A memória é prospectiva. E futurista. Sobretudo quando interrogamos homens de qualidade.
Não tanto quanto aos óbvios do que dizem comemorativos coros, afinados por sinos e
calendários. Mas quanto aos défices do presente. Quanto ao ausente no presente.
Eu não quereria pôr uma sombra no olhar de António Paulouro. Queria que a memória dele,
que a reconstituição da memória dele, que a lógica ética e a lógica cultural do personagem
dissessem o que se lhes oferecesse sobre o Jornalismo pelo qual ele se bateu.
E sobre o Jornalismo que é hoje vigente.
Descontadas que sejam as excepções.
O jornalismo de assalto ao poder.
E de substituição do poder.
O jornalismo que de 4º poder passou a 3º e de 3º a 2º.
O jornalismo que luta de galo contra os galos que cantam de jornalistas.
O jornalismo dos processos de intenção.
O jornalismo do ódio, do azedume, da pátria finada.
O jornalismo feirante.
O jornalismo auto-feirante.
O jornalismo-rock e o jornalismo-rei.
O jornalismo do self e do self-marketing.
O jornalista-badana.
O jornalismo que se entrevista a si próprio a entrevistar-se a si próprio.
O jornalismo que monta feiras de opinião que são verdadeiros jogos de massacre.
O jornalismo pré-fabricado.
O jornalismo que reporta burocraticamente, pela ordem da grandeza da representatividade
democrática ou outras, todos os partidos políticos, todos os comandantes de bombeiros e
todos os inquilinos dos prédios abalados.
Jornais de referência ou jornais de transferência? Ou de inferência? Jornais bancários ou
banqueiros ou banquistas? Ou balconistas?
Eu diria que António Paulouro não foi para isto nem por isto que cá andou. É um abuso dizê-
lo? Arrisco. Na memória de uma amizade que não era sobretudo uma cumplicidade mas uma
lealdade, uma franqueza e uma exigência mútua.
Nada disto era antecipado por este homem de carácter, esta cara moral, esta honra beirã, este
fundo honrado do Fundão.
Há apelidos que são apelos.
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