 |
HISTÓRIA FANTÁSTICA
DE ANTÓNIO PORTUGAL
SEGUNDO (VEJAM LÁ!)
O AUTOR
Talvez esta minha História Fantástica de António Portugal , sendo um romance, seja uma crónica. E, sendo uma crónica, seja um coral. E, sendo um coral, seja uma saga. Uma banda escrita. Um filme em garamond.
Vem, talvez, esta História Fantástica lá do fundo de uma nossa herança múltipla e viva: a herança dos cronistas de Avis, dos barrocos, dos românticos, dos realistas, dos modernistas. Como se deverá a Spielberg. E ao Woody Allen. |
O protagonista é um português-Portugal. No sentido de que tem os olhos verde-rubros e leva de apelido a Nação.
Não só, porém.
É que o livro vai desde o 5 de Outubro até a esta nossa Idade das Prisões Preventivas. Abre com o assassínio do alienista dr. Miguel, faz flash back ao regicídio, assiste à fuga da família real, via Ericeira, em direcção ao couraçado bife, avista o Sidónio, sofre o sidonismo, sangra uma Leva da Morte, vê o sol a dançar ali para os lados de Leiria, leva balázios dos boches nas trincheiras da Flandres, deixa-se premonitoriamente burlar por um dito A. Reis, apanha com um generalão abigodado no Palácio de Belém, chega-lhe, como quem não quer a coisa o inexorável Dr. Oliveira, vai entregar refugiados espanhóis republicanos a Badajoz, aos franquistas, está na inauguração da Exposição do Mundo Português, leva porrada de uma "secreta" dita DITA, joga à bola, canta o fado, está na entrega do 1º Nobel português, assiste a um assalto a uma nave em pleno Atlântico, chora massacres africanos, sobrevoa, de anjo, o assassínio fronteiriço e torpe de um tal general Bravura, assiste a um fantasmático e hospitalar conselho de ministros do Dr. Oliveira, faz uma revolução numa jarro de cravos, adere à província Europa, neo-liberaliza assim a modos que com um frenesim pacóvio, entra em pânico judicial-prisional. E termina onde começa, num hospício.
Tudo ou quase tudo isto com António ou como protagonista ou/e como testemunha.
Numa palavra: um filme acelerado de um Século XX português.
Sendo este António Portugal o que é ele mais o filme dos outros que nele se projecta: com os seus arranques, as suas teimas, as suas utopias, as suas depressões e as suas exaltações. E o seu amor às mulheres, que, neste livro, estão cheias de força, e abundantemente se fazem amar. Tanto, que, no final do livro, o essencial para António será saber o sabor dos beijos de uma Genciana.
No todo, o romance é capaz de ser a aventurosa narrativa de um combate acidentado, feito de derrotas e de vitórias, sendo, destas últimas, a maior, a convicção de que nunca, mas nunca, caramba!, está tudo perdido.
Combate esse por uma ideia que, também ela, tem olhos verdes. E rubros. Essa ideia chama-se Liberdade.
Portanto, digamos que esta História Fantástica de António Portugal será um romance histórico.
Não quer é fazer-se passar por História "paralela". Oficiosa e hiper-realista. Trajada a rigor, tipo Cortejo Histórico do Leitão de Barros. E falando à época: em gótico e a chiar pena de pato.
A minha História Fantástica assume-se como selectiva, parcial, engajada, excessiva. Com todos os direitos, e deveres, da ficção. Procurando significar o real pela elipse da invenção e do próprio fantástico. Não temendo nem a banda do riso nem o folhetim das lágrimas. Chorando e rindo. Talvez comovendo. Talvez despregando as bandeiras de algum riso.
Quando me perguntam se gostei de escrever este livro, a resposta é: gostei muitíssimo. Tanto como gostaria de que gostassem de o ler.
Artur Portela |