Guilherme trouxera, de Inglaterra, um Verão, e estava meio alegremente à experiência, de vilegiatura, na Parada.

Os ingleses já estão no campo, à espera.

Nos seus lugares.

Os portugueses aos dois e aos três, conversando, despedindo-se dos que ficam de fora, ou voltando atrás para deixarem um chapéu, uma luva.

Dispõem-se, aproximativamente, no campo. Alguns parlamentam e trocam de posições. Por gentileza.

O match começa, nem todos os jogadores portugueses parecem sabê-lo.

Os ingleses já avançam, ruidosos, solidários, organizados, treinados, os nomes mais curtos, as passadas mais duras, a terra mais revolta, a poeira mais fácil.

Os portugueses riem, entreolham-se, movem-se pouco, incertamente, esboçam corridas, temendo talvez, este e aquele, a olhar para o lado do Rei, algum ridículo.

“Goal!Goal!”

Os brados são de todos: o jeito ainda é uma festa, o play ainda é fair.

A multidão não percebe nada. O ruído que faz é de espanto. Embora espanto de quê?

Pára uns momentos o jogo.

Os jogadores portugueses reagem. Aceleram um pouco. Trocam gestos. Combinam passes.

Mas é outro “Goal!Goal!”

Serão três, ingleses, assim.

Em redor do Rei, os militares abanam, discretamente, os quépis. Os ingleses são fortes. Pois, mas estão a exagerar.

É então que os portugueses se tomam de brios.

Falam entre si, alto. Distribuem-se papéis. Hierarquiza-se, em alguns casos genealogicamente, a ordem dos passes.

Sorri, sentado na cadeira baixa, as pernas cruzadas, a espada entre as pernas cruzadas, o Rei.

Debruçam-se para ele e acenam que sim, em redor, os militares. Sorriem as senhoras, num agitar de chapéus-de-sol. Oscilam aprovadoramente as sobrecasacas.

Os portugueses aceleram a corrida. Já revolvem a terra, já levantam poeira.

A multidão tumultua atrás dos guardas, que cerram fileiras.

Os ingleses compreendem, silenciosamente se entreolham.

Um, aquele que pousara numa pedra um chapéu de coco, não se percebe que sorri, mas sorri: o Cabo Submarino é trade.

Correrão, decerto, os ingleses, escoltando cavalheirescamente a avançada portuguesa.

(Que estará, pelo menos uma vez, em risco de ser uma jogada perdida. Mas que – porque os ingleses não exagerarão na sua tentativa de recuperação da bola -  acabará por entrar, devagar embora, entre as madeiras da baliza.)

“Goal! Goal!”

O Monarca entrega uma Taça tipo barcarola aos vencedores. Pegar-lhe-ão uns pela proa outros pela popa.

Nas costas das fotografias, duas colunas de nomes: os portugueses são longos, apelidados; os dos ingleses são curtos, Cox, Green, Watson, Wray, Briggs, alguns com uma ou duas iniciais: N.N., L.M., J.K., F.G.
 
O Rei não chegou a assinar a fotografia. Não voltaria a assistir a um match.

O que alguma coisa teria a ver com aqueles dois olhares

aqueles dois!,

que, entre a multidão, em vez de seguirem, como todos os outros olhares os lances da bola, no Rei se fixaram, e não mais dele se apartaram,

um de um sujeito de boné,

outro de um sujeito de boina.

 

 ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...  

O Rei partira. Escoava-se a comitiva, muitos braços dados. Os criados levavam as cadeiras.

Para trás, da multidão, ficara um resto.

Um borrão de gente.

E, desse borrão de gente, um grupo, macaqueava, no campo, sem regras sem coisa nenhuma, a pontapé, numa talvez improvisada bola meia de papéis meia de pano, nas canelas uns dos outros, o que havia visto.

Macaqueava, porque corria que se desunhava, e chocava, e rolava, na queda, na terra, e berrava.

Os que, de fora, viam ora vitoriavam ora insultavam ora troçavam.

Inaugurava-se ali outro jeito. 

 

Quando os relatos eram a p/b

Então os domingos eram de chumbo.

Um “eléctrico” procurava em vão passageiros.

Os jardins refugiavam criadas e um ou outro magala minoritário.

Os cisnes passavam por grandes galinhas estilizadas.

Ainda não havia turistas.

A cidade era um passeio de José Gomes Ferreira e um lápis de Carlos Botelho. Gatos e telhados. Talvez um polícia. A crónica do “Sempre Fixe”.   

A cidade estava toda ao futebol.

E tinha deixado as janelas todas abertas. Como bocas escancaradas. Relatando os jogos ao mar de telhas, às ruas vazias.

Os relatos eram cegos. Gritados mas cegos. Só se viam as palavras. Que eram a preto e branco.  

O estádio era lá para os lados do rumor.

Onde terminava a linha do “eléctrico”, levantava-se a cabeça e era o estádio.

De fora, parecia uma gigantesca caixa de sapatos, de cimento.

Entrando-se, o sol batia de frente e a pique.

A bancada era preta. As caras estavam tapadas de chapéus moles. Os assentos, duros, facultativos. Porque quase sempre toda a gente estava quase sempre de pé.

Não havia bandeiras.

A não ser uma.

O campo era ao meio da multidão e em baixo.

Uma convenção de giz sobre terra batida: as balizas eram grandes demais para um só guarda-redes.

As equipas vinham lá das escâncaras de um túnel, digamos que chupadas, aspiradas pelo clamor da bancada, e entravam de tropel.

Estremunhadas. Escanzeladas. Penteadíssimas mas escanzeladas.  

E vestidas de cores sedosas, emprestadas. Alugadas à pressa. Dois tamanhos acima. O vermelho era povo. O verde, às listras, burguesia. O azul tinha o álibi do rio. Era meio-marujo. Vinha, às vezes, do Norte, um azul com sotaque. Camionetas penosas traziam singularmente excursões que, mal chegadas, se equipavam.

Havia um assobio chamado árbitro que era assobiado antes de assobiar.

Choviam sobre os jogadores, do redor de público, tus, graças, alcunhas, regionalismos, bairrismos.

Os polícias, embrulhados em gordas correias pachorrentas, encostavam os cassetetes às pernas.

Às vezes, fazia-se, no estádio, antes de um jogo, sobretudo se não fosse dos mais correntes, um silêncio.

Alguém tinha apontado para a tribuna.

A tribuna onde aparecia, entre rotundos fatos numerosamente abotoados e pretos de chapéus de aba revirada e fardas gordas, uma singular farda elegante, umas luvas, uma capa sobre os ombros.

Os chapéus estendiam-se, num cumprimento. As fardas gordas faziam continências.

E a farda elegante, ao centro, cofiava um bigode amável.

Aí subia talvez, uma bandeira. A mesma. Sentavam-se todos, a farda elegante cruzava as pernas.

Isto demorava o tempo ou do pau a ser subido ou de um hino ou de ambos.

Atentos os polícias, atentíssimos os civis que barravam a bancada imediatamente abaixo da tribuna.

E logo se repunha o riscado da banda sonora.

A bola era velha e curtida. Soava a murro mal dado. Oco. Vesgo e rasteiro. Incontrolado.

As botas eram de pedra: porque chutavam eram chuteiras.

Avançava-se à lavrador, a abrir sulcos, a cuspir terra.

Os jogadores eram cometas de poeira.

Às vezes, os pés ou, pelo menos, as chuteiras, iam com ela pelo ar.

Quase não havia jogo aéreo: as nuvens tinham de se debruçadar.

As corridas eram ora num ora noutro sentido. Iam ora todos à uma da esquerda para a direita ora à uma todos da direita para a esquerda. Escanzeladamente. Tumultuosamente. Alternadamente. Levantando uma confusa nuvem de poeira.

Ao princípio eram todos morenos, berberes, dez minutos depois eram todos brancos. Havia, por vezes, talvez minhoto, um louro.

À frente ia talvez um jogador africano.

Das colónias que nos couberam.

Que não avançava, que esquivadamente fugia para diante, saltando por sobre e por entre todos os obstáculos que eram todos os outros, os do seu lado e os do outro lado. Delicadamente, receosamente, auto-discriminadamente. Fazendo das pernas um manejo e da bola um circo.

Pantera, jaguar, puma, lince, tigre, uma baralhada geo-zoológica aprendida no Sandokan.

O africano, tinham-lhe dito que era português.

Na verdade, sozinho que estivesse, ali, na cor da pele, era a terceira equipa.

Sendo a quarta a da arbitragem.  

Com os Espanhóis perdíamos sempre.

Brutalmente.

Vinham eles, civis, alegres e ferozes, de uma guerra. Aquela que colava, de gana, com as dos Conquistadores, sequência em que nós éramos, fronteira a paredes-meias, obviamente, antes dos aztecas.

Deixavam o bivaque nos balneários.

Tinham deixado nos quartéis os mouros.

Mas jogavam digamos que de rifle a tiracolo, mais lá entre eles do que connosco, encostando-nos a todos na parede da nossa baliza.

Ganhar àquela Espanha era marcar um golo. Contra três, quatro, cinco, deles.

Independentemente de nos termos rapidamente especializados em vitórias morais, que era o nosso forro cosido por dentro das vitórias deles.

Cada jogo eram três jogos: o deles, em que eles venciam, o nosso, em que nós estávamos quase a vencer e só não vencíamos por mais isto e mais aquilo, e um ainda outro, nosso, que era o de termos, de facto, sebastianicamente, vencido.
 
O Sexto Império.

Quase todos os jornalistas desportivos eram Camões des-rimados, fabulosos Mendes-tintos. Alguns, prévios ao latim. Pós-visigóticos. Prévios à Reconquista.

Uma vez, porém.

Uma vez, numa dessas derrotas, disse-se que.

Que, naquele jogo de bandeiras e de polícias, naquele jogo em que a tribuna demorou mais a encher de chapéus de abas reviradas e de militares, aquele jogador,

Aquele,

o mesmo que havia marcado um golo solitário, um daqueles golos tripas à moda de coração,

no final, quando era de levantar, na direcção da tribuna, o braço, o braço que devia levar, aberta, e apertados os dedos, a mão,

levantou, sim, um braço,

mas o outro,

e a mão

(que devia ser a outra, e ir, e assim ficar, estendida)

fechou-a, em punho.

Disse-se que foi imediatamente um roldão de polícias e de civis.

E que o árbitro, vendo-se só, de um golpe de vento, da bandeira, o vermelho, até apitou.

E que o jogador, levaram-no logo para um carro preto,

italiano.

E que, na confusão, houve quem tivesse seguido, a correr, o carro, gritando: GOLO!-GOLO!-GOLO!...

Isto, a ter sido, só podia ter sido um momento.

Aquele que todas as saídas de multidões engolem.

Como as de mais esta derrota.

Ombros encolhidos, abas dos chapéus nos olhos, cigarros chupados com fúria, o destino traçado, o fado descaroçado.

Todos na direcção da cidade, para, emudecida a rádio, fechar as janelas.

O golo não é marcá-lo, é desejá-lo.

O desejo, marcamo-lo, porém, na nossa própria baliza.

O fado, esta noite, cortará a pele.  

Talvez façam em Belém a Exposição. E, se fizerem, o Mundo será Português.  

 

 

Quando a chaimite foi à bola

 

De súbito, os estádios eram ruas de gente: o Estádio Almirante Reis, o Estádio dos Aliados, o Estádio da Avenida da Dita.

O Rossio era um estádio permanente, sem bancada e com os peões todos em campo.

Estádios em movimento, navegando ao sabor das ruas.

Bola, não havia.

Nunca se vira tanta gente junta sem bola. Só cravos.

Um jogo, porém, um dia, se fez.

Cumpriu-se.

Não se sabe se por teimosia, se por má organização da desorganização, se na mira de um comício que não chegou a haver.  

Talvez porque a multidão se tivesse enganado e por ali ido.

E, já que era um estádio, se fez dele um jogo.

Um jogo levado meio a sério pelo calendário baralhado e pelo soviete dos feriados.

Ocupou-se, assim, o estádio.

Começando por se discutir, como tudo, o jogo. A começar pelas regras.

O árbitro foi destituído e substituído. Na condição de que sufragasse cada apitadela, o que alegremente se cumpriu.

Reinventou-se o jogo.

Como era difícil pegar pelo lado da bola, manteve-se que continuaria esférica.

Os dirigentes desportivos foram todos destituídos, mas a sua expedita autocrítica, a sua sanha de emblemas, a sua lapela-floreira, recuperou-os imediatamente a todos.

Depois se veria até onde, o quê, e de quem.

Os jogadores foram lá dentro equipar-se.

Regressaram, trajando criativamente.

Cada equipa tinha entre oito a treze jogadores, que entravam e saíam livremente.  

O jogo era intermitente. Feitos ¾ de uma jogada, o estádio discutia o que fazer. E votava, sistema braço no ar. As contagens dos braços eram a olho. Havendo olhos díspares.

Cada golo pedia, exigia, um golo oposto.

Havia jogadores que mudavam voluntariamente de equipa. De vez em quando, espontâneos completavam jogadas.

Foi aí que a chaimite,

Foi aí que ela entrou no estádio, resfolegando primeiras.

Foi festejadíssima.

E deteve-se no exacto começo da relva.

Supunha-se que viera ver o jogo.

Assomavam, na abertura, aclamados, os ocupantes, o motor a trabalhar.

Um jogador, porém, percebeu que era com ele.

O estádio inteiro percebeu que era com ele.

Que a chaimite viera por ele. Mobilizá-lo. Chamá-lo a coisa mais graúda.

O jogador apressou.

Tomou, nos pés, a bola, avançou, fintou, fintou, fintou, a bem dizer solidariamente o deixaram fintar, e marcou golo.

Pelo que logo foi abraçado pelo guarda-redes batido.

Depois, equipado e tudo, subiu para a chaimite. Arrancou, com ele, a chaimite.

O jogador já enfiava a farda.

E foi fazer a parte que lhe cabia da revolução.

Talvez com a ideia de que já vinha.

Esqueceu-se. Ou demorou mais tempo do que havia suposto. E não voltou. Pelo menos, antes de o jogo acabar.

Foi porventura este gesto que fez o que faltava da revolução.

 

Quando o golo é golobalização

 

O estádio começou por ser, multimediática, uma promoção.

Era, a pedido, e a cachet, um relvado de cabeças, metade vermelho metade verde.

Uma bandeira-país.

Levada pelo vento dos balões.

Tudo captado por cameras com estabilizadores em helicópteros.

Para UEFA ver.

Os Cabos já não eram submarinos.

A ideia era o desejo de que se cumprisse, na globalização, a Nação.

A inflação da inflação era a esperança.

Depois, o estádio foram vários e a guerra foi construí-los por causa das acessibilidades e das dívidas aos construtores.

A UEFA vinha, fazia a contagem e dizia que faltava um estádio. Não, dois.

O desígnio era nacional mas os jogadores eram todos patrocinados e quase todos estrangeiros, quando muito de duplas nacionalidades. Mesmo os portugueses.

Havia africanos brancos e metade dos europeus eram negros.

Foi coroado rei um brasileiro chamado Põe-Dentes.

Os bancos assinavam as bancadas. Os condomínios alugavam empenas e, bem negociadas, fachadas. Os transportes públicos eram anúncios cheios de gente dentro. As grandes marcas chamaram-nos um Figo. Todo o consumo era exclusivo. Todo o design era descartável. O lixo era de luxo.  

Embora a UEFA.

Faltam dois estádios. Não, um.

Arquitectos foram, de audácia, engenheiros.

Todos os estrangeiros dormiam no Rossio e lavavam-se nos repuxos. Os comboios eram dormitórios das noitadas.

Tanto que a ocupação dos hotéis ficou abaixo das expectativas.

A multidão pintava-se conforme os decretos em directo do Põe-Dentes e dos modelos dos cartazes das cervejas.

A segurança fazia grandes manobras. E desencaixotava material.

Os árabes, viste-os.

Estatisticamente, falharam vários ataques terroristas.

Entrevistados por entrevistadores diferentes de três estações de televisão que faziam todos as mesmas perguntas, os jogadores diziam todos o mesmo.  

As filmagens fizeram-se de helicóptero, de dirigível e em vinte e três carris.

Todos os balões foram soltos.

Embora a UEFA.

Falta um estádio. Não, dois.

De uma vez, o público teve de esperar, de bilhetes electrónicos na mão, que o arquitecto assinasse o projecto.

Mataram um inglês meio holandês, dizem as velas e um banco de pedra. Não se sabe se o que, subindo, a partir do rio, uma calçada, virou à direita, e encontrou, em frente de um palácio, de pedra, aquele mesmo (mas o inglês meio holandês não sabia) outro Rei.

Meteram-se muitos golos: uns estrangeiros, outros nossos, mesmo aqueles que, sendo estrangeiros, eram adoptivamente nossos.

A questão foi saber quem tinha ganho e quem tinha perdido.

E se aquele jogo contava e para quê.

Porque, a bem dizer, não parecia haver equipa do outro lado do campo. Só jornalistas e maquilhadores.

E porque os golos eram rotativos.

E os desempates a penalties tiveram de ser desempatados com os investimentos publicitários.

A UEFA, de UEFA bordada no bolso do peito do casaco, ao fim e ao cabo, perdoou um estádio.

E sancionou.

Pudera, não.

O mundo viu em directo, embora imediatamente antes e imediatamente depois de outros directos, pelo que, transbordando o olhar, afogado em imagens, não fixou, no quê, o onde.

Era a golobalização.

Ganhámos a derrota mais parecida com uma vitória de que há memória.

Fomos um instante de nós.

Mal acordámos, adormecemos. E fomos para o trabalho. Aquele que desemprega o emprego.

De noite, as nossas estátuas jogam à bola com a esfera armilar.

O “eléctrico” continua à procura da Cidade.

 

Artur Portela