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As Noivas de São Bento

As Noivas de São Bento são um romance epistolar que diz a história de um país de fábulas e emasculações. Um país vigiado por padres, penitências e polícias de óculos escuros. Cartas, notas, instruções, alocuções, cartões-de-visita, escritos, ao longo de sessenta anos, por um homem que vive no alto de uma calçada, resguardado por uma Criada, elas dizem o pretendente de uma proibida noiva, o namoradeiro estudante do Mondego, o usador de alheios versos, o Senhor Doutor da tal Criada, o esquivo parceiro de chá de uma titular, o alvoroçado de uma francesa, o cliente de uma cartomante, o manobrador de mulheres, o visitante de uma cantora num misterioso hotel à beira de um teatro de Ópera, o ídolo de agradecidas estátuas. Tudo isto num arco de vida, ambição, festejada glória de estafe e bandeiras, medalhada morte e afogamento.

Porque o mar sobe sobre este mítico e metafórico país em forma de pensativo perfil, alagando planícies e praças, subindo montes e calçadas. Isto enquanto prossegue, do lado de lá das portas e dos reposteiros, um corrupio de mulheres, uma contradança, um roçagar de ramos de flores e de saias de seda, um conflito de perfumes. Um verdadeiro desfile de penas, presilhas e segredos. Uma almofada espetada de alfinetes. Que vagarosamente sangra. Talvez afinal ajuste de filiais contas. Em suma, Portugalo e portugalinhas, embora sem ovos carimbados. Ou uma alegoria da cadeira. Com direito a manta de pôr nos joelhos e a chapéu preto. As Noivas de São Bento são uma delícia de romance epistolar. Com cheiro a saias, saiotes e sotainas. Sombras de condecoradas viúvas. Terreiros de órfãs. Generais às guaritas. E almirantes à tesoura. Sina, assim, nossa. De ler nas palmas das mãos.